Direita avança no Congresso e PL terá maior bancada da Câmara e do Senado a partir de 2027
PL elege 121 deputados e terá 28 senadores em 2027. Avanço da direita muda equilíbrio do Congresso e aumenta pressão política sobre o STF

As eleições de 2026 produziram uma mudança profunda na correlação de forças do Congresso Nacional. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se preparam para disputar o segundo turno da eleição presidencial, o resultado das urnas para Câmara e Senado já está definido: a direita ampliou sua representação, o PL tornou-se a principal força partidária do Legislativo e a esquerda enfrentará um Congresso ainda mais adverso a partir de fevereiro de 2027.
O PL elegeu 121 deputados federais e terá 28 senadores na próxima legislatura. Será simultaneamente a maior bancada partidária da Câmara e do Senado. Na Casa Alta, trata-se da maior bancada de um único partido no início de uma legislatura desde a redemocratização.
O resultado tem consequências que ultrapassam a relação do Congresso com o próximo presidente. A nova composição fortalece grupos que fizeram das mudanças constitucionais e do confronto com o Supremo Tribunal Federal (STF) algumas de suas principais bandeiras eleitorais.
PL terá 121 dos 513 deputados
A maior transformação na Câmara ocorreu em torno do PL.
O partido elegeu 121 dos 513 deputados federais, equivalente a 23,6% de toda a Casa. Em 2022, haviam sido 99 eleitos pela legenda, posteriormente ajustados para 97 na comparação utilizada pela Câmara. O salto de 2026 consolida o PL como a maior bancada partidária.
O PT aparece na sequência, com 70 deputados. União Brasil terá 46, PSD ficará com 43, enquanto PP e Republicanos elegeram 41 cada.
MDB terá 36 deputados e Podemos, 27. Mais atrás aparecem PSB, com 15, PSOL, com 14, PCdoB e PSDB, com 11 cada, e Novo, com 10.
Os números mostram que o PL é a maior força isolada, mas não controla sozinho a Câmara.
Para aprovar projetos de lei ordinária, o partido precisará construir maiorias. Para alterações constitucionais, a exigência é ainda maior: uma Proposta de Emenda à Constituição precisa de pelo menos 308 votos, equivalentes a três quintos dos 513 deputados, em dois turnos.
É nesse ponto que partidos de centro e centro-direita deverão novamente ocupar posição decisiva.
Senado passa por transformação ainda maior
Se o crescimento do PL na Câmara foi expressivo, no Senado a mudança foi mais profunda.
Das 54 cadeiras em disputa neste ano, o partido conquistou 19. Como nove senadores do PL eleitos anteriormente continuarão com mandato, a legenda chegará a 2027 com 28 dos 81 integrantes da Casa.
Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde 1988.
A eleição de 2026 renovou dois terços da Casa, circunstância que transformou a disputa pelo Senado em uma das principais batalhas políticas do país.
O motivo está nas atribuições específicas dos senadores.
Além de participar da elaboração das leis, o Senado possui competências que a Câmara não tem, incluindo processar e julgar ministros do Supremo Tribunal Federal por crimes de responsabilidade e aprovar indicações para o próprio STF, Procuradoria-Geral da República, Banco Central e outras instituições.
Direita soma 43 senadores em levantamento
Um levantamento do Intercept Brasil que agrupa PL, PP, Republicanos e Novo no campo da direita e extrema-direita contabiliza **43 senadores** dessas legendas a partir de 2027.
São 27 eleitos neste domingo que se somam a 16 parlamentares desses partidos cujos mandatos continuam. O grupo passa, assim, da metade das 81 cadeiras do Senado.
A maioria absoluta da Casa é alcançada com 41 votos.
Isso significa que, caso os quatro partidos atuem conjuntamente, possuem numericamente força suficiente para disputar e potencialmente eleger o próximo presidente do Senado sem depender de legendas de centro.
A unidade desse bloco em todas as votações, porém, não é automática. Partidos possuem interesses regionais e políticos próprios, e senadores não são obrigados a seguir conjuntamente todas as orientações partidárias.
Ainda assim, o número mostra a dimensão da mudança produzida pelas urnas.
Impeachment de ministros do STF entra no centro do debate
Uma das consequências mais importantes dessa composição envolve o Supremo Tribunal Federal.
A extrema-direita transformou a eleição para o Senado em prioridade política nos últimos anos justamente porque cabe à Casa processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade.
Parlamentares ligados ao bolsonarismo fizeram campanha prometendo avançar com pedidos contra integrantes da Corte, principalmente Alexandre de Moraes. Alguns defenderam inclusive a possibilidade de processos contra mais de um ministro.
A nova composição aumenta significativamente a força desse grupo, mas existe uma diferença fundamental entre abrir uma discussão sobre impeachment e efetivamente afastar um ministro.
Para uma condenação, são necessários dois terços do Senado.
Ou seja, **54 votos**.
Os 43 senadores contabilizados no bloco formado por PL, PP, Republicanos e Novo representam maioria absoluta, mas ainda deixam o grupo 11 votos abaixo do necessário para concluir sozinho um impeachment.
Para atingir esse número, seria necessário conquistar apoio entre senadores de outras legendas, especialmente partidos situados no centro e na centro-direita.
Presidência do Senado ganha importância
Antes mesmo da matemática dos 54 votos, existe outra disputa decisiva.
O presidente do Senado possui enorme influência sobre o funcionamento da Casa e sobre o andamento de pedidos envolvendo ministros do Supremo.
Com 43 senadores, o bloco conservador possui numericamente mais do que os 41 votos correspondentes à maioria absoluta do Senado. Isso torna a eleição para a presidência da Casa, em fevereiro de 2027, um dos primeiros grandes testes da nova correlação de forças.
Durante a campanha, lideranças bolsonaristas deixaram claro que conquistar o comando do Senado fazia parte da estratégia de aumentar a pressão sobre o Supremo.
O senador Rogério Marinho, por exemplo, defendeu mudanças no regimento da Casa relacionadas à tramitação dos pedidos de impeachment.
Esquerda não acompanhou crescimento da direita
Enquanto o PL avançou, a esquerda não registrou crescimento equivalente.
O PT elegeu 70 deputados federais, permanecendo como a segunda maior bancada isolada da Câmara. Somadas outras legendas progressistas, o campo mantém presença relevante, mas insuficiente para estabelecer sozinho maiorias legislativas.
No Senado, a situação é mais delicada.
Segundo o levantamento do Intercept, apenas seis das 54 cadeiras disputadas neste ano foram conquistadas pelo campo classificado pelo veículo como esquerda, todas pelo PT. Cinco delas vieram do Nordeste.
O resultado amplia a distância entre os campos políticos justamente na Casa que possui mandatos mais longos.
Senadores são eleitos para oito anos. Isso significa que boa parte da composição escolhida em 2026 permanecerá no Congresso até 2035.
Câmara também ficou menos fragmentada
Outra mudança importante ocorreu na fragmentação partidária.
A Câmara eleita em 2026 terá representantes de 20 partidos. Em 2018, eram 30.
A concentração ocorreu principalmente em torno das maiores legendas, resultado de fatores como cláusula de desempenho, fim das coligações proporcionais e consolidação de partidos maiores.
O PL sozinho controlará quase um quarto das cadeiras.
Isso não elimina a necessidade de negociação, característica histórica do presidencialismo brasileiro, mas altera o ponto de partida dessas negociações.
Qualquer governo que assumir em 2027 precisará lidar com uma Câmara na qual o maior partido possui 121 deputados e com um Senado no qual essa mesma legenda terá 28 integrantes.
Resultado muda cenário para Lula ou Flávio
A composição do Congresso também terá efeitos diferentes dependendo de quem vencer o segundo turno presidencial.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. Os dois voltarão às urnas em 25 de outubro.
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Caso Flávio seja eleito, encontrará um Congresso no qual seu próprio partido será a maior bancada nas duas Casas. Ainda assim, dependerá de aliados para aprovar mudanças constitucionais e outras matérias que exijam maiorias qualificadas.
O próprio Flávio passou a citar publicamente a nova composição do Congresso ao defender mudanças na Constituição. Nesta terça-feira (6), afirmou que pretende aproveitar uma maioria de direita para promover alterações constitucionais. O PL, sozinho, entretanto, está longe dos três quintos necessários para aprovar uma PEC.
Caso Lula seja reeleito, a situação será inversa.
O petista precisará iniciar um quarto mandato negociando com um Congresso em que seu principal adversário eleitoral controla a maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado.
Nesse cenário, partidos de centro voltariam a assumir papel fundamental para a governabilidade.
Congresso poderá mexer na Constituição
A discussão sobre a nova composição não se resume ao número de parlamentares de cada partido.
Com apoio suficiente de outras legendas, a maioria eleita em 2026 poderá tentar alterar pontos da própria Constituição.
Para uma PEC ser aprovada, são necessários 308 votos na Câmara e 49 no Senado, sempre em dois turnos de votação em cada Casa.
O bloco conservador não atingiu sozinho esses números em ambas as Casas.
Mas a distância para uma maioria constitucional, especialmente no Senado, torna partidos de centro e centro-direita decisivos.
Direitos sociais, regras eleitorais, funcionamento das instituições, competências dos Poderes e diferentes políticas públicas podem ser objeto de propostas de emenda, respeitadas as cláusulas pétreas estabelecidas pela própria Constituição.
Eleição de 2026 redesenha poder em Brasília
O resultado do primeiro turno mostrou que a eleição presidencial e a eleição parlamentar produziram movimentos distintos.
Lula e Flávio Bolsonaro ainda precisam disputar mais uma votação para saber quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos.
No Congresso, entretanto, o cenário já está desenhado.
O PL terá 121 deputados e 28 senadores. Na Câmara, será a maior bancada. No Senado, terá a maior representação partidária no início de uma legislatura desde a redemocratização.
E um agrupamento de PL, PP, Republicanos e Novo alcançará 43 senadores, ultrapassando a maioria absoluta da Casa, embora ainda dependa de outros 11 votos para chegar aos 54 necessários para um eventual impeachment de ministro do Supremo.
A partir de 2027, portanto, a disputa política brasileira não estará concentrada apenas no Palácio do Planalto. O centro de gravidade do poder também terá se deslocado para um Congresso mais à direita, com capacidade ampliada para influenciar a agenda do Executivo, promover mudanças legislativas e constitucionais e intensificar a disputa institucional com o STF.
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