Redação Pragmatismo
Saúde 04/May/2019 às 11:00 COMENTÁRIOS

Suicídios aumentam após série da Netflix, mostra pesquisa

Suicídio de adolescentes aumentou após estreia de série da Netflix, mostram dados. Taxa subiu 28,9% desde que a atração começou a ser veiculada

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Cena de 13 Reasons Why, série americana baseada no livro Thirteen Reasons Why, de Jay Asher (Netflix)

Cecilia Jan, ElPaís

Desde que a Netflix estreou a série 13 Reasons Why, em que um adolescente grava em 13 fitas as razões pelas quais decide tirar a própria vida, a controvérsia sobre o possível efeito de contágio nos mais jovens está presente.

Um estudo recente alimenta os argumentos dos críticos: no mês seguinte à estreia nos Estados Unidos, em 31 de março de 2017, os suicídios na faixa dos 10 aos 17 anos aumentaram 28,9% em todo o país. Embora os próprios autores alertem que não se pode estabelecer uma relação de causalidade, duas especialistas consultadas apontam para o perigo de a mídia apresentar o suicídio em termos idealizados: é importante falar do suicídio, sim, mas em termos de prevenção e encorajando os adolescentes nessa situação a buscar ajuda.

O estudo, publicado na segunda-feira no Journal of American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, parte dos dados coletados pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) entre 2013 e 2017: foram 180.655 mortes por suicídio nos EUA, divididas em grupos etários. Depois de eliminar o fator da sazonalidade (ocorrem mais casos na primavera e no outono), eles descobriram que a taxa de suicídio entre 10 e 17 anos aumentou em abril de 2017 para 0,57 por 100.000 pessoas, 28,9% a mais do que a previsão criada com base nas cifras dos anos anteriores.

É a taxa mais alta de qualquer mês dos cinco anos estudados. Depois desse pico, taxas significativamente mais altas foram registradas em junho e dezembro de 2017. A média antes da estreia da série era de 116,29 suicídios de adolescentes por mês (0,35 por 100.000 pessoas) e a dos meses seguintes é de 149,56 casos por mês (0,45 por 100.000).

Os pesquisadores estimam que a estreia de 13 Reasons Why, cuja terceira temporada está em fase de produção, está associada a 195 suicídios a mais em 2017 entre os 10 e 17 anos. Eles não encontraram um aumento nas demais faixas etárias, o que, dizem, vai na linha de trabalhos anteriores, segundo os quais “os mais jovens podem ser particularmente vulneráveis ao contágio do suicídio”.

A Netflix respondeu com um comunicado em que afirma estar “analisando” o estudo, “já que entra em conflito com o publicado na semana passada pela Universidade da Pensilvânia“, que concluiu que a série poderia reduzir o risco de suicídio, embora se referisse a adultos de 18 a 29 anos. “É uma questão muito importante para nós e trabalhamos muito para garantir que a tratamos de modo responsável.”

Ao contrário do esperado pelos autores, o aumento de suicídios não foi significativo entre as meninas, apesar de a protagonista da série ser uma garota, mas, sim, entre os garotos. Embora não saibam o motivo exato, os pesquisadores explicam que existe um “paradoxo de gênero“: a taxa de suicídios consumados é maior em homens do que em mulheres, enquanto o oposto acontece quando se fala em tentativas.

Fenômeno multifatorial

Não há nenhum benefício perceptível de saúde pública associado à exibição da série, e é justificada a cautela quanto a exposição de crianças e adolescentes“, concluem os autores. Diana Díaz, diretora do serviço Telefone ANAR, que atende menores com problemas, concorda: “Esta série pode ser perigosa porque impacta muito e nem todos os adolescentes estão capacitados para interpretar o conteúdo, em nível psicológico e emocional, e porque no final justifica o suicídio“. De acordo com Díaz, alguns dos adolescentes que ligam para o telefone da fundação comentam que ficam impressionados com a série. “Há um risco de que tirem como conclusão que ‘se justifica que uma pessoa cometa suicídio para resolver os seus problemas’“, alerta.

A psiquiatra Mercedes Navío insiste em que o suicídio é um “fenômeno complexo e multifatorial” e não se pode extrair uma relação de causa-efeito com um único fator, como uma série. Mas explica que pode haver um efeito de contágio: “Os adolescentes são especialmente vulneráveis por serem mais impulsivos, terem mais tendência à idealização e porque às vezes não internalizaram o conceito de irreversibilidade da morte“, explica. “Eles têm ainda presente o pensamento mágico, a fantasia de que o impacto de seu ato não será irreversível, que terá certa notoriedade, heroísmo.

Pelo número gratuito da ANAR chegaram nos últimos cinco anos cada vez mais chamadas relacionadas a ideias suicidas, alerta Díaz. “Entre 2009 e 2016, os casos de pensamento ou tentativa de suicídio aumentaram seis vezes, quando antes era raro aparecer esse tipo de consulta“, diz. Em 2016, registraram 627 casos, sendo 441 de meninas e 186 de meninos. Destes, 43 eram crianças com menos de 10 anos de idade.

A Organização Mundial de Saúde estima que 62.000 adolescentes cometeram suicídio em 2016, sendo a terceira principal causa de morte no mundo entre 15 a 19 anos.

Tanto Díaz como Navío concordam com a importância de se falar sobre suicídio. “Tem que deixar de ser um tabu. É importante que a sociedade, e os pais, saibam o que acontece, para que peçam ajuda. O que não se pode é falar de procedimentos ou justificá-lo“, afirma Díaz. Navío pede que se fale “em termos de prevenção, sem uma abordagem sensacionalista ou julgamentos morais, nem para denegrir nem para exaltar a pessoa que se suicida”. “É preciso dar uma mensagem de esperança“, diz.

“A estratégia da prevenção é a mais eficaz”

Ao abordar o suicídio, “as estratégias de prevenção são as mais eficazes“, explica a psiquiatra Mercedes Navío. Primeiro, detectar e intervir na população de risco: pessoas com transtornos mentais, especialmente depressão, ou em risco de exclusão, como imigrantes, pelo sentimento de desenraizamento, ou membros da comunidade LGBTI em ambientes hostis.

Entre os adolescentes, o fator de risco mais importante é o assédio entre iguais, porque eles são “bem mais suscetíveis às críticas e dependentes da aceitação do grupo“. Também os vícios, em álcool e outras substâncias, que desinibem e podem levá-los a passar da ideia suicida ao ato. Diana Díaz, diretora do Telefone ANAR, aconselha os pais a prestarem atenção a sinais como o isolamento, a tristeza, a automutilação ou comportamentos mais impulsivos do que o normal.

De acordo com Navío, a melhor proteção é a existência de uma “rede social e familiar eficaz”: “É muito mais difícil que uma pessoa, ante fatores de risco, leve adiante a decisão se tiver uma rede de apoio“.

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Comentários

  1. Jeferson Gomes da Silva Postado em 05/Jul/2019 às 16:36

    Ficou simples de resolver as doenças pscológicas e distubios sociais, se querem resolver a violência basta fazer uma série de paz e amor ao proxímo, se querem ensinamentos religiosos façam série sobre isso, se querem que todos se saiam bem nas escolas (abracadabra) mais uma série de alunos se dando bem com os professores e aprendendo tudo que lhes é ensinado.

  2. Paulo Roberto Galliac Postado em 05/Jul/2019 às 16:36

    Não foi por falta de aviso da irresponsabilidade do lucro em criar gatilho, para os mais vulneráveis com depressão. Nem para avisar na época a série serviu dos riscos de sua obra para pessoas com tendências suicidas. Só cretinos gananciosos que não sofrem de depressão, para lucrarem com isso.