Jovem com suspeita de TEA e que já tentou suicídio é humilhado por profissionais de saúde ao buscar tratamento: “Virou moda ter autismo”
"Eu queria ajuda, mas o que vivenciei foi uma sessão de tortura psicológica", relata a vítima. A legislação brasileira e diretrizes do SUS estabelecem que o atendimento em saúde mental deve ser pautado pelo acolhimento, escuta qualificada e respeito à dignidade do paciente. Quando esses princípios são violados, o impacto pode ser profundo

por Ana Oliveira e Felipe Borges
Um jovem que será identificado nesta reportagem como “Rafael”, para preservar sua identidade, procurou o Pragmatismo Político para denunciar um episódio de violência psicológica e capacitismo sofrido durante atendimento em uma unidade pública de saúde no município do Rio de Janeiro. O caso ocorreu no último dia 25 de março, no CMS Manoel José Ferreira, com participação de profissionais do CAPS III Franco Basaglia.
Segundo relato feito diretamente ao Pragmatismo, Rafael foi convidado a participar de uma consulta com psicólogos e assistentes sociais sob a promessa de acolhimento e escuta qualificada. No entanto, o atendimento tomou um rumo oposto. “Saí da consulta em estado emocional significativamente pior do que entrei”, disse. O jovem relata que a experiência foi marcada por falas desrespeitosas, invalidação de sua condição e ausência de cuidado adequado.
Falas contestadas e agravamento do quadro emocional
Rafael está em acompanhamento psiquiátrico e possui encaminhamento médico para investigação de TEA (Transtorno do Espectro Autista) e TDAH, após episódios recentes de desregulação emocional. Ele também enfrenta um contexto de luto recente, pois perdeu um primo por suicídio poucas semanas antes do atendimento. Ainda assim, afirma que não encontrou acolhimento no serviço público.
Durante a consulta, uma das profissionais afirmou que “virou moda ter autismo” e questionou a relevância de um diagnóstico para a vida do paciente. Para Rafael, a fala ultrapassa o limite técnico e entra no campo da violência simbólica. “Isso me atingiu em várias camadas”, relatou, mencionando também o histórico familiar de sofrimento psíquico, incluindo o fato de seu pai ter vivido em situação de rua devido a transtornos mentais.
O impacto foi imediato. Após deixar a unidade, Rafael relata ter entrado em crise aguda. Segundo ele, foi necessário o uso de medicação controlada, incluindo clonazepam (Rivotril) e quetiapina, na tentativa de estabilizar o quadro. Ainda assim, afirma que permaneceu sem conseguir dormir até a manhã seguinte. Sua companheira registrou em vídeo o estado emocional em que ele chegou em casa. Esse material integra um conjunto de provas sobre o episódio, que conta ainda com 50 minutos de gravação em áudio da consulta.
Histórico clínico e pedido de responsabilização
Rafael tem histórico de tentativa de suicídio e relata estar temporariamente incapacitado para atividades acadêmicas e profissionais. Mesmo assim, diz enfrentar dificuldades recorrentes no acesso a diagnóstico e tratamento adequados. “Todos dizem que não podem me ajudar no diagnóstico. E ainda ouvi aquilo”.
O jovem pede que o caso seja tornado público como forma de evitar que outras pessoas passem por situações semelhantes. “Quem precisa ser exposto são os responsáveis, não a vítima”, destacou, ao justificar o pedido de anonimato.
O que diz a legislação brasileira
O caso de Rafael revela como falas que deslegitimam diagnósticos ou minimizam o sofrimento psíquico podem agravar quadros clínicos, especialmente em pacientes em situação de vulnerabilidade.
A legislação brasileira e diretrizes do SUS estabelecem que o atendimento em saúde mental deve ser pautado pelo acolhimento, escuta qualificada e respeito à dignidade do paciente. Quando esses princípios são violados, o impacto pode ser profundo, tanto do ponto de vista clínico quanto ético.
A reportagem tentou contato com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro para posicionamento sobre o caso, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações dos órgãos citados.
Se você enfrenta sofrimento emocional ou pensamentos suicidas, procure ajuda especializada. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.



