Depois do Último Filtro: Trump e a Teoria do Louco
Trump anunciou uma guerra pelo mesmo aplicativo onde posta memes. Não é loucura. É uma das mais antigas estratégias de poder. E o que acontece quando os filtros que a continham desaparecem um a um.

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, às 2h30, Donald Trump publicou um vídeo de oito minutos no Truth Social. Estava em Mar-a-Lago, não na Casa Branca. Nenhum discurso feito ao Congresso. Nenhuma cadeia nacional. Apenas ele diante de uma câmera, anunciando que os Estados Unidos haviam iniciado operações de combate em larga escala no Irã. Enquanto o vídeo era postado, explosões já eram reportadas em cidades iranianas como Teerã, Kermanshah e Isfahan. O ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Al-Busaidi, mediador das negociações nucleares, havia deixado Washington acreditando que as negociações avançavam e soube do ataque pela imprensa. No domingo à noite, Trump confirmou a Jonathan Karl, da ABC News, que o Aiatolá Khamenei havia sido morto. Disse: “Eu peguei ele antes que ele me pegasse. Eles tentaram duas vezes. Eu peguei primeiro.” Um presidente que anuncia uma guerra pelo mesmo aplicativo onde publica memes, e confessa, em telefonema casual, que ordenou o assassinato de um líder estrangeiro por razões que misturam geopolítica e vingança pessoal.
Trump anuncia guerra contra o Irã em vídeo de oito minutos no Truth Social
Talvez antes de qualquer análise geopolítica, antes mesmo de juízo moral, seja preciso nomear com precisão o que está em operação aqui. Não é loucura e nem incompetência. É uma das mais antigas e perigosas estratégias de poder levada ao limite de suas possibilidades e, arrisco dizer, além dele.
A racionalidade da irracionalidade
Em 1960, o economista Thomas Schelling, que receberia o Nobel décadas depois, formulou uma ideia que se tornaria central na teoria dos jogos: em certas circunstâncias, parecer irracional é a coisa mais racional que um negociador pode fazer. Se duas potências nucleares sabem que um ataque seria mutuamente destrutivo, a ameaça de atacar perde credibilidade. Mas se uma das partes parece louca o suficiente para apertar o botão de qualquer maneira, a outra passa a ter razão para ceder. A loucura aparente restaura a credibilidade da ameaça. Com frieza analítica, Schelling chamou isso de racionalidade da irracionalidade. Richard Nixon converteu a ideia em doutrina. Em 1968, antes de assumir a presidência, explicou a estratégia ao seu principal assessor, Bob Haldeman: “Eu chamo isso de Teoria do Louco, Bob. Quero que os norte-vietnamitas acreditem que cheguei ao ponto em que posso fazer qualquer coisa para parar a guerra.” Nixon podia parecer louco porque Kissinger parecia são. A ameaça era crível porque vinha emoldurada por uma burocracia que, no limite, não a deixaria se cumprir. O louco no trono era eficaz porque o trono tinha estrutura.
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O espelho do Rei Louco
Em Game of Thrones, a figura do Rei Louco (Aerys II Targaryen) funciona menos como personagem do que como experimento conceitual sobre o poder. A ficção tem uma virtude rara que a análise política não consegue: isola variáveis. Aerys governa por capricho e terror, e a corte inteira é forçada a operar num cálculo permanente: o rei está louco de verdade, ou ele está fingindo? Enquanto ninguém sabe a resposta, a corte obedece. O medo funciona. Os conselheiros se anulam diante disso. Real ou encenada, a loucura produz conformidade. Mas a série mostra o que a teoria de Schelling não consegue mostrar: o que acontece quando os filtros desaparecem. Aerys começa com conselheiros que tentam moderar seus impulsos. Um a um, eles vão sendo removidos, mortos ou silenciados. Quando o último filtro cai, quando Jaime Lannister decide que a loucura já não é performance, o sistema colapsa. O rei é assassinado. O trono cai. E a dinastia que parecia eterna desaparece em uma geração.
O primeiro mandato: loucura com contrapeso
Trump não é Aerys Targaryen, e os Estados Unidos não são Westeros. A analogia não é de identidade, mas de estrutura. A estrutura tinha filtros no primeiro mandato. Em 2017, Trump instruiu seu representante de comércio, Robert Lighthizer, a negociar com a Coreia do Sul dizendo que “esse cara é tão maluco que pode sair do acordo a qualquer momento.” A Teoria do Louco em estado bruto, e autoconsciente. Mas o mesmo período teve um segundo ato. Ao encontrar sobre a mesa do Salão Oval a carta que formalizaria a retirada dos EUA do acordo comercial com a Coreia do Sul, o conselheiro econômico Gary Cohn simplesmente a roubou. Ele simplesmente tirou o documento da mesa e saiu andando. Trump não percebeu. Poe teria reconhecido esse gesto. Em A Carta Roubada, quem detém o documento detém o poder. Lacan foi mais fundo na cena: a carta sempre chega ao destino, independente de quem a carregue. Aqui, ela não chegou. E o país ficou mais seguro por isso. Cohn diria depois a um associado: “Roubei da mesa dele. Não ia deixar ele ver aquilo. Tinha que proteger o país”. Se assinada, a carta teria colocado em risco um programa ultrassecreto capaz de detectar o lançamento de mísseis norte-coreanos em sete segundos. Esse gesto, um assessor roubando um documento para impedir que o presidente execute sua própria decisão, é a ilustração perfeita da Teoria do Louco funcionando com rede de proteção. A racionalidade da irracionalidade depende dessa arquitetura: alguém no sistema precisa ser minimamente são.
O segundo mandato: o louco sem corte
A diferença estrutural do segundo mandato não é de grau, é de natureza. Trump não ficou mais agressivo. Ele eliminou os filtros. Não há mais um Gary Cohn. Não há mais papel para roubar. As tarifas do chamado “Dia da Libertação”, em abril de 2025, atingiram praticamente todos os países do planeta, incluindo territórios habitados apenas por pinguins. A taxa tarifária média dos EUA saltou de 2,5% para 27%, o nível mais alto em mais de um século. A Groenlândia não foi blefe retórico: a Dinamarca enviou soldados e explosivos à ilha, com o plano de destruir suas próprias pistas de pouso caso os EUA tentassem uma invasão. Trump recuou. Mas o dano já estava feito. Aqui, uma pausa. É preciso reconhecer, e seria desonesto não fazê-lo, que a estratégia produziu resultados concretos. Jeremy Shapiro, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, documentou que Trump ameaçou usar força 22 vezes até o início de 2025, executando a ameaça em apenas duas ocasiões. O louco blefou vinte vezes e ganhou. Isso não deve ser considerado fracasso. Nos termos de Schelling, é exatamente o que a teoria prescreve. O problema mesmo é o que veio depois.
Um ano do Dia da Libertação: o tarifaço que abalou o comércio mundial
O paradoxo do louco que todos conhecem
Wall Street tem um nome para o padrão. Chama-se TACO: Trump Always Chickens Out, em tradução livre, Trump Sempre Amolece. O acrônimo, cunhado pelo jornalista Robert Armstrong no Financial Times em maio de 2025, descreve o ciclo: Trump anuncia ameaças extremas, os mercados despencam, Trump recua, investidores embolsam a diferença. Funcionou com o “Dia da Libertação”. Funcionou com a Groenlândia. Funcionou com a China.
O problema é estrutural. A estratégia de Schelling depende de uma condição: o adversário não sabe se o líder é louco ou está fingindo. Essa incerteza é o grande ativo estratégico. Mas Trump opera no ecossistema de mídia mais saturado da história. Cada ameaça é analisada e precificada em minutos. Quando todos sabem que o louco provavelmente vai recuar, a loucura perde o único recurso que a tornava eficaz: o medo. Me parece que há aqui uma armadilha que nem Schelling previu: quando a Teoria do Louco se torna de domínio público, o louco precisa enlouquecer de verdade para manter a credibilidade da encenação. A fronteira entre cálculo e descontrole se dissolve. O Irã é o “teste”. TACO tem uma premissa oculta: que a contraparte quer sair da montanha-russa tanto quanto você. O Irã não quer sair. Seu líder supremo está morto, parte de sua infraestrutura militar destruída, e mesmo assim o país segue atirando, bloqueando o Estreito de Ormuz. A guerra está na sua quinta semana. A Agência Internacional de Energia declarou que a situação é pior do que as crises do petróleo de 1973 e 1979 combinadas. A loucura performática funciona contra atores racionais que preferem estabilidade. Não funciona contra quem já não tem nada a perder.
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O que o espelho mostra
Voltemos ao Rei Louco uma última vez. Aerys não cai porque um inimigo externo o derrota. Ele cai porque o sistema que o sustentava decide que a indecidibilidade se tornou insustentável. Quando ninguém mais consegue distinguir entre performance e patologia, quando o custo de obedecer supera o custo de resistir, o sistema se reorganiza sem o rei. Trump não é Aerys. Os Estados Unidos são uma democracia com instituições que ainda funcionam: uma Suprema Corte que declarou tarifas inconstitucionais, senadores que votaram contra extensões de poder presidencial, generais que resistiram a ordens de invasão. Mas a pergunta que a ficção coloca não é se Trump é louco. Essa pergunta é armadilha e distração. A pergunta é outra, mais estrutural e mais incômoda: o que acontece quando um sistema projetado para conter a loucura performática de seus líderes perde os mecanismos de contenção, um a um?
Suprema Corte derruba tarifas de Trump
Gary Cohn roubou um papel da mesa presidencial em 2017. Esse pequeno e quase patético gesto era o filtro. No segundo mandato, não há nenhum Gary Cohn. Há montagens de dois minutos de “coisas explodindo” servidas como briefing presidencial. Há um presidente que anuncia guerras pelo mesmo aplicativo onde posta memes. Há um líder que confessa, em telefonema casual a um jornalista, que ordenou o assassinato de um líder soberano por razões que misturam geopolítica e vingança pessoal: “Eu peguei ele antes que ele me pegasse.” Thomas Schelling provou que, em certas condições, parecer irracional é racional. O que ele não pôde prever, porque sua teoria era formal e não histórica, é o que acontece quando a performance de irracionalidade sobrevive ao desaparecimento das condições que a tornavam segura. Quando o louco fica sozinho no palco, sem corte, sem roteiro e sem plateia que saiba quando aplaudir. Na ficção, isso tem nome: tragédia. Na teoria dos jogos, tem outro: falha sistêmica. Na realidade, onde vivemos e de onde não se sai com um controle remoto, ainda não tem nome. Mas já tem preço.
E a conta está chegando.
Referências: Thomas Schelling, The Strategy of Conflict (1960); Bob Woodward, Fear: Trump in the White House (2018); Robert Armstrong, Financial Times (maio 2025); Jeremy Shapiro, European Council on Foreign Relations (2025); Jonathan Karl, ABC News (março 2026); NBC News (março 2026). A analogia com o Rei Louco remete a Game of Thrones (HBO, 2011–2019).
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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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