Lucio Massafferri Salles
Colunistas 18/Fev/2026 às 20:38 COMENTÁRIOS
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"E aí, jogador?" O torcedor capturado

Lucio Massafferri Salles Lucio Massafferri Salles
Publicado em 18 Fev, 2026 às 20h38

Apostas esportivas online transformaram torcer em calcular risco. Como algoritmos + dopamina estão na base de um sistema que capturou milhões de torcedores — mesmo quem nunca apostou vive no ambiente que essa dinâmica forjou.

Imagem: canal Flu Press
Imagem: canal Flu Press

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Aproximadamente um em cada quatro torcedores brasileiros aposta em futebol. Este número vem de uma pesquisa da CBF Academy em parceria com a AtlasIntel, divulgada no início de 2025: 23,7%. Não é mais nicho, concordam? Estamos aqui falando de massa.
As bets trouxeram muito dinheiro para o futebol, não cabe negar. Mas trouxeram algo muito perigoso junto: a fusão aplicada das ciências da computação e da psicologia comportamental.

Pesquisa: 23,7% dos torcedores brasileiros enxergam apostas como investimento

As plataformas de aposta não vendem simples “palpites”. Vendem química cerebral; neurotransmissores em ação. Dopamina, serotonina, endorfinas — o cérebro dispara tudo isso quando você aposta. Ganhou? Descarga. Perdeu? Descarga também, porque essa química do cérebro já te convenceu de que está logo ali, o “na próxima eu recupero”. O sistema de recompensas fica ativado, independente do resultado. E quando esse tipo de estímulo cabe no bolso da pessoa, funciona vinte e quatro horas por dia e aceita Pix, o vício é capaz de se instalar rápido.
O problema não é “o jogo” em abstrato. Jogar faz parte da vida de todos, em algum momento. O problema é a engenharia por trás do jogo em questão.
Sempre tem campeonato rolando em algum lugar do mundo. Três da manhã no Brasil? Tem jogo na Austrália, na Coreia, ou em diversos outros lugares.
Aplicativo aberto, dedos nervosos, Pix na mão, odd mudando ao vivo pra dar o clima.
Dá pra ficar conectado apostando sem parar. E muita gente fica. Há relatos documentados de apostadores que perderam dezenas de milhares de reais, empréstimos nunca pagos, empregos, casamentos.
Como psicólogo, sei: responsabilizar só “o jogo” é meio que ignorar os afetos que ele aciona. Não se trata de moralizar quem aposta. Se trata de entender que o acesso contínuo a esse tipo de estímulo captura quem tem vulnerabilidade ao sistema de recompensa imediata do cérebro. E todo mundo, em algum grau, tem. O futebol está se aproximando perigosamente do turfe: um esporte onde sempre foi demasiadamente grande a suspeita de que a aposta se tornara mais importante que a competição. Nas corridas de cavalo, as dúvidas sobre arranjos, resultados combinados e informações privilegiadas nunca cessaram. Essa arquitetura de controle não é nova, apenas trocou de roupagem. O risco do vício é um drama milenar — Aristófanes já tratava disso na comédia ‘Nuvens’ (423 a.C.), onde até Sócrates (personagem) aparece às voltas com jogadores compulsivos e suas dívidas. O problema é antigo. A diferença é que hoje ele cabe no bolso.
No futebol, a escala é infinitamente maior. Cartões amarelos em momentos estratégicos, faltas desnecessárias, lances inexplicáveis — tudo ganha outra leitura quando bilhões estão sendo apostados. Não estou acusando ninguém. Estou dizendo que a estrutura montada permite que a tentação exista. E quando a tentação existe em escala industrial, alguém sempre cede; sempre.

Quando Torcer Passou a Ter Preço

Quando você aposta no seu time de coração, a relação com o jogo muda, pode apostar que muda… Antes, você torcia. Ponto final. Agora você tem “interesse financeiro no resultado”. Parece detalhe, mas não é; acredite.
Exemplo concreto: o “Tabajara” joga no domingo às 16h. Você apostou que o Taba vence. Primeiro tempo termina 0x0. Seu time está bem, mas não marca gol. Antes da bet, normalmente você torcia, sofria, mas estava junto. Com a aposta, você começa a calcular. “Se empatar assim, perco X reais. Precisa de gol. E cadê o gol?” A ansiedade não é mais só paixão — é econômica, possibilidade “com fé que dá”.

All In. How gambling swallowed sports media

Agora inverte a coisa: você apostou contra seu amado “Tabajara”. Não porque desgosta do clube, mas porque a odd estava boa, ou porque “sendo bem realista, o adversário é melhor”. O jogo começa. O Tabajara faz 1×0. Você não comemora tanto. Você torce, inconscientemente, para o empate. Seu cérebro é perfeitamente treinado para associar “vitória do Tabajara = prejuízo financeiro” ou ganho menor.
E mesmo quem não aposta vive nesse ambiente, absorve o como ele funciona.
A cultura da aposta acaba normalizando uma postura: torcer virou avaliar riscos (esses tipos, específicos). Paixão virou, também, análise de probabilidades. Contaminou até quem nunca colocou um danado de um real em odd.

Por que Seu Feed só Mostra Amargura ou Desastre

Aqui entra a segunda camada do problema: as redes sociais!
Os algoritmos do X/Twitter, Instagram, TikTok, YouTube não recompensam glória. Essa não é exatamente a praia que é curtida por eles. Recompensam revolta. Rage bait — conteúdo feito para provocar raiva — gera engajamento (e como gera!!!). E, meus caros: engajamento é dinheiro.
Funciona mais ou menos assim (exemplos sempre são imperfeitos, aviso): “Tabajara” vence o “América de Rio Azul” por 3×1, O Taba está invicto há 19 jogos no Maraca, classificado para a quartas de final do Campeonato. Via de regra, você posta “Que vitória! O Time jogou bem!” — 15 curtidas. Outro vai e posta “Time HORRÍVEL, só venceu porque o “Bambuí é fraco, na semi o Bola de Ouro F.C. ACABA com esse time!” — 300 curtidas, 80 comentários, espalhados pelo feed.
O algoritmo aprende. Ele foi feito pra isso: negatividade rende muito. Amargura é capital fortíssimo. Então, ele te mostra mais negatividade. Seu feed vai enchendo de posts catastrofistas, reclamações, previsões de desastre, uma verdadeira BagreMancia (como diria um amigo querido, tricolor como eu). A internet cria uma realidade paralela onde seu time está quase sempre à beira do abismo, mesmo quando não está. Ou na melhor das hipóteses, nunca está bem.
Quando você junta apostas com algoritmos de revolta, o estrago é completo:
1. Você aposta (às vezes “contra” porque “sendo realista…”)
2. Você consome conteúdo pessimista (o algoritmo te entrega isso)
3. Você internaliza que “meu time é ruim” (mesmo que os fatos digam o contrário)
4. Você aposta de novo — agora “contra”, porque “é o mais provável”
5. Você torce, inconscientemente, para perder
Claro, sendo um virtuoso, nada disso pode acontecer. Você só está curtindo um pouco. Se tiver aquela sorte, ganha duplamente. Parabéns, aos virtuosos.

O Torcedor Foi Capturado? O que Restou?

Torcer sempre foi algo passional, tipo algo em que a razão não manda muito. Seu avô te levando ao Maracanã pela primeira vez. Chorar quando o time ganha, se emocionar mesmo. Chorar quando perde (dor sem descrição), sem pedir retorno. O gratuito sempre pertenceu a esse terreno, no sentido mais profundo: você dava sem esperar absolutamente nada de volta.
A bet acabou com isso. Ou pelo menos inaugurou a era em que acabou. Transformou emoção em estratégia, vitória em lucro, derrota em prejuízo financeiro. Os algoritmos das redes sociais completaram o serviço: tornaram a revolta mais rentável que a celebração.
Vinte e três vírgula sete por cento dos torcedores brasileiros apostam. Quantos ficam dependentes? Quantos “quebram”?
Todos vivem no ambiente que essa dinâmica das apostas forjou. Para muitos, paixão virou transação. Torcer virou cálculo de risco.
Há quem precise “se proteger emocionalmente” do próprio time, mais até do que do futebol.
Conheci de perto um torcedor que apostou dinheiro contra o seu próprio time de coração, numa semifinal de Libertadores da América. Seu argumento: assim eu ganho de qualquer maneira, qualquer que seja o resultado
Não defendo proibição. Denuncio a captura. E convido você a entender um pouco como ela funciona.
Saudações Tricolores. Ou não.

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*Lucio Massafferri Salles é Jornalista, Cronista Esportivo, Psicólogo, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e da Rede Pública do Estado do Rio de Janeiro. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou o seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É criador do canal FluPress (YouTube).

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