Fenômeno com 524 mil votos, Ana Elisa vai a Brasília e entra na estratégia de Lula para as redes
Eleita aos 21 anos com 524 mil votos, Ana Elisa se reúne com Alckmin em Brasília e participa das discussões sobre a estratégia digital de Lula para o segundo turno

Aos 21 anos, recém-eleita deputada federal com mais de meio milhão de votos e dona de uma audiência de quase 2 milhões de seguidores somente no Instagram, Ana Elisa Santos Silva (PT-MG) precisou de apenas dois dias para sair da condição de grande surpresa das urnas para participar das discussões nacionais do partido. Nesta terça-feira (6), a jovem parlamentar eleita esteve em Brasília e se reuniu com o vice-presidente Geraldo Alckmin, em meio à reformulação da estratégia digital da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para o segundo turno contra Flávio Bolsonaro.
O encontro foi registrado e divulgado pelo próprio Alckmin nas redes sociais. A presença de Ana Elisa na capital federal ocorre depois de ela fazer críticas públicas à comunicação da esquerda e defender uma mudança imediata na maneira como a campanha presidencial conversa com os eleitores na internet. A avaliação ganhou peso por um motivo difícil de ignorar: em sua primeira eleição, a jovem petista conquistou 524.219 votos em Minas Gerais após construir sua projeção política essencialmente nas redes sociais.
Quem é Ana Elisa
Ana Elisa Santos Silva nasceu em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Negra, estudante de Direito, estagiária e influenciadora digital, chegou à eleição de 2026 sem nunca ter ocupado um cargo público.
Ela se filiou ao PT somente em março deste ano e concorreu pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV.
Antes de disputar uma eleição, porém, Ana Elisa já havia formado uma audiência de aproximadamente 2 milhões de seguidores no Instagram. Em seus conteúdos, aborda temas como racismo, feminismo, educação, desigualdade, direitos sociais e questões relacionadas à juventude.
A própria deputada eleita atribui às redes sociais uma parcela importante do resultado que conseguiu nas urnas. Sua campanha utilizou vídeos curtos, linguagem direta e formatos próprios da internet para alcançar principalmente eleitores mais jovens.
Mais de 524 mil votos na primeira eleição
O resultado colocou Ana Elisa imediatamente entre os principais nomes da nova geração do PT.
Foram 524.219 votos, equivalentes a 4,57% dos votos válidos para deputado federal em Minas Gerais. Ela terminou como a segunda candidata mais votada do estado, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL), que recebeu 3.119.318 votos e foi o deputado federal mais votado do Brasil.
Ana Elisa também estabeleceu um recorde entre as mulheres mineiras.
Nenhuma mulher havia recebido tantos votos para deputada federal em Minas Gerais. A marca anterior pertencia a Duda Salabert, que conquistou 208.332 votos em 2022.
Aos 21 anos, Ana Elisa também alcançou exatamente a idade mínima prevista pela Constituição para ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Ela está entre os parlamentares mais jovens eleitos neste ano, embora não seja a pessoa mais jovem da nova Câmara. Alvinho Lira (PP-AL) foi eleito aos 20 anos e completará a idade constitucional necessária antes da posse.
Campanha foi construída principalmente pela internet
A trajetória ajuda a explicar por que Ana Elisa passou a ser ouvida pelo partido imediatamente após a eleição.
Sem uma longa carreira política e filiada ao PT havia apenas alguns meses, ela transformou uma audiência digital em mais de meio milhão de votos.
Sua campanha também conseguiu mobilizar apoiadores financeiramente. A vaquinha eleitoral ultrapassou R$ 100 mil e ficou entre as campanhas de financiamento coletivo com grande número de doadores.
A estratégia foi baseada principalmente na produção constante de conteúdo para as redes, com linguagem adaptada aos formatos consumidos no Instagram, TikTok e outras plataformas.
O desempenho ocorreu justamente em uma eleição marcada pela força de candidatos que construíram enormes audiências digitais.
Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos do PL, ultrapassaram a marca de 3 milhões de votos cada e se tornaram os dois deputados federais mais votados do país. Erika Hilton (PSOL), outra parlamentar com enorme alcance nas redes, recebeu quase 1,6 milhão.
A eleição de 2026 reforçou, assim, algo que já vinha se desenhando nos últimos pleitos: a capacidade de comunicação digital passou a ter peso comparável ao das estruturas tradicionais de campanha.
Ana Elisa critica comunicação da própria esquerda
Depois de eleita, Ana Elisa não poupou críticas ao próprio campo político.
A jovem deputada afirmou que a esquerda precisa reconhecer os erros cometidos na comunicação e “calçar a sandália da humildade” diante do desempenho da direita nas redes.
Para ela, o problema não está necessariamente na ausência de políticas públicas ou de resultados para apresentar ao eleitor, mas na dificuldade de transformar essas realizações em mensagens capazes de circular fora do público que já acompanha o governo.
Em entrevista após a eleição, Ana Elisa resumiu sua avaliação sobre o segundo turno:
“Quem conseguir se comunicar melhor, vai ganhar.”
A parlamentar eleita também afirmou que “a vida hoje é pautada pela tela do telefone”, destacando que boa parte dos brasileiros recebe informações políticas, econômicas e sociais pelas plataformas digitais.
Na avaliação dela, a campanha de Lula precisa compreender esse ambiente com urgência.
“Se não mudar, Flávio Bolsonaro vai ganhar”
Ana Elisa também fez uma avaliação dura sobre o risco eleitoral enfrentado pelo presidente no segundo turno.
Após Flávio Bolsonaro terminar a primeira etapa da disputa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, a jovem petista defendeu uma mudança profunda na comunicação da campanha.
Segundo ela, se a estratégia permanecer igual à utilizada no primeiro turno, Flávio poderá vencer a eleição.
A crítica chama atenção porque partiu de alguém que acaba de demonstrar capacidade concreta de transformar alcance digital em votos.
Enquanto parte da esquerda ainda debate como disputar espaço em plataformas dominadas por vídeos curtos, algoritmos e influenciadores, Ana Elisa chegou à Câmara justamente utilizando esse ecossistema como principal instrumento eleitoral.
Ana Elisa vai a Brasília dois dias depois da eleição
A repercussão das declarações foi rápida.
Nesta terça-feira, apenas dois dias depois de ser eleita, Ana Elisa viajou para Brasília e se encontrou com o vice-presidente Geraldo Alckmin.
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O encontro foi divulgado pelo próprio Alckmin em seu perfil oficial no Instagram, confirmando a presença da jovem parlamentar eleita na capital federal.
A agenda ocorre no momento em que a campanha de Lula discute mudanças na estratégia para as redes sociais durante as menos de três semanas que separam o primeiro do segundo turno.
Ana Elisa também deve participar das conversas com Lula sobre a comunicação digital da campanha.
A movimentação indica que o desempenho eleitoral da jovem mineira despertou atenção do núcleo político do presidente antes mesmo de ela tomar posse como deputada federal.
## Campanha de Lula prepara reação nas redes
O primeiro turno acendeu um sinal de alerta entre dirigentes e integrantes da campanha petista.
Além de Flávio Bolsonaro ter terminado na primeira colocação, candidatos da direita com forte presença digital alcançaram resultados expressivos nas eleições para Câmara e Senado.
A avaliação interna é de que será necessário ampliar a comunicação com públicos que não são alcançados pelos canais tradicionais do governo e da campanha.
Nesse contexto, jovens políticos e criadores com experiência nas redes passaram a ganhar espaço nas discussões para o segundo turno.
Ana Elisa reúne duas características especialmente valorizadas nesse momento: conhece a linguagem das plataformas e acaba de passar por um teste eleitoral concreto.
Sua votação de 524 mil votos funciona como uma espécie de demonstração prática da capacidade de transformar seguidores e alcance digital em mobilização política.
## Fim da escala 6×1 está entre suas bandeiras
Apesar da atenção conquistada pela atuação nas redes, Ana Elisa chega à Câmara com uma agenda política definida.
Entre as propostas defendidas durante a campanha estão o fim da escala 6×1, fortalecimento da educação pública, passe livre universitário intermunicipal, políticas para o primeiro emprego e ampliação dos direitos da classe trabalhadora.
Ela também defende as cotas raciais e políticas de combate ao racismo e à desinformação.
A deputada eleita afirma que pretende utilizar o mandato para ampliar a representação de jovens e da população negra nos espaços institucionais.
Sua eleição ocorre em um pleito no qual a representação feminina na Câmara também atingiu um recorde. Foram eleitas 109 mulheres, contra 90 em 2022.
## Da internet para a Câmara e agora para a campanha presidencial
A velocidade da trajetória de Ana Elisa ajuda a explicar por que sua eleição chamou tanta atenção.
Em março, ela se filiou ao PT. Em outubro, disputou sua primeira eleição. Recebeu 524.219 votos, tornou-se a mulher mais votada da história de Minas Gerais para deputada federal e terminou atrás apenas de Nikolas Ferreira no estado.
Dois dias depois, já estava em Brasília reunida com o vice-presidente da República e participando das discussões sobre um dos principais problemas identificados pela campanha de Lula para o segundo turno.
A jovem de 21 anos só tomará posse na Câmara em fevereiro de 2027. Politicamente, porém, sua atuação nacional já começou.
Em uma eleição na qual a direita mostrou enorme capacidade de mobilização digital, a votação de Ana Elisa ofereceu ao PT um raro contraponto dentro do próprio campo progressista.
Agora, diante de uma disputa presidencial apertada e com menos de três semanas até o segundo turno, Lula tenta incorporar essa experiência à campanha. A aposta é simples, mas decisiva: encontrar uma linguagem capaz de levar a disputa política para a tela do celular de milhões de brasileiros que ainda podem decidir a eleição.
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