Médica de Goiânia manda suspender alta de pacientes até o domingo de eleição para que não votem: "A maioria é petista"
Médica de Goiânia é afastada após pedir que pacientes não recebessem alta no fim de semana da eleição porque “a maioria é petista”. Caso é investigado
Uma médica que ocupava cargo de supervisão no Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara, em Goiânia, foi afastada depois de enviar mensagens a um grupo interno de profissionais orientando que pacientes não recebessem alta durante o fim de semana do primeiro turno das eleições. Na justificativa, a ginecologista e obstetra Marcella Segato de Sousa Melo escreveu que “a maioria é petista”.
A mensagem foi enviada na tarde de sexta-feira (2), dois dias antes da votação. “Quem estiver na enfermaria sábado e domingo, não dar alta para ninguém, a maioria é petista”, escreveu a profissional. A conversa foi inicialmente revelada pela TV Anhanguera e posteriormente confirmada por outros veículos. Integrantes do grupo reagiram com emojis de risada, sinal de positivo e bandeiras do Brasil. Um dos participantes respondeu: “Combinado”.
Médica também mencionou o número de Flávio Bolsonaro
A mensagem sobre as altas hospitalares não foi a única manifestação eleitoral registrada no grupo interno.
Na noite anterior, Marcella escreveu outra mensagem fazendo referência ao número 22, utilizado por Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial.
“Domingo, quem colocar 22 finaliza o rodízio com nota 10. Tá ok?”, dizia a mensagem atribuída à médica. A publicação recebeu diversas reações de integrantes do grupo e uma resposta dizendo “gostei da proposta”.
O grupo reunia profissionais ligados à unidade, incluindo médicos e pessoas em formação. Marcella exercia função de supervisão na área de Ginecologia e Obstetrícia.
As duas mensagens passaram a ser analisadas porque envolvem uma profissional em posição hierárquica fazendo referências à preferência eleitoral tanto de pacientes quanto de estudantes e colegas.
Caso foi denunciado ao Ministério Público Federal
O episódio chegou ao Ministério Público Federal antes mesmo da realização da eleição.
A representação foi apresentada pelo advogado Alan Henrique Silva Marques após ele ser procurado por um interno de medicina subordinado à médica. Segundo o relato, o profissional discordou da conduta e decidiu encaminhar o conteúdo para que fosse apurado.
A denúncia pede que seja investigado se houve tentativa de interferir no exercício do voto dos pacientes e se a posição de chefia e a estrutura de uma unidade pública de saúde foram utilizadas para finalidade político-eleitoral.
Há, contudo, uma distinção importante: a existência das mensagens está confirmada, mas não há até o momento comprovação pública de que alguma paciente tenha efetivamente deixado de receber alta médica por causa de sua preferência política ou para ser impedida de votar.
Esse ponto faz parte justamente do que deverá ser esclarecido pelas apurações.
Hospital afasta médica
Depois da repercussão do caso, a direção do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara afastou Marcella da escala de atendimento. Segundo informações divulgadas nesta terça-feira (6), a profissional não deverá retornar ao posto.
O hospital afirmou que as manifestações foram realizadas em um grupo interno e privado e representam opiniões pessoais dos participantes, não o posicionamento da instituição.
A direção também deixou claro que decisões sobre internação, permanência hospitalar e alta precisam obedecer exclusivamente a critérios clínicos, técnicos, éticos e de segurança do paciente.
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O posicionamento político de uma pessoa, portanto, não pode interferir na decisão sobre sua permanência em uma unidade de saúde.
“A direção do HMMCC lamenta o ocorrido e apresenta desculpas formais aos colaboradores e pacientes que por algum motivo se sentirem atingidos”, informou a instituição.
Prefeitura abre apuração administrativa
A Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia também abriu procedimento para investigar o episódio.
A pasta informou que adotou medidas administrativas assim que tomou conhecimento das mensagens e reforçou às equipes do SUS a obrigação de garantir atendimento adequado, ético e respeitoso a todos os pacientes.
O hospital reiterou que a assistência deve ser prestada de maneira impessoal e igualitária, independentemente de “convicções políticas, ideológicas, religiosas ou de qualquer outra natureza”.
O Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) também tomou conhecimento do episódio. O órgão informou que denúncias envolvendo conduta ética de médicos são apuradas sob sigilo e que solicitou esclarecimentos relacionados ao caso.
Médica diz que mensagem foi uma “brincadeira”
Após o episódio ganhar repercussão, Marcella afirmou que as mensagens não representavam uma orientação real para a condução dos pacientes.
Segundo a versão apresentada pela profissional, o comentário sobre impedir altas hospitalares teria sido uma “brincadeira” feita em um ambiente privado. Ela também negou que pudesse beneficiar ou prejudicar estudantes em razão da escolha eleitoral.
Antes disso, ao ser procurada pelo Mais Goiás, a médica havia informado que não tinha interesse em se manifestar sobre o episódio.
A alegação de que se tratava de uma brincadeira deverá ser considerada nos procedimentos de apuração, assim como o contexto em que as mensagens foram enviadas e a posição hierárquica ocupada pela profissional.
Alta médica não pode depender de posição política
O episódio toca em um princípio básico da assistência à saúde.
Em um hospital público, a decisão de manter uma pessoa internada ou conceder alta não pode ser determinada por sua posição política, religião, origem, condição econômica ou qualquer característica alheia à avaliação médica.
É justamente por isso que a direção da maternidade fez questão de registrar publicamente que as altas devem obedecer exclusivamente a critérios clínicos e técnicos.
A controvérsia ganha dimensão ainda maior porque a mensagem mencionava explicitamente a possibilidade de manter pacientes hospitalizados durante os dois dias que antecederam e incluíram a votação, sob a justificativa de que “a maioria é petista”.
Caso uma orientação dessa natureza tivesse sido efetivamente executada sem justificativa clínica, a situação ultrapassaria uma manifestação política privada e poderia atingir direitos dos pacientes. A existência ou não dessa consequência concreta ainda precisa ser determinada pelas autoridades responsáveis.
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