Lucio Massafferri Salles
Colunistas 16/Abr/2026 às 10:02 COMENTÁRIOS
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Fluminense em crise? O futebol brasileiro e a síndrome de Sísifo

Lucio Massafferri Salles Lucio Massafferri Salles
Publicado em 16 Abr, 2026 às 10h02

Ontem, no Maracanã, o Fluminense perdeu para o Independiente Rivadavia. Doer, doeu. Mas não foi só pelo placar. Foi pelo que a derrota revelou: sobre o clube, sobre o futebol brasileiro, sobre um ciclo que se repete sem misericórdia e sem memória.

Imagem: ilustração conceitual /
Imagem: ilustração conceitual / “Sísifo Tricolor” (Flu Press)

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Ontem, no Maracanã, o Fluminense perdeu para o Independiente Rivadavia. Doer, doeu. Mas não foi só pelo placar.

O futebol brasileiro consolidou uma relação doentia com o tempo. Não se tolera processo. Não se tolera construção. Via de regra, se quer resultado na próxima rodada, ou o treinador cai.
No Brasil se demitem treinadores campeões, com o argumento de que “o futebol é assim”.

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Cultua-se como normal xingar ídolos na saída. Tem uma violência nisso. Não é somente impaciência. É uma incapacidade estrutural de sustentar confiança. Isso é Brasil raiz às portas de mais uma Copa. O mecanismo é sempre o mesmo: o time joga bem, a expectativa sobe além do razoável, certa euforia. Vêm dois ou três tropeços, a narrativa vira, e aí qualquer resultado ruim confirma o “fracasso”. Com raras exceções, o torcedor (em seu direito, que fique claro, pra patrulha não distorcer) não avalia ciclo, mas avalia o último jogo. Os dirigentes também não avaliam ciclo: avaliam a pressão da semana, tendo como termômetro, muitas vezes, o ruído das redes sociais.

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As redes sociais não criaram o problema, mas aprenderam a lucrar com ele. Essa dinâmica pressiona os dirigentes e encontra lá dentro, às vezes, uma diretoria que, quando não cede ao ruído das redes, inventa o seu próprio. Como no episódio lamentável da concordância com o adiamento do Fla-Flu, que irritou a torcida e desconfortou o elenco sem nenhuma pressão externa para isso. Todos sabemos que seria adiado. Mas é o cúmulo vir a público dizer que concorda e tá tudo de boa. E tem um ponto que passa batido no meio do barulho: a responsabilidade dos dirigentes com o que é seu. Ontem entrou em campo o Wesley Natã, 17 anos, faltando dez minutos, time perdendo. Pode ter sido desespero. Pode ter sido aposta. Nos dois casos, é sintomático. E a pergunta é inevitável: galera, cadê Xerém? Cadê a base que revelou Martinelli, John Kennedy e tantos outros? Não é só formar. É integrar, sustentar, dar sequência. Projeto não se faz só com discurso e contratação de ocasião. Se a principal fonte de talento do clube vira detalhe, o clube começa a se perder de si mesmo. O resultado prático disso: nenhum projeto se consolida. O treinador que sobrevive é o que ganha. O que perde, mesmo tendo construído algo real, vai embora. E o clube recomeça do zero, com novo treinador, nova ideia, nova promessa.

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Em acordo com essa paisagem, o mito-símbolo do futebol brasileiro é Sísifo. No caso, um Sísifo bastante cansado. Às vezes parece que esse Sísifo trabalha vendado, o que impede que veja o tamanho da pedra que empurra, e que sempre volta ao mesmo lugar. E ainda tem o calendário brasileiro que agrava tudo isso. É um absurdo bastante objetivo: Brasileirão, Copa do Brasil, Libertadores ou Sul-Americana, Estadual, e às vezes ainda Supercopa e Recopa. O elenco não descansa, há sempre a necessidade de reposições, o treinador não tem tempo adequado pra treinar, e quando o rendimento cai (porque vai cair, inevitavelmente) a leitura quase nunca é “o calendário cobrou o preço”. A leitura é quase sempre “o técnico perdeu o grupo”. Creio que o Fluminense está exatamente nesse ponto agora. Um time que jogava bem, talvez o melhor futebol do Brasil há poucas semanas (disseram), viu a expectativa subir rápido demais. Vieram duas semanas difíceis, e já tem gente pedindo cabeça.

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Ainda nem se entrou na Copa do Brasil. O calendário vai apertar mais. E, se o Zubeldía não ganhar os próximos dois ou três, a pressão vai ser ensurdecedora, independentemente do que ele fez, desde que entrou até agora.O céu e o inferno no futebol brasileiro não têm purgatório. É uma teologia sem misericórdia, sem remédio e sem memória.

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*Lucio Massafferri Salles é Jornalista, Cronista Esportivo, Psicólogo, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal FluPress (YouTube).

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