Sete meses entre o amor e o mercado
Sete meses depois de jurar amor eterno ao Fluminense, Jhon Arias assinou com o Palmeiras. O caso expõe o choque entre a lógica do pertencimento e a lógica do mercado no futebol contemporâneo.

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Arias, o Fluminense e a ilusão do eterno
Sete meses. Foi o tempo necessário para que as juras de amor eterno de Jhon Arias ao Fluminense se transformassem em contrato com o Palmeiras.
Em julho de 2025, o colombiano deixou o Maracanã rumo ao inglês Wolverhampton com declarações públicas de gratidão e saudações tricolores. A torcida correspondeu: chorou a partida do ídolo que florescera no Rio, que fora amparado pelo clube quando perdeu a avó, que protagonizara a inédita Libertadores de 2023.
Ali, Arias já era tratado como parte do clube. Memória e coração, talhando essa identidade.
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Mas, no capitalismo futebolístico contemporâneo, pertencimento é categoria emocional negociável. E o mercado tem memória curta.
Quando o Palmeiras ofereceu €25 milhões ao Wolverhampton, agora, em fevereiro de 2026 — valor que o Fluminense, mesmo com cláusula de preferência, não conseguiu cobrir —, parte da torcida tricolor explodiu. “Traidor”, “mercenário”, “nunca amou o clube de verdade”. Outros direcionaram a fúria para Mário Bittencourt, presidente que trouxe a Libertadores inédita, mas carrega forte desconfiança de setores da torcida.
O que há de substantivo nessa ira? E o que ela revela sobre a paisagem psicopolítica do futebol?
O Contrato Afetivo e Sua Quebra
As “juras de amor” de jogadores a clubes funcionam como contratos afetivos implícitos: o atleta declara pertencimento emocional e recebe, em troca, capital simbólico — idolatria, perdão por falhas, narrativa heroica.
Arias cumpriu sua parte, não tenho dúvidas: 230 jogos, 47 gols, 55 assistências, protagonismo na Libertadores, na Recopa.
A torcida cumpriu a parte dela: acolheu-o na dor, celebrou-o na glória, alçou-o à condição de ídolo.
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Mas, contratos afetivos no futebol contemporâneo têm cláusula rescisória invisível: a proposta melhor.
Entendo que Arias não traiu o Fluminense — comportou-se como qualquer trabalhador altamente especializado num mercado global.
O Palmeiras ofereceu mais dinheiro, o tal projeto e a declarada e desejada vitrine pra Copa 2026 . O Wolverhampton, onde Arias acumulou 26 jogos, com magros 2 gols e 1 assistência, aceitou a oferta.
O Fluminense, com seu limite financeiro em €20 milhões, não pôde ou não quis igualar.
Sinceramente, nesse cenário o “amor ao clube” é performativo. Não no sentido pejorativo, me entendam […], mas sociológico: aponto uma performance necessária que mantém a economia simbólica do futebol funcionando.
Jogadores que não a executam são demonizados prematuramente.
Jogadores que a executam bem ganham tempo, capital emocional e narrativa favorável. Arias executou bem. Mas o tempo acabou em sete meses…
A Ira Deslocada
Parte da torcida tricolor culpa Bittencourt. “Não quis pagar”, “Deixou o Arias ir embora barato”, “Agora o rival fica com ele”. A acusação pode estar ignorando alguns fatos: o Fluminense vendeu Arias por €22 milhões (segunda maior venda da história do clube), manteve 10% de mais-valia e incluiu cláusula de preferência para um eventual retorno ao Brasil.
Quando a cláusula foi acionada, o clube tentou. Ofereceu €20 milhões.
O Wolverhampton recusou. O Palmeiras pagou €25 milhões. O Fluminense, que mantém outros reforços no radar, decidiu não comprometer o planejamento financeiro de 2026 por um jogador que, sete meses antes, havia sido vendido justamente para equilibrar as contas.
Bittencourt conquistou a Libertadores e a Recopa inéditas, elegeu seu sucessor Matheus Montenegro em novembro de 2025, mas carrega também o fardo de presidir um clube em tempos de hiperexposição digital. Qualquer decisão pode virar combustível para teorias conspiratórias sem lastro. A torcida, dividida, projeta no presidente o desconforto com a própria impotência econômica diante de “gigantes endinheirados” como o Palmeiras.
O Sujeito Torcedor e sua exploração
Na era das plataformas digitais, cada vez mais velozes e emocionalmente polarizadas, o sujeito se autoexplora acreditando estar se realizando. A torcida de futebol, nesse contexto, é o sujeito que se autoexplora emocionalmente: investe afeto, tempo, dinheiro e saúde mental e, quando o “retorno” — títulos, ídolos fiéis, gratidão perene — não vem na medida esperada, sente-se traída.
Se é que algum dia funcionou, o futebol contemporâneo não opera mais na lógica do amor incondicional. Opera na lógica do mercado. Arias não é vilão.
Bittencourt não é incompetente. O Palmeiras não “roubou” ninguém. O que ocorreu foi a operação normal do capitalismo futebolístico: o clube com mais dinheiro levou o jogador; o clube com menos dinheiro embolsou o que pôde e seguiu em frente.
A torcida tricolor, contudo, ainda opera — e talvez tenha razão nisso — na lógica do pertencimento, onde a identidade construída é tesouro.
E aí reside o choque central: entre a economia de mercado e a economia simbólica. Entre o que o futebol é e o que gostaríamos que fosse (me pergunto se algum dia já foi…).
Até Breve?
Arias disse: “não é um adeus… até breve!”. A frase, que soou como promessa, revelou-se uma premonição técnica: ele voltou ao Brasil. Mas não para a “casa” — voltou para um rival.
A lição, dura mas necessária: no futebol contemporâneo, “casa” é onde o salário está. E “amor” é moeda de troca. Quem espera fidelidade eterna num mercado que negocia corações como se negocia passes está fadado ao ressentimento — talvez, simplesmente, à tristeza.
O Fluminense fez o que pôde; creio. Arias fez o que quis. A torcida sofre porque ainda acredita, de verdade, que poderia ser diferente.
Talvez devesse.
Mas não é.
Saudações Tricolores. Ou não.
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*Lucio Massafferri Salles é Jornalista e Cronista Esportivo, Psicólogo e Professor da Rede Pública (RJ). Doutor e mestre em filosofia pela UFRJ, especialista em psicanálise pela USU, realizou o seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É criador do canal FluPress (YouTube).
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