Lucio Massafferri Salles
Colunistas 19/Mar/2026 às 17:11 COMENTÁRIOS
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Polarização afetiva e o fim da convivência

Lucio Massafferri Salles Lucio Massafferri Salles
Publicado em 19 Mar, 2026 às 17h11

Quando o adversário deixa de ser alguém com opinião diferente e passa a ser alguém que você detesta pelo grupo a que ele pertence, o pertencimento substitui o pensamento — e a convivência se dissolve

Imagem: Arquivo do Portal Fio do Tempo
Imagem: Arquivo do Portal Fio do Tempo

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Uma criança foi desconvidada da festa de aniversário do próprio amigo. Ela não havia feito nada de errado. Não havia brigado, não havia se comportado mal, não havia criado nenhum conflito. O motivo pelo qual o convite foi retirado não tinha nada a ver com ela. Tinha a ver com o voto da mãe da criança. O pai do aniversariante, ao descobrir que ela votava em Lula, decidiu que o filho da “petista” não era bem-vindo na festa do filho “bolsonarista”.
Há outro episódio, de natureza e gravidade incomparavelmente maiores. Em Foz do Iguaçu, no Paraná, um homem invadiu a festa de aniversário de outro (2022). O anfitrião havia decorado o ambiente com imagens e bandeirinhas de Lula. Entre os convidados, havia amigos que votaram em Bolsonaro, e estavam lá, comemorando juntos. O invasor não estava entre os convidados. Entrou armado e matou o dono da festa. O motivo foi o mesmo: ódio político.

Homem invade festa aos gritos de ‘Aqui é Bolsonaro’ e mata dirigente petista, diz polícia

Dois episódios, uma mesma lógica. Graus radicalmente diferentes de violência, mas a mesma estrutura subjacente: o outro deixou de ser pessoa. Virou lado supostamente hostil. Virou ameaça. Virou alvo. A isso se dá o nome de polarização afetiva.

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Discordar é legítimo. Faz parte da democracia. Pessoas com visões diferentes de mundo, em atrito, disputando ideias, programas, projetos: isso é polarização ideológica, e ela faz parte do jogo. O problema não está no atrito, na diferença. Está em algo mais fundo e mais perigoso: quando o adversário político deixa de ser alguém com opinião diferente e passa a ser alguém que uma pessoa detesta não exatamente pelo que ela pensa, mas pelo grupo a que pertence. Quando o pertencimento substitui o pensamento, a convivência se dissolve. Você não precisa saber o que o outro defende. Basta saber de que lado ele está. É tragicamente cômodo. É aí que a política perde o que a caracteriza numa democracia: o debate, o diálogo, a divergência que se resolve pela palavra, à qual os atos se seguem. É o caso em que a política se veste de guerra. Na guerra, a palavra pouco pesa em comparação com a bala, com a faca. O eleitor que vota diferente de você acaba deixando de ser mais um cidadão com outra opinião, para encarnar um inimigo. E inimigo não se convence; se elimina.

Por que a polarização afetiva precisa estar no centro do debate no Brasil

Em 1990, no Reino Unido, Nigel Oakes fundou o Behavioural Dynamics Institute, um centro de pesquisa dedicado, segundo registros da própria instituição, a compreender e influenciar o comportamento de grupos por meio da comunicação. Três anos depois, em 1993, criou o SCL, os Laboratórios Estratégicos de Comunicação, aplicando a metodologia do BDI em campanhas eleitorais e de comunicação para governos de diversos países. A versão oficial é elegante. O que Brittany Kaiser (ex-diretora da Cambridge Analytica e testemunha direta) documenta em seu livro Targeted é outra coisa. A mesma metodologia desenvolvida para “entender o comportamento de grupos” foi aplicada para construir perfis psicográficos individuais sem consentimento, manipular eleições e deliberadamente alimentar divisões políticas em populações civis. O “entender” virou microtargeting. A “campanha para governos” virou operação para eleger candidatos e destruir adversários. O instrumento era o mesmo. O uso, radicalmente diferente do que o site sugere. Em 2013, Alexander Nix criou a Cambridge Analytica como braço eleitoral civil do SCL. O que havia sido desenvolvido para influenciar populações seria agora aplicado a eleições democráticas no coração do mundo ocidental.
Para que essa infraestrutura funcionasse em escala eleitoral, eram necessários dois elementos que o SCL e a Cambridge Analytica não tinham sozinhos: dinheiro e direção política. Robert Mercer, magnata dos investimentos e um dos homens mais ricos dos Estados Unidos, foi o dinheiro. Produtor de mídia conservadora, estrategista político e futuro conselheiro de Trump, Steve Bannon foi a direção. Alexander Nix foi o executor técnico. Segundo Kaiser, os três se encontraram no iate de 75 milhões de dólares da família Mercer atracado atrás de um bar às margens do rio Hudson, em Nova York. Longe de qualquer transparência, longe de qualquer prestação de contas, enquanto cidadãos seriam destruídos pela polarização que esse encontro ajudou a fabricar, os fabricantes celebravam longe de qualquer olhar público.

Por onde anda Robert Mercer, o magnata por trás da Cambridge Analytica

Bannon não inventou o ressentimento. Soube usá-lo. Nos fóruns, nos imageboards (no 4chan), nas comunidades de games (nas entranhas da internet) acumulava-se silenciosamente o ressentimento difuso de pessoas sem projeto de futuro. Uma força política inexplorada, sem nome, sem organização, sem liderança. Ter um programa não era necessário. O que importava era a construção coletiva da figura do inimigo, não como argumento, mas como experiência emocional compartilhada, como identidade negativa. Você não precisa saber o que quer. Basta saber quem você odeia. Basta ter alguém a quem culpar. A raiva encontra o seu objeto e se organiza em torno dele, e quando isso acontece em escala, pode facilmente virar força eleitoral. O Gamergate de 2014 foi uma espécie de ensaio em grande escala. Uma máquina de ódio online foi mobilizada contra mulheres no universo dos games, com assédio, ameaças, coordenação em fóruns, amplificação algorítmica. Bannon viu o alcance do que havia sido possível. Entendeu o que podia ser feito com aquilo. Trump eleito em 2016 foi a estreia de fato.

Como o estrategista-chefe de Trump usou videogames para espalhar o ódio

A Cambridge Analytica não era uma agência de comunicação comum. O que a diferenciava era a integração, num mesmo espaço, de psicólogos comportamentais e cientistas de dados trabalhando lado a lado. Os psicólogos aplicavam o modelo OCEAN (abertura, consciência, extroversão, amabilidade e neuroticismo), uma metodologia psicométrica capaz de mapear traços de personalidade individuais a partir de dados digitais. Os cientistas de dados processavam terabytes de informação para alimentar algoritmos capazes de prever comportamentos com precisão.
O resultado não era apenas saber quem era o eleitor. Era saber como ele pensava, o que o movia, onde estava sua vulnerabilidade: qual mensagem específica o faria mudar de comportamento. Como documenta Kaiser em Targeted, era o que ela descreve como uma linha de montagem intelectual, onde a psicometria comportamental encontrava a força bruta do processamento de dados. Não era exatamente uma ideia nova. Era uma ideia já conhecida sendo aplicada com instrumentos radicalmente novos. No início do século XX, Edward Bernays já havia compreendido que as decisões humanas não são movidas puramente pela razão, e que era possível fabricar o consentimento atuando sobre esses desejos em escala, via meios de comunicação de massa. Bernays disseminava a mesma mensagem para todos, calibrada para atingir o denominador comum do inconsciente coletivo. Funcionava. Era artesanal.

Edward Bernays (a engenharia de consentimento)

Hoje, entendo que a Cambridge Analytica usou mais ou menos o mesmo princípio, individualizado. Em vez de uma mensagem para todos, uma mensagem para cada perfil psicográfico, para cada mapa de vulnerabilidades emocionais de cada pessoa. O inconsciente coletivo da engenharia de propaganda de Bernays foi meio que transformado em inconsciente individual mapeado algoritmicamente: a datificação do eu, como nomeia a advogada e ativista guatemalteca Renata Ávila, especialista em tecnologia e diretora da Open Knowledge Foundation. A linhagem intelectual me parece direta. O salto tecnológico é abissal. É o que este ensaio chama de manipulação política serializada: não mais a propaganda que fala com multidões, mas a que sussurra para cada um que as compõe, sem que cada um perceba que há um sussurro direcionado a ele. Essa infraestrutura encontrou um terreno que vinha sendo preparado há mais de duas décadas. Em 2017, Sean Parker, primeiro presidente do Facebook e criador do Napster, admitiu publicamente o que sabia desde a virada do século: a plataforma foi construída para explorar vulnerabilidades psicológicas. O feed de notícias, lançado em 2006, foi projetado para liberar dopamina em doses calibradas, mantendo o usuário dentro, capturado, reagindo. Os engenheiros descobriram que o engajamento máximo é produzido pela raiva e pelo ressentimento. A raiva prende mais do que a alegria. A indignação compartilha mais do que a informação. O algoritmo não é algo neutro. O ódio dá lucro.

Sean Parker, criador do Napster, diz que Facebook explora fragilidade humana

É preciso dizer com clareza que a “culpada” não é a internet. A tecnologia é também um instrumento. O problema está em quem a controla e para quê. O que deve haver é compreensão estrutural, perceber a dinâmica, o poder, o alcance e as consequências possíveis do uso desta tecnologia. A Cambridge Analytica e o SCL demonstraram, com documentação, o que acontece quando essa tecnologia é colocada a serviço da manipulação política serializada.
O resultado de mais de duas décadas desse processo é uma sociedade que vive cada vez mais dentro de bolhas, em câmaras de eco onde o imaginário se alimenta de si mesmo, onde a capacidade de dialogar vai se extinguindo, onde pátios de escola, praças, associações de bairro e demais locais de convivência vão morrendo de inanição. Nesse contexto, o sujeito de hoje não é reprimido. Cuida-se para que ele seja satisfeito dentro da própria bolha, onde ninguém o contradiz, ninguém o perturba, ninguém lhe exige o trabalho incômodo de reconhecer o outro como pessoa. Assim, a bolha não é uma prisão. É garantia de identidade, de certo conforto e proteção. E quando vira clausura, talvez, quem sabe, torna-se mais difícil de abandonar do que qualquer grade. Porque grades se veem. A bolha, não. No Brasil, os dados disponíveis indicam uma assimetria relevante na forma, escala e organização da violência política recente. Os dados de 2022 registram mortes dos dois lados, e isso precisa ser dito com honestidade. Mas o que os dados também indicam, com consistência, é uma concentração bem maior de episódios de violência organizada nesse campo. O assédio coordenado em rede, as ameaças sistemáticas a jornalistas, mulheres, pesquisadores e artistas, as milícias digitais organizadas, a celebração pública da violência por lideranças, nada disso tem equivalente documentado no campo progressista.
Bolsonaro incitava explicitamente. A linguagem do fuzil, da metralhadora, do “vou fuzilar a petralhada” não era mera retórica acidental. Era a própria mensagem. Dominação, força, eliminação do adversário como programa político deliberado. Quando a violência é celebrada de cima, ela acaba descendo. E desce organizada, propagandeada nas milhares de câmaras de eco. Arrisco dizer que pode haver uma razão estrutural para essa assimetria. Historicamente, a esquerda opera pela lógica da reivindicação, com pauta, demanda, com algum projeto, ainda que imperfeito e por vezes contraditório. Ao passo que, em seu núcleo duro, me parece que a extrema direita brasileira não tem equivalente programático. O que se tem é a figura do “inimigo”. A roupagem desse inimigo imaginário muda: ora PT, ora comunismo, podendo ser globalismo, o STF, mas a função fantasmática que ameaça e assombra não muda. O inimigo parece ser a cola que substitui qualquer proposta concreta, elaborada.
Certa vez, Nietzsche nos desenhou o ressentimento como a moral daqueles que não conseguem elaborar derrotas, transformando-as em potência. A coisa se passa como se essa extrema direita brasileira não tivesse conseguido elaborar a redemocratização, ou simplesmente aceitá-la. Nunca elaborou as derrotas eleitorais. E o que foi se sedimentando ao longo dos anos, atravessado pela manipulação política serializada que descrevemos, foi se convertendo em método, em organização, em violência.

Voltemos ao episódio que abriu este ensaio. A mãe que gravou o vídeo foi corajosa.

Ela fez o que muitas não fariam: tornou público um ato de ódio que poderia ter ficado restrito ao silêncio doméstico. Consolou o filho. Explicou. Tentou fazer sentido de algo que não faz sentido nenhum. Vale lembrar: ela levaria o filho à festa do amigo, filho do tal eleitor do candidato adversário ao seu. Ela não proibiu. Quem proibiu foi o outro. Não cabe julgamento sobre ela, portanto, ela foi também vítima de um ódio que não lhe pertencia, e que atingiu o filho antes de atingi-la. Mas há uma pergunta que o episódio coloca, e que não deve ser evitada. Ao dizer ao filho que “bolsonaristas não têm empatia”, ela estava certa sobre o ato, o pai da outra criança fez algo cruel e moralmente reprovável, atacou uma criança para atingir a mãe, sua inimiga imaginária. O que escorregou um pouco foi um acento na generalização: transformar o comportamento de um homem específico na característica de um grupo inteiro. É compreensível. Mas, sem perceber, ela pode ter plantado na mente do filho a percepção da existência de um campo inimigo amplo, onde antes havia apenas um homem que agiu mal. No vídeo, ela foi cuidadosa. Explicou sobre o amigo. O único deslize foi o uso da categoria. E categorias, quando entram cedo na cabeça de uma criança, podem fazer um trabalho silencioso e duradouro. Porque há algo que as crianças sabem antes de nós ensinarmos o contrário. Para elas, a amizade está acima da cor da camisa, do voto, do grupo. Via de regra, a criança gosta do outro e quer se relacionar, e isso está acima de qualquer disputa de adultos. O problema começa quando os adultos intervêm. E talvez seja nas crianças que ainda resida alguma esperança de reconstrução da convivência que este ensaio chora, antes que os adultos consigam terminar o serviço de destruição.

O caos entre a virtualidade e o apagamento das relações presenciais

O que fazer com tudo isso? Não sei ao certo. Mas algumas direções me parecem possíveis, e vale nomeá-las.
A primeira passa pela linguagem. Nomear o ato, não o grupo. “Essa pessoa agiu com intolerância” em vez de “esse grupo é assim”. Parece simples. Mas não é nada simples. A generalização é o combustível mais barato da polarização afetiva, e produzimos ela dentro de casa, na mesa do jantar, na sala de aula, sem perceber. Cortá-la exige atenção cotidiana, não lei, não recurso, não instituição.
A segunda passa pela escola. Não a escola que transmite conteúdo por vídeo, que substitui o professor pela tela, que adota leis proibitivas de celulares como se isso fosse capaz de apagar décadas de omissão. A escola como espaço de atrito real, de convivência com quem pensa e é diferente, de aprender a sustentar o desconforto do outro e com o outro, sem precisar eliminá-lo, cancelá-lo ou bloqueá-lo. Esse espaço está morrendo. E sua morte não é mero acidente.
A terceira passa pela responsabilização das plataformas. O algoritmo que lucra com o ódio não vai se reformar por boa vontade, jamais. Regulação não é censura. É responsabilização. Condição necessária, mas que não resolve sozinha. Sem ela, nada muda. Com ela apenas, também não muda tudo.
A quarta, e talvez a mais difícil, passa pelas lideranças. Quinze anos de polarização afetiva produziram carreiras inteiras construídas sobre o ódio. O ódio aqui é produto. Enquanto render voto e clique, haverá quem o venda. A saída passa por lideranças dispostas a abdicar dessa vantagem. Historicamente, isso só acontece quando o custo do conflito se torna insuportável para todos. Quando a desgraça, enfim, se torna o motor.

Afeto, não ideologia: uma perspectiva de identidade social sobre a polarização

É certo que não há solução rápida. O que existe são práticas, escolhas cotidianas, posturas, que ou alimentam ou solapam a desumanização. Nas famílias, na escola, na fala pública. No modo como nos referimos ao outro. No que decidimos ensinar, e no que decidimos, conscientemente ou não, perpetuar. As crianças que são desconvidadas das festas vão crescer. O que ficará marcado depende, em parte, do que os adultos ao redor delas decidirem fazer com o ódio que perceberam, com as ações deliberadas de ataque.
Do que estamos dispostos a abrir mão?
Se a guerra for a via e a solução, o que me parece estúpido e absurdo, que sejam sepultadas de vez, a política, a palavra, a educação.

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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.

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