O jogo dura 90 minutos. A amargura fica.
O torcedor não assiste mais só ao jogo. Acompanha estatísticas, aposta, consome opiniões o tempo todo. O jogo acaba, o clima não. A amargura já entra em campo antes do apito.

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Maracanã, 26 de abril de 2026. Fluminense 2×1 Chapecoense. O goleiro Anderson foi o nome do primeiro tempo: defesa atrás de defesa, inúmeras, manteve o zero no placar diante de um Fluminense que não parou de atacar. A Chape empatou com um golaço raro de Ênio, bola no ângulo, sem chance pra Fábio. John Kennedy saiu do banco e decidiu com uma bomba de esquerda na gaveta. Foi uma vitória sofrida, dramática, e bonita. Era exatamente o futebol que se ama. E boa parte da arquibancada vaiou. Naquela noite, vaiou ainda no zero a zero, vaiou no intervalo, vaiou um time que deu tudo o que um torcedor pode pedir: entrega, drama e gol salvador; com catarse no fim.
O fenômeno é esse. E não é só do Fluminense.
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A leitura mais imediata — e que circula com naturalidade no debate esportivo — é a da elitização dos estádios. A gentrificação pós-Copa 2014 expulsou o torcedor popular, aquele que tinha relação visceral com o jogo, uma relação menos mediada. Há verdade nisso. Mas a explicação trinca de vez quando se olha para o Palmeiras. Um clube que ganha com regularidade incômoda, com orçamento robusto, com sucessão de títulos, e ainda assim convive com insatisfação crônica nas arquibancadas. O caso palmeirense é a fratura do argumento: pra mim, o mecanismo opera em outro nível, independente do resultado, do clube, do preço do ingresso. A elitização explica apenas uma camada. Ela não explica o todo.
A isso se dá o nome de captura afetiva do torcedor. E ela tem vetores, ainda que difusos.
Quatro forças mudaram o futebol brasileiro nos últimos dez anos, e me parece que elas precisam ser pensadas em conjunto. A primeira são as casas de apostas. A BET não é apenas um mercado paralelo. É também um dos pretextos que mantém muitos torcedores com o smartphone na mão durante os noventa minutos. O celular virou ferramenta de controle. O aparelho deixou de ser companhia e virou instrumento de monitoramento, com odds em tempo real e estatísticas na tela. A experiência afetiva foi sendo substituída por uma experiência transacional. O gol já não é catarse: é confirmação ou negação de uma aposta. O espectador transacional não vibra com o jogo, passa a tratar como conta. E as próprias plataformas alimentam, em torno disso, conteúdo que mantém quem aposta em estado de alerta permanente. Ansiedade é bom para o negócio.
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A segunda força são as Sociedades Anônimas do Futebol. A ideia de que o investidor necessariamente melhora um clube é uma fantasia bem-vestida. A lógica empresarial não é a do pertencimento. No caso do Fluminense, há recuperação real sob modelo associativo, com receita recorde e dívida ainda alta. Qualquer discussão séria precisa partir desse quadro, não da ilusão de que o investidor é um salvador, por definição. A terceira força é a arquitetura algorítmica das redes. O influenciador que celebra uma vitória sofrida tem menos alcance que o que decreta o time uma vergonha nacional. A plataforma recompensa o segundo. Não por maldade, mas por desenho. Desde a descoberta da dinâmica do feed de notícias do Facebook, em 2006, sabe-se que conteúdo negativo engaja mais, retém mais, gera mais comentários, mais brigas, mais tempo de tela. A indignação é a moeda. Vale notar que o jogo dura noventa minutos. A narrativa que o cerca dura dias, às vezes uma semana inteira de crise amplificada ou fabricada. O torcedor que consome esse fluxo chega ao próximo jogo já contaminado: espera decepção, desconfia da vitória, é incapaz de viver a catarse porque o roteiro emocional já chega formatado antes do apito inicial. Vaia-se o que ainda nem começou. O jogo dura 90 minutos. A amargura fica. Cabe dizer, e isso é desconfortável: o torcedor não é apenas vítima passiva desse arranjo. Há uma escolha, ainda que pouco consciente, em consumir diariamente o influenciador da amargura, em alimentar o algoritmo que depois nos devolve o estado de espírito que ele sintetizou. A captura é estrutural, mas não é absoluta. Ignorar isso seria desonestidade analítica.
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A quarta força é a mídia esportiva e os seus conflitos. Via de regra, jornalista esportivo tem time, e nem todos conseguem distinguir profissionalismo de paixão. À medida que o mundo digital fragmenta a imprensa tradicional, surgem operações de informação cada vez mais difíceis de detectar, inflações narrativas, agendas disfarçadas de análise, pequenas guerras de informação travadas com a artilharia possível.
O torcedor recebe tudo isso sem nenhum aviso de origem.
Volto ao Fluminense porque é o caso que tenho diante dos olhos. Lanterna do Grupo C da Libertadores, 1 ponto em 3 jogos. Derrota em La Paz por 2×0, a 3.650 metros de altitude, sem Lucho Acosta, Martinelli, Ganso e Nonato, com Bernal expulso por reclamação no início do segundo tempo. Fábio evitou uma catástrofe. Irritado na coletiva, Zubeldía devolveu pergunta com pergunta: “é bom ou não é bom?” E garantiu classificação: “não se preocupe, porque vamos nos classificar. Depois você vai me olhar na cara”. Restam três jogos: Independiente Rivadavia fora, Bolívar e La Guaira em casa. A situação é ruim, mas tem matemática. O contexto financeiro do clube, que sustenta tudo isso, a torcida em polvorosa frequentemente ignora, e parte da imprensa não tem “incentivo” nenhum para lembrar. Penso que o ponto não é defender o time, nem absolver dirigentes, nem culpar quem vaia. O ponto é outro, e é mais incômodo. O futebol que se vê do estádio ou da televisão é o mesmo de sempre: bola, gol, drama. O que mudou está fora do campo: o aparelho na mão, a aposta aberta na tela, um influenciador escalando a amargura da semana, o investidor olhando planilha, a SAF como horizonte único. Quem ama futebol no Brasil vive hoje uma experiência mediada por camadas de interesse que não eram visíveis há dez anos.
Talvez a pergunta que valha levar para casa, depois da próxima vitória sofrida vaiada antes do apito final, seja simples e desagradável:
a quem serve a minha amargura?
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*Lucio Massafferri Salles é Jornalista, Cronista Esportivo, Psicólogo, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal FluPress (YouTube).
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