Nas cavernas algorítmicas: o novo teatro das sombras
Os prisioneiros de Platão não sabiam que estavam presos. As sombras em movimento eram tudo o que eles conheciam de real. O prisioneiro moderno também não sabe. A diferença é que, desta vez, alguém trabalhou para que continuasse assim.

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Platão imaginou seus prisioneiros no fundo de uma caverna.
Acorrentados, de costas para a entrada, eles viam apenas sombras projetadas na parede à frente. Tomavam as sombras por realidade. Não por burrice. Mas, por não reconhecer outra coisa. A caverna era o mundo deles. O filósofo imaginava que a saída era possível. Que alguém, em algum momento, se libertaria das correntes e conseguiria sair. E que esse alguém voltaria para contar, ao ver o mundo fora da caverna. No entanto, ele sabia o que acontecia com esse alguém: os que ficaram preferiam matá-lo a abandonar as sombras.
A caverna de Platão era condição de partida. A algorítmica é uma armadilha projetada.
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Em 2017, Sean Parker, primeiro presidente do Facebook e criador do Napster, admitiu publicamente o que sabia desde o início: a plataforma foi construída para explorar vulnerabilidades psicológicas.
O feed de notícias foi projetado para liberar dopamina em doses calibradas, mantendo o usuário dentro, capturado, rolando a tela, reagindo.
Parker sabia o que estava fazendo. Ele só achou que valia a pena.
Criador do Napster acusa Facebook de explorar psicologia humana
A caverna algorítmica e a política aprenderam juntas. Trump talvez seja o primeiro líder ocidental a dispensar a mediação tradicional por completo. Um vídeo gravado de boné, num tom quase íntimo, postado às 2h30 da madrugada no Truth Social, a rede que ele mesmo controla, logo após o início dos ataques ao Irã, não é comunicação política no sentido clássico. É uma operação dentro da caverna. Funciona porque o prisioneiro está com o celular na mão, sozinho, sem mediação. No mundo analógico, seria um comunicado de imprensa. Aqui, o chefe de Estado fala diretamente na palma da sua mão. Platão não imaginou a caverna como lugar fixo. Sua alegoria sempre foi sobre a condição humana, não sobre o espaço.
O que não existia em seu tempo era um sistema capaz de construir uma caverna para cada um, mapeando desejos, confirmando crenças, alimentando o prisioneiro com as sombras que confirmam o que ele já teme ou deseja.
O resultado é uma fragmentação que se disfarça de pluralidade.
Cada prisioneiro habita uma caverna diferente e acredita que a sua é o mundo. O que aparece na tela não é exatamente o mundo.
É a versão do mundo construída para mantê-lo exatamente onde está: indignado, engajado, reagindo, às vezes anestesiado.
A polarização não é efeito colateral desse sistema. É o produto.
Uma sociedade em conflito permanente consigo mesma não consegue identificar de onde vem a força que a mantém assim.
Compreendendo a lógica de Trump a partir de três elementos
Não é a primeira vez que alguém tenta operar sobre o desejo antes que o próprio sujeito o reconheça. Edward Bernays sistematizou isso no início do século XX, associou o cigarro à emancipação feminina, reconfigurou comportamentos sociais sem aprovar uma lei sequer. Era sofisticado. Era também artesanal: dependia de jornalistas, de eventos, de semanas para uma ideia circular e ser absorvida. Não havia como chegar diretamente ao indivíduo.
O que existe hoje é outra coisa. Opera sobre o indivíduo concreto e sobre as fissuras de populações inteiras, em tempo real, com uma precisão que Bernays não teria como imaginar. A caverna não foi apenas reinventada. Foi automatizada, escalada. E transformada em negócio.
A novidade mais perturbadora não é a escala. É que a caverna algorítmica realmente convenceu o prisioneiro de que não há parede
Os prisioneiros de Platão não sabiam que estavam presos. As sombras em movimento eram tudo o que eles conheciam de real. O prisioneiro moderno também não sabe. A diferença é que, desta vez, alguém trabalhou para que continuasse assim. Quem sai paga preço. O prisioneiro que voltava para contar era morto pelos que preferiam as sombras. Sócrates não foi morto na caverna. Foi morto pelo tribunal que a caverna elegeu.
Hoje, o dispositivo é mais sofisticado: quem questiona não é executado.
É ignorado quando incomoda pouco. É devorado quando incomoda demais.
O tribunal não desapareceu. Migrou para a tela.
E agora condena em tempo real, sem contraditório.
Os atenienses chamavam de ostracismo o banimento do incômodo sem julgamento formal.
O nome mudou.
A engrenagem, não.
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Resta uma pergunta que esta reflexão não resolve, mas se recusa a abandonar: se o prisioneiro não sente as paredes, como percebe que está preso?
Talvez, no momento em que começar a desconfiar que as sombras foram fabricadas.
Esse momento existe. É raro.
E talvez seja o único ponto de partida que ainda há.
Quem quiser ir mais fundo: Platão (sempre), Byung-Chul Han, Psicopolítica (2014); Max Fisher, A Máquina do Caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo (Todavia, 2023); Shoshana Zuboff, O Capitalismo de Vigilância (2019).
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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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