Lucio Massafferri Salles
Colunistas 23/Abr/2026 às 08:56 COMENTÁRIOS
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Como se lavam as mentes?

Lucio Massafferri Salles Lucio Massafferri Salles
Publicado em 23 Abr, 2026 às 08h56

“Lavagem cerebral” e “dissonância cognitiva” explicam menos do que parecem. Ao reduzir fenômenos coletivos e estruturados a estados individuais, deixa-se fora de cena o que produz os efeitos.

Imagem: ilustração conceitual (Portal Fio do Tempo)
Imagem: ilustração conceitual (Portal Fio do Tempo)

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Em outubro de 2022, poucos dias antes do segundo turno, um amigo meu, professor, tentava explicar por que sua mãe, de oitenta anos, repetia ideias que nunca tinham pertencido às suas falas. Ideias sobre inimigos que precisavam ser detidos, fraude de urnas, ameaças. Com a voz de quem procurava um diagnóstico, ele me disse: “Ela sofreu uma lavagem cerebral. É dissonância cognitiva.” Eu entendi o sofrimento. E entendi a tentativa de nomear. Ali já estava o problema.

Edward Hunter e as origens da lavagem cerebral

Repetidos em mesas de bar, em colunas de opinião, em lives de analistas políticos improvisados, esses dois termos não explicavam o que havia acontecido com a mãe dele. Descreviam efeitos, ou ao menos pretendiam. E ao fazê-lo, escondiam a dinâmica. Há termos que funcionam como uma espécie de cortina. Quanto mais eles se repetem, menos se vê. “Lavagem cerebral” e “dissonância cognitiva” estão entre eles. Não porque sejam falsos em suas definições originárias, mas porque, transplantados para o debate político, operam como instrumentos de ocultação. Camuflam o agente. Ocultam o método. Ocultam a arquitetura. Escondem a intencionalidade. E essa quádrupla ocultação dificilmente é acidental. Quem diz “lavagem cerebral” não precisa dizer quem lavou, com quê lavou, por quê lavou, a mando de quem. Quem diz “dissonância cognitiva” transfere o problema para a psique da vítima e, com isso, acaba liberando de exame a máquina que fabricou a confusão. Esses termos não explicam. Travam a explicação.

A verdadeira história da lavagem cerebral e como ela moldou a América

Em 1950, a expressão “lavagem cerebral” foi cunhada pelo jornalista Edward Hunter para descrever o que o regime chinês supostamente fazia com os prisioneiros de guerra. Era uma metáfora de guerra fria, e não exatamente uma categoria científica. Ao estudar de fato os prisioneiros repatriados, o psiquiatra Robert Jay Lifton preferiu outro termo: reforma do pensamento. Em seu Thought Reform and the Psychology of Totalism, Lifton mostrou que o processo não era instantâneo nem mágico. Era gradual, situado, estruturado, e reversível quando a pressão cessava. Estudando os mesmos casos em contexto militar, o psicólogo social Edgar Schein confirmou: o que ocorria não era apagamento, mas reorganização de crenças sob condições extremas de isolamento e pressão psicológica. Em Brainwashing: The Science of Thought Control, a neurocientista Kathleen Taylor acrescentou um dado decisivo: a eficácia desses processos depende de vulnerabilidades físicas e psíquicas pré-existentes, fadiga, isolamento, medo, necessidade de pertencimento. Não de uma técnica onipotente. O cérebro não é como um SSD que se formata. Mas “lavagem cerebral” sugere exatamente isso: um tipo de poder absoluto e unidirecional. E ao fazê-lo, protege quem opera o processo e some com ele da cena. Porque se a cabeça foi “lavada”, a pergunta sobre quem montou e trabalhou na lavanderia nunca precisa ser feita. Olha-se para as roupas, e descuida-se das máquinas.

Leia aqui todos os artigos de Lucio Massafferri Salles

O caso da dissonância cognitiva é mais sutil, e talvez por isso mais nocivo. Em 1957, Leon Festinger descreveu um estado psicológico individual: a tensão que surge quando um sujeito mantém duas cognições inconsistentes, uma crença e um fato, uma atitude e um comportamento. Desconfortado, o sujeito busca resolução: muda a crença, nega o fato ou ajusta a percepção. Festinger estudou seitas, não eleitores. Descreveu um mecanismo mental, não uma condição política. Festinger não precisava pensar em agentes externos organizados. O mecanismo que ele estudava se resolvia no sujeito. Aqui, ele é produzido.
Quando esse conceito é transplantado para fenômenos coletivos de manipulação em massa, algo muito grave acontece. O problema deixa de ser a máquina que bombardeou milhões de pessoas com desinformação extremamente organizada e passa a ser a “mente desafinada” do indivíduo. O eleitor acaba virando o paciente, como numa estranha inversão da Casa Verde, de O Alienista. Enquanto isso, o agressor desaparece nessa névoa conceitual.

De quem é a dissonância cognitiva?

Em um artigo de outubro de 2022, Ronaldo Tadeu de Souza colocou a questão de forma precisa: de quem é, de fato, a dissonância? Se milhões de pessoas recebem, simultaneamente, conteúdo fabricado por estruturas profissionais de propaganda, com algoritmos de segmentação, perfis psicográficos, gatilhos emocionais calibrados, a dissonância não é dos que acreditaram. É do sistema que a produziu como efeito calculado. Quando aplicado sem a devida crítica, o conceito desloca a responsabilidade: tira do campo de análise os dispositivos técnicos, políticos e estruturais que agiram sobre o sujeito e deposita tudo na sua cabeça. Diante disso, a questão deixa de ser somente psicológica. Passa a ser, também, arquitetônica.
O que realmente ocorre nesses processos não é magia nem desafino. É ciência aplicada a vulnerabilidades constitutivas da mente humana. Limites de atenção. Sobrecarga informacional. Dependência de contexto emocional. Necessidade de coerência narrativa. Essas não são falhas: são características estruturais do aparato psíquico humano. E são exploráveis de forma calculada, mensurável, escalável. O caos não é desordem aleatória. É um ambiente deliberadamente instável, projetado para abalar a capacidade de orientação do sujeito e, na fumaça que produz, administrar as percepções de quem nele está imerso. Sobrinho de Sigmund Freud, Edward Bernays já falava, nos anos 1920, em engenharia do consentimento: a ideia de que opiniões públicas podem ser fabricadas sistematicamente, sem que os alvos percebam a fabricação. Noam Chomsky, que dedicou parte de sua obra a dissecar essa engenharia, mostrou que ela não era desvio nem excesso: era um método. Um século após Bernays, a estrutura é a mesma; mas a escala é outra. SCL Group, Cambridge Analytica, fazendas de desinformação: não se instrumentalizam por “lavagem cerebral”. Trabalham com perfilização comportamental, microssegmentação, gatilhos emocionais personalizados, dosagem controlada de conteúdo. É o que, em outro registro, Richard Szafranski chamou de guerra neocortical, ataque dirigido não ao corpo do inimigo, mas ao seu processo decisório.

Desestabilizar para conquistar — Arquitetura do Caos III

Em Guerras Híbridas, Andrew Korybko reuniu esse vocabulário: o loop OODA, conceito de John Boyd retrabalhado por Richard Szafranski, que descreve o ciclo de observar, orientar, decidir e agir, e mostra como sobrecarregá-lo no adversário-alvo; o vírus ideológico; a mente de colmeia; o caos administrado. Korybko não escreveu como psicólogo. Escreveu como operador. E isso, aqui, é precisamente o que importa. É o que nomeei como arquitetura do caos, a construção deliberada de ambientes informacionais tóxicos, desenhados para desorientar antes de convencer.

O poder da linguagem na arquitetura do caos

Preciso apontar o óbvio: não estou propondo que se jogue fora Festinger ou que se ignore Lifton. A dissonância cognitiva descreve algo real, qualquer clínico sabe disso, qualquer pesquisador em psicologia social sabe disso. A noção de reforma do pensamento nomeou processos documentados em contextos de confinamento e controle total. O problema é outro. É o que acontece quando esses conceitos saem do lugar onde funcionam e passam a circular como chave-mestra do debate político e estratégico. Aí acabam perdendo a precisão que lhes dava sentido. A dissonância vira explicação-coringa. A lavagem vira conforto retórico: um jeito especial de dizer “não há nada a fazer, a pessoa já foi tomada.” Ambas despolitizam o que deveriam politizar.

As pistas do método ‘Cambridge Analytica’ na campanha de Bolsonaro

Não creio que haja solução fácil para oferecer. Mas penso que uma primeira exigência é da ordem da nomeação. Nomear com precisão é o primeiro ato de resistência. Dizer, por exemplo, “engenharia do consentimento” em vez de “lavagem cerebral” incita a perguntar: quem engenheirou? Quem concebeu isso? Dizer “caos administrado” em vez de “dissonância cognitiva” induz a questionar: quem administra? Por que implementar caos favorece a manipulação e o controle? Nesse ponto, a imprensa, as universidades e as análises políticas têm uma responsabilidade específica: não banir os termos, mas recusar a preguiça conceitual que alguns deles autorizam.
Há uma grande diferença entre dizer “ela foi manipulada” e dizer “uma operação de guerra informacional, financiada, segmentada e baseada em perfis psicográficos, atingiu deliberadamente pessoas com o perfil dela.” A primeira frase é compreensível. A segunda é precisa.
Enquanto o debate público se satisfizer com termos que nomeiam efeitos sem nomear o que os produz, quem montou a arquitetura segue operando, sem ser nomeado.
É justamente aí que o verdadeiro problema começa.

Vale ler: Robert Jay Lifton, Reforma do Pensamento e a Psicologia do Totalismo; Edward Bernays, Propaganda; Noam Chomsky, Mídia; Fabricando o Consenso; Andrew Korybko, Guerras Híbridas.

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*Lucio Massafferri Salles é filósofo, psicólogo e psicanalista, jornalista, professor do Departamento de Psicologia da UCAM e professor de Filosofia, com atuação em Educação Especial, na rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro. Doutor e mestre em Filosofia pela UFRJ, especialista em Psicanálise pela USU, realizou pós-doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. Autor de Raízes Sofísticas: a palavra como fármaco e A arquitetura do caos: guerras híbridas, operações psicológicas e manipulação digital. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.

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