Lucio Massafferri Salles
Colunistas 05/Mar/2026 às 14:30 COMENTÁRIOS
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Nas cavernas algorítmicas: o novo teatro das sombras

Lucio Massafferri Salles Lucio Massafferri Salles
Publicado em 05 Mar, 2026 às 14h30

Os prisioneiros de Platão não sabiam que estavam presos. As sombras em movimento eram tudo o que eles conheciam de real. O prisioneiro moderno também não sabe. A diferença é que, desta vez, alguém trabalhou para que continuasse assim.

Arquivo do Portal Fio do Tempo
Imagem: Arquivo do Portal Fio do Tempo

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Platão imaginou seus prisioneiros no fundo de uma caverna.
Acorrentados, de costas para a entrada, eles viam apenas sombras projetadas na parede à frente. Tomavam as sombras por realidade. Não por burrice. Mas, por não reconhecer outra coisa. A caverna era o mundo deles. O filósofo imaginava que a saída era possível. Que alguém, em algum momento, se libertaria das correntes e conseguiria sair. E que esse alguém voltaria para contar, ao ver o mundo fora da caverna. No entanto, ele sabia o que acontecia com esse alguém: os que ficaram preferiam matá-lo a abandonar as sombras.
A caverna de Platão era condição de partida. A algorítmica é uma armadilha projetada.

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Em 2017, Sean Parker, primeiro presidente do Facebook e criador do Napster, admitiu publicamente o que sabia desde o início: a plataforma foi construída para explorar vulnerabilidades psicológicas.
O feed de notícias foi projetado para liberar dopamina em doses calibradas, mantendo o usuário dentro, capturado, rolando a tela, reagindo.
Parker sabia o que estava fazendo. Ele só achou que valia a pena.

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A caverna algorítmica e a política aprenderam juntas. Trump talvez seja o primeiro líder ocidental a dispensar a mediação tradicional por completo. Um vídeo gravado de boné, num tom quase íntimo, postado às 2h30 da madrugada no Truth Social, a rede que ele mesmo controla, logo após o início dos ataques ao Irã, não é comunicação política no sentido clássico. É uma operação dentro da caverna. Funciona porque o prisioneiro está com o celular na mão, sozinho, sem mediação. No mundo analógico, seria um comunicado de imprensa. Aqui, o chefe de Estado fala diretamente na palma da sua mão. Platão não imaginou a caverna como lugar fixo. Sua alegoria sempre foi sobre a condição humana, não sobre o espaço.
O que não existia em seu tempo era um sistema capaz de construir uma caverna para cada um, mapeando desejos, confirmando crenças, alimentando o prisioneiro com as sombras que confirmam o que ele já teme ou deseja.
O resultado é uma fragmentação que se disfarça de pluralidade.
Cada prisioneiro habita uma caverna diferente e acredita que a sua é o mundo. O que aparece na tela não é exatamente o mundo.
É a versão do mundo construída para mantê-lo exatamente onde está: indignado, engajado, reagindo, às vezes anestesiado.
A polarização não é efeito colateral desse sistema. É o produto.
Uma sociedade em conflito permanente consigo mesma não consegue identificar de onde vem a força que a mantém assim.

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Não é a primeira vez que alguém tenta operar sobre o desejo antes que o próprio sujeito o reconheça. Edward Bernays sistematizou isso no início do século XX, associou o cigarro à emancipação feminina, reconfigurou comportamentos sociais sem aprovar uma lei sequer. Era sofisticado. Era também artesanal: dependia de jornalistas, de eventos, de semanas para uma ideia circular e ser absorvida. Não havia como chegar diretamente ao indivíduo.
O que existe hoje é outra coisa. Opera sobre o indivíduo concreto e sobre as fissuras de populações inteiras, em tempo real, com uma precisão que Bernays não teria como imaginar. A caverna não foi apenas reinventada. Foi automatizada, escalada. E transformada em negócio.

A novidade mais perturbadora não é a escala. É que a caverna algorítmica realmente convenceu o prisioneiro de que não há parede

Os prisioneiros de Platão não sabiam que estavam presos. As sombras em movimento eram tudo o que eles conheciam de real. O prisioneiro moderno também não sabe. A diferença é que, desta vez, alguém trabalhou para que continuasse assim. Quem sai paga preço. O prisioneiro que voltava para contar era morto pelos que preferiam as sombras. Sócrates não foi morto na caverna. Foi morto pelo tribunal que a caverna elegeu.
Hoje, o dispositivo é mais sofisticado: quem questiona não é executado.
É ignorado quando incomoda pouco. É devorado quando incomoda demais.
O tribunal não desapareceu. Migrou para a tela.
E agora condena em tempo real, sem contraditório.
Os atenienses chamavam de ostracismo o banimento do incômodo sem julgamento formal.
O nome mudou.
A engrenagem, não.

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Resta uma pergunta que esta reflexão não resolve, mas se recusa a abandonar: se o prisioneiro não sente as paredes, como percebe que está preso?
Talvez, no momento em que começar a desconfiar que as sombras foram fabricadas.
Esse momento existe. É raro.
E talvez seja o único ponto de partida que ainda há.

Quem quiser ir mais fundo: Platão (sempre), Byung-Chul Han, Psicopolítica (2014); Max Fisher, A Máquina do Caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo (Todavia, 2023); Shoshana Zuboff, O Capitalismo de Vigilância (2019).

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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.

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