Bolsonaristas quebram número 3 de urna no Rio Grande do Sul, para impedir voto em Lula na seção

Uma urna eletrônica precisou ser retirada de funcionamento e substituída durante o primeiro turno das eleições deste domingo (4), no Rio Grande do Sul, depois que a tecla de número 3 apareceu travada, com suspeita de ter sido propositalmente colada. O episódio aconteceu em Candelária, no Vale do Rio Pardo, e passou a ser investigado pela Justiça Eleitoral como possível interferência deliberada no equipamento.
O número danificado tem uma particularidade evidente na disputa presidencial. Para votar em Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato de número 13, o eleitor precisa necessariamente utilizar a tecla 3. Com o botão sem funcionar, não era possível completar normalmente a digitação do número do petista naquela urna. A tecla também poderia afetar votos destinados a outros candidatos cujos números contivessem o algarismo 3.
Até o momento, porém, a Justiça Eleitoral não identificou publicamente o responsável pela adulteração nem estabeleceu sua motivação política. Por isso, não é possível afirmar que o autor fosse apoiador de Flávio Bolsonaro ou que tenha agido especificamente para prejudicar Lula. O que está confirmado é que havia suspeita de cola na tecla e que o equipamento precisou ser substituído.
Problema foi descoberto no início da votação
A ocorrência foi registrada na seção 33 da Escola Estadual de Ensino Fundamental Eveline Fonseca de Oliveira, localizada em Pinheiro, no município de Candelária.
Segundo informações do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), o problema foi comunicado por volta das 8h30, pouco depois da abertura das urnas.
A tecla 3 não respondia quando pressionada. A suspeita inicial das autoridades foi de que cola ou alguma substância semelhante tivesse sido colocada no botão, impedindo seu funcionamento.
A Justiça Eleitoral foi imediatamente acionada.
Uma equipe do Cartório Eleitoral e o juiz responsável acompanharam a ocorrência, e o equipamento foi substituído por uma urna de contingência.
Dezoito pessoas já haviam votado
Quando o defeito foi percebido, 18 eleitores já haviam passado pela urna, segundo o vice-presidente e corregedor regional eleitoral do TRE-RS, desembargador Antônio Maria de Freitas Iserhard.
A informação levantou uma questão imediata sobre os votos já depositados.
O TRE-RS esclareceu que eles foram preservados e seriam normalmente contabilizados. A substituição do equipamento não provocou perda dos registros anteriores.
A seção tinha aproximadamente 550 eleitores aptos a votar.
Depois da troca, a votação foi retomada normalmente.
Justiça quer identificar quem mexeu na urna
O TRE-RS abriu apuração para determinar se houve efetivamente uma intervenção deliberada no equipamento e, em caso positivo, identificar o responsável.
“Estamos procurando em uma investigação identificar [o responsável]. É um caso que implica, sem dúvida alguma, em responsabilidade”, afirmou Iserhard ao comentar o episódio.
A suspeita de sabotagem ganhou força justamente pelas características do problema. Não se tratava simplesmente de uma urna que havia parado de funcionar. A anormalidade estava concentrada em uma tecla específica, que aparentemente havia sido imobilizada por uma substância.
A perícia e a investigação eleitoral são necessárias para estabelecer como isso aconteceu.
Tecla 3 é necessária para votar em Lula
A escolha do número atingido fez o episódio repercutir nacionalmente.
Lula disputa a Presidência pelo PT, cujo número eleitoral é 13. O eleitor precisa apertar primeiro a tecla 1 e depois a tecla 3 para registrar o voto no candidato.
Com a tecla 3 inoperante, portanto, a digitação de 13 ficava inviabilizada naquele equipamento enquanto o problema persistisse.
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Isso não significa, entretanto, que esteja comprovado que a finalidade da adulteração era impedir especificamente votos em Lula. Outros candidatos a diferentes cargos também possuem o algarismo 3 em seus números eleitorais.
A motivação é justamente um dos pontos que a Justiça Eleitoral terá de esclarecer.
Segundo caso semelhante no Rio Grande do Sul
A ocorrência de Candelária não foi a única envolvendo a tecla 3 registrada no estado durante a eleição.
Um segundo caso foi relatado em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, na seção 451 do bairro Forqueta. Também ali houve registro de problema envolvendo a tecla de número 3 e suspeita de interferência no equipamento.
A repetição do episódio aumentou a preocupação das autoridades e chamou atenção nas redes sociais durante o domingo eleitoral.
Ainda assim, a existência de dois episódios semelhantes não é suficiente, por si só, para demonstrar uma ação coordenada. Essa hipótese dependeria da identificação dos responsáveis e de elementos que estabelecessem ligação entre os casos.
Danificar urna pode configurar crime eleitoral
Interferir deliberadamente em uma urna para dificultar ou impedir o voto é uma conduta grave.
O Código Eleitoral prevê punição para quem impedir ou embaraçar o exercício do sufrágio. A pena prevista no artigo 297 é de detenção de até seis meses, além de multa.
Dependendo das circunstâncias constatadas durante a investigação, outras responsabilizações também podem ser analisadas pelas autoridades.
A urna eletrônica permanece sob fiscalização durante toda a votação justamente para permitir uma resposta rápida a falhas ou interferências externas.
Foi o que ocorreu em Candelária. Assim que a anormalidade foi constatada, o equipamento foi retirado e substituído.
Sabotagem não alterou votos já registrados
Apesar da gravidade do episódio, a Justiça Eleitoral ressaltou que não houve perda dos votos já depositados.
O procedimento de contingência permite a substituição de uma urna que apresenta defeito sem apagar os votos armazenados até aquele momento.
Após a instalação do novo equipamento, os eleitores seguintes puderam votar normalmente.
O caso, portanto, não significa que os votos anteriores tenham sido anulados nem que a votação da seção tenha sido cancelada.
A investigação se concentra agora em outra questão: descobrir por que a tecla 3 deixou de funcionar e, caso seja confirmada a utilização proposital de cola, quem foi responsável pela adulteração.
Episódio ocorre em eleição marcada por forte polarização
O caso ocorreu em meio a uma das eleições presidenciais mais polarizadas da história recente do país.
Justamente por isso, a identificação do número 3 como alvo da possível sabotagem rapidamente levou a interpretações políticas nas redes sociais, sobretudo porque o algarismo é indispensável para digitar o 13 de Lula.
Mas a distinção entre o que é possível inferir e o que já está comprovado é fundamental.
Até o momento, está confirmado que uma urna teve a tecla 3 inutilizada, há suspeita de utilização de cola e o TRE-RS investiga uma possível interferência deliberada. Também é fato que, naquele equipamento, o problema impediria a digitação normal do número 13.
O que ainda não está estabelecido é quem praticou a ação e com qual objetivo.
Caso a investigação confirme que alguém deliberadamente colou a tecla para impedir determinados eleitores de votar em um candidato, o episódio deixará de ser apenas um ato de vandalismo contra um equipamento público. Terá sido uma tentativa direta de interferir no exercício do voto, um dos direitos fundamentais do processo democrático brasileiro.
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