Brasil registra maior abstenção eleitoral em 28 anos, com 33,4 milhões fora das urnas

Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno da eleição presidencial de 2026. O contingente é quase 15 vezes maior que a diferença de votos entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e transforma a abstenção em uma das principais variáveis para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Com 100% das seções totalizadas, 33.469.244 eleitores deixaram de votar no domingo (4), o equivalente a 21,08% dos 158,7 milhões de brasileiros aptos. É o maior percentual de abstenção registrado em uma eleição geral desde 1998, quando 21,49% do eleitorado ficou fora das urnas.
33 milhões de ausentes para uma diferença de apenas 2,2 milhões
A dimensão do fenômeno fica mais clara quando comparada ao resultado da disputa presidencial.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 56.104.503 votos, ou 47,03% dos votos válidos. Lula recebeu 53.879.538 votos, equivalentes a 45,16%. A diferença foi de somente 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual.
Foi a menor distância já registrada entre primeiro e segundo colocados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização. Até então, o recorde pertencia à eleição de 2022, quando Lula terminou 5,23 pontos à frente de Jair Bolsonaro.
Isso significa que o número de brasileiros que não compareceram às urnas foi aproximadamente 15 vezes maior que a vantagem obtida por Flávio sobre Lula.
Naturalmente, isso não significa que os ausentes votariam de maneira uniforme em um candidato. O dado, porém, mostra o tamanho do eleitorado ainda potencialmente mobilizável para a etapa decisiva.
Um em cada cinco eleitores não foi votar
O Brasil chegou ao primeiro turno com 158.745.502 eleitores aptos. Compareceram pouco mais de 125 milhões.
A taxa de abstenção, de 21,08%, superou a registrada em 2022 e confirmou uma tendência observada nas últimas eleições gerais. Em 2006, os ausentes representavam 16,8% do eleitorado. Desde 2014, o percentual permanece próximo ou acima de 20%.
Em números absolutos, nunca tantos brasileiros haviam deixado de participar de um primeiro turno presidencial.
O aumento também precisa ser analisado à luz do crescimento do próprio eleitorado. Ainda assim, o percentual de 2026 só encontra índice superior, nas últimas três décadas, em 1998.
Brancos e nulos ampliam contingente que não escolheu candidato
A abstenção não foi a única forma de não escolher um candidato no domingo.
O primeiro turno registrou ainda 2.300.798 votos em branco e 3.674.249 votos nulos. Somados, são quase 6 milhões de eleitores que compareceram às urnas, mas não deram voto válido a nenhum candidato à Presidência.
Somando ausentes, brancos e nulos, quase 40 milhões de brasileiros aptos a participar da eleição não escolheram nenhum dos candidatos.
Os votos brancos e nulos não entram no cálculo dos votos válidos e, ao contrário de um mito recorrente em períodos eleitorais, não são transferidos para nenhum candidato.
Quem mais deixa de comparecer às urnas?
A abstenção não se distribui de maneira uniforme pela sociedade brasileira, e é justamente aí que o fenômeno ganha importância política.
Dados históricos e análises eleitorais indicam maior propensão à ausência entre pessoas de menor escolaridade e entre idosos, especialmente aqueles com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo.
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Segundo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, a abstenção em 2026 chegou a aproximadamente 50% entre eleitores com mais de 70 anos. Entre os jovens de 16 e 17 anos, que também têm voto facultativo, ficou em torno de 20%.
Esse perfil interessa diretamente às campanhas.
Pesquisas realizadas antes do primeiro turno mostravam Lula particularmente competitivo entre eleitores mais velhos e de menor renda e escolaridade. O Datafolha da véspera, por exemplo, apontava o presidente com vantagem entre pessoas com 60 anos ou mais e entre os segmentos de menor renda.
Não é possível, contudo, concluir apenas a partir desses dados que a abstenção de 2026 prejudicou exclusivamente Lula. Para determinar o impacto eleitoral seria necessário conhecer a preferência dos eleitores que efetivamente não compareceram.
Abstenção já preocupava campanha de Lula
O problema não surgiu depois da abertura das urnas.
Durante a reta final do primeiro turno, a campanha de Lula já havia identificado a mobilização de eleitores mais velhos como uma prioridade. O objetivo era incentivar principalmente pessoas com mais de 70 anos, que apresentam alta taxa histórica de ausência e entre as quais pesquisas apontavam desempenho favorável ao petista.
A preocupação tinha fundamento estatístico. Modelos de “eleitor provável”, que procuram estimar quem efetivamente comparecerá às urnas, consideram idade, escolaridade, histórico de participação e grau de interesse pela eleição justamente porque diferentes segmentos apresentam probabilidades distintas de votar.
Depois do resultado de domingo, essa disputa pela mobilização tornou-se ainda mais importante.
TSE quer reduzir abstenção no segundo turno
O tamanho da ausência também provocou reação da Justiça Eleitoral.
Nunes Marques afirmou que o TSE pretende intensificar ações destinadas a aumentar o comparecimento no segundo turno.
“Não é o ideal uma abstenção de 20%”, declarou o presidente da Corte ao comentar os números do primeiro turno. Segundo ele, a Justiça Eleitoral pretende aperfeiçoar campanhas e outras iniciativas de estímulo ao voto, com atenção especial aos grupos para os quais o comparecimento não é obrigatório.
O TSE já trabalhou com influenciadores voltados tanto ao público jovem quanto à população idosa para estimular a participação eleitoral.
Quem faltou no primeiro turno pode votar normalmente no segundo
Um esclarecimento importante pode ter efeito direto sobre a mobilização dos próximos dias: quem não votou no primeiro turno pode votar no segundo.
Para a Justiça Eleitoral, cada turno é considerado uma eleição independente. Portanto, a ausência em 4 de outubro não impede o eleitor de comparecer em 25 de outubro.
Quem faltou precisa justificar a ausência ou regularizar posteriormente a situação eleitoral, mas continua podendo participar normalmente da etapa seguinte.
Essa informação ganha importância diante de um universo superior a 33 milhões de pessoas.
Disputa por ausentes já começou
As duas campanhas passaram a olhar para esse contingente imediatamente depois do primeiro turno.
Lula e Flávio Bolsonaro não disputam apenas os pouco mais de 9,3 milhões de votos depositados nos outros dez candidatos. Precisam também tentar mobilizar uma parcela dos brasileiros que simplesmente não foi às urnas.
É uma reserva eleitoral gigantesca em uma disputa decidida, até agora, por uma margem extremamente pequena.
Mesmo uma alteração relativamente modesta no comparecimento pode significar milhões de votos adicionais. Uma redução da abstenção de apenas dois pontos percentuais, por exemplo, representaria potencialmente mais de 3 milhões de eleitores retornando às urnas, considerando o tamanho atual do eleitorado.
Isso seria superior à vantagem de 2,22 milhões obtida por Flávio no primeiro turno.
Segundo turno começa praticamente do zero
O cenário ajuda a explicar por que, apesar de Flávio Bolsonaro ter terminado na liderança, o resultado não permite tratar o segundo turno como definido.
Flávio saiu na frente com 47,03%, enquanto Lula alcançou 45,16%. Outros candidatos reuniram 7,81% dos votos válidos, aproximadamente 9,3 milhões de eleitores que agora precisarão fazer uma nova escolha ou poderão se abster.
Renan Santos e Ronaldo Caiado, por exemplo, somaram juntos aproximadamente 5,2 milhões de votos, mais que o dobro da diferença entre os dois finalistas.
A esses eleitores somam-se os milhões que votaram em Augusto Cury, Romeu Zema e nos demais candidatos, além dos quase 6 milhões de votos brancos e nulos e, sobretudo, dos 33,4 milhões de ausentes.
Em uma eleição na qual apenas 1,87 ponto separou os dois primeiros colocados, a disputa não será somente para convencer quem pretende mudar de candidato. Será também uma corrida para colocar gente dentro das seções eleitorais.
A maior abstenção em 28 anos deixou, assim, uma espécie de terceira força silenciosa no segundo turno. São milhões de brasileiros que não escolheram Lula nem Flávio Bolsonaro porque sequer compareceram às urnas — e cuja decisão de votar ou permanecer em casa em 25 de outubro pode ter peso decisivo na escolha do próximo presidente do Brasil.
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