Delmar Bertuol
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Colunistas 17/Set/2026 às 19:41 COMENTÁRIOS
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PEQUENO GLOSSÁRIO DA DIREITA PARA AS ELEIÇÕES

Delmar Bertuol Delmar Bertuol
Publicado em 17 Set, 2026 às 19h41
Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

É praxe: fugir das perguntas, tergiversar, relativizar absurdos… enfim, na esquerda como na direita a lista de subterfúgios para não dizer certas ideias ou dizê-las de maneira distorcidas são grandes. Não raro, os candidatos usam de eufemismo para anunciar uma proposta que vai piorar a vida do eleitor. Do mais pobre e dos trabalhadores, é claro. Um muito usado é a “modernização” das relações de trabalho. Há quem ainda caia nessa. Ora, e quem não quer ser moderno? Quem fala em modernização não quer mais utilizar a obsoletude das leis trabalhistas que, no Brasil, tem sua base (CLT) na década de 40. Não, moderno é negociar com o patrão. O empregado faz a proposta, o patrão não aceita e faz uma contraproposta acompanhada dum convincente argumento: aceita ou tens a liberdade, que quem fala em modernidade defende a liberdade, de procurar outro emprego.

Nestas eleições, contudo, percebo uma dissimulação gigantesca por parte da direita, que diz se assumir, mas não o faz às claras. O Plano de Governo do Flávio fala em não aumentar o salário-mínimo acima da inflação. Mas ele, quando perguntado, responde que vai valorizá-lo, sim. Bem, ele mesmo já teve que se desmentir sobre sua relação com o Vorcaro…

Sendo assim e para não cairmos em falácias e termos bonitos, elaborei um pequeno glossário com termos e ideias que ouvi em programas da direita.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

E já que acabei de falar dele, vamos à primeira falácia, a de que o dinheiro do Vorcaro é dinheiro privado. Mentira! A fortuna dele, na maior parte, foi roubada de servidores públicos e de aposentados. Quem se refestelou nas festas com uísque escocês e prostitutas suíças o fez com a previdência de servidor público. Vale pra financiamento de filme pastelão também.

-“O povo não aguenta mais o petêêêêê no poder.” Leia: a direita não aguenta mais perder para o PT. Em 2016 precisaram dar um golpe e em 2018 prender o Lula para assumir o Planalto.

-“A criminalidade aumentou.” Mentira. A sensação de violência aumentou, mas, afora o feminicídio, os outros crimes todos diminuíram. Só que a direita, com a sua propaganda contra, alardeia que os crimes aumentaram, fazendo aumentar a ideia de que se vive em meio à violência.

-“Flávio vai diminuir a criminalidade.” Como, se ele mesmo tem íntimas relações com bandidos e milicianos? E, mais, foi no governo do pai dele, que ele diz querer continuar, que mais armas e munições chegaram nas mãos das facções. Isso é, apesar do Bolsonaro e sua ajuda à bandidagem, Lula ainda conseguiu diminuir a criminalidade.

-“Flávio vai diminuir o feminicídio aumentando as penas para os homens que cometem esse crime.” Bem, ele pode até aumentar a pena, mas será inerte, pois se trata de crimes passionais, isso é, as consequências penais pouco ou nada importam para o criminoso. Haja vista que muitos matam os próprios filhos para atingirem as mulheres; outros se suicidam. Acham mesmo que ele quando premedita o crime tá preocupado se vai ser condenado a vinte ou cinquenta anos de prisão, ou mesmo, numa hipótese inconstitucional, prisão perpétua? Sobre isso ainda e outra interpretação: quem falou que ter filha mulher era fraquejar? Quem desrespeitou mulheres? Quem disse que mulher merece ser estuprada? Ora, será que quando o líder de uma nação pensa machistamente, não está, involuntariamente, influenciando seus liderados a fazerem o mesmo? Sim, estou relacionando o aumento dos feminicídios ao latente bolsonarismo, em que as mulheres são objetificadas. Logo, se são objetos, coisas, podem ter donos, podem ser a posse de alguém. E esse alguém, macho alfa, pode não aceitar perder uma coisa que ele achava lhe pertencer.

-“Lula dividiu o governo com Alexandre de Moraes.” Outra mentira. Lula não dividiu seu governo com ninguém mais além do que com seus ministros no que a cada um que coubessem. Bolsonaro não dividiu seu governo. Ele deixou de governar. Entregou o Executivo ao Arthur Lira enquanto tratava de tramar um golpe para se manter no poder. No que tange a Alexandre de Moraes, nem indicado pelo PT ele foi. Quem lhe indicou, com a crítica da esquerda e apoio da direita, foi o golpista Michel Temer.

-“Alexandre de Moraes precisa sofrer o impeachment.” Ele poderá ser investigado e, caso for provado algo, penso que sim, deverá pagar com os rigores da lei. Por ora, contudo, ele merece ser laureado por ter colocado na cadeia golpistas. E não me venham falar das vovós encarceradas. Elas não foram lá fazer tricô. E outra, os (as) canalhas também envelhecem. Ou alguém perdoaria Hitler depois que ele fizesse setenta?

-“O Brasil não aguenta mais esta polarização.” Aguenta. Tanto aguenta, que estamos polarizados. Agora, se tu estás do lado errado, aí não é problema do outro lado.

-“Eu sou a terceira via.” Não, não é. A terceira via seria a Marina Silva ou a Simone Tebet (que não teriam meu voto. Tô pela polarização mesmo). Os que se apresentaram como uma terceira via não passam de um acostamento do bolsonarismo.

-“Vou anistiar os envolvidos em 8 de Janeiro.” Então tu és golpista também. Se se desse o respeito, nem participava das eleições, já que defende quem tentou acabar com elas.

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-“Vou pacificar o País.” Como? Soltando presos condenados pelo nosso sistema judiciário, ouvida a Polícia e o Ministério Público, num rito jurídico perfeito? Ou propondo impeachment de Ministros do STF? Não, tu não vais pacificar nada. Vai gerar uma crise entre poderes, só que estando o seu grupo no Poder Principal.

-“Vamos ajudar quem realmente produz neste País.” Então vão ajudar os trabalhadores? Sim, pois quem realmente produz são os empregados. Os patrões são os proprietários das empresas, eles não produzem propriamente. E aqui não estou querendo pegar em armas e tomar as indústrias, como propôs Marx e Engels. Primeiro que sou um pacifista. Ou melhor e já que estamos falando em eufemismos: sou cagão mesmo; segundo, porque não sou contra as empresas e nem muito menos contra os lucros, eles geram de fato prosperidade. Mas não existe produção (e nem lucro!) sem os funcionários. Dizer que vai ajudar os empresários é o mesmo que dizer que vai primeiro fazer com que eles aumentem os lucros, depois, se sobrar, quando sobrar, aí a gente vê, quem sabe mês que vem, vamos devagar… aí o teu salário aumenta um pouco.

-“Não é que eu seja contra o fim da escala 6×1, é que acho que não pode ser agora.” Se esse candidato desse a opinião dele há uns 140 anos, diria: “não é que eu seja contra acabar com a escravidão. Sou a favor, mas não agora. Não creio que o Brasil esteja pronto ainda para dar esse passo… quem vai pagar essa conta? Os próprios negros, é isso que os abolicionistas não dizem.”

-“O PT odeia o agro.” Mentira. Os governos petistas são pragmáticos e não colocam ideologias nem muito menos picuinhas acima dos interesses nacionais. Infelizmente, pode ser que a recíproca não seja verdadeira, o que é não só uma desinteligência como também espécie de ingratidão. Em todos os governos petistas a agricultura familiar como os grandes agronegócios foram beneficiados. No primeiro governo Lula, os filhos de fazendeiros iam desfilar de Hilux compradas com financiamento a juros menores do que a inflação pelos centros das cidades; no governo atual, o Plano Safra bate recordes. O ranço ideológico pode advir do MST. Mas dois fatores: MST não acampa em pequenas propriedades/agricultura familiar; outra, dos grandes produtores, quantos tiveram alguma fazenda sua alvo do MST?

-“Vamos incentivar o empreendedorismo.” Verdade. Ao invés de melhorar a vida do funcionário público e privado, a ideia da direita é que cada um tenha a sua empresa, no caso, seu corpo/força de trabalho. Ao invés de pedir diminuição dos dias de trabalho sem diminuição do salário, pegue a sua bicicleta e vá entregar fésti fúdi. Pronto, passou de mero funcionário para empreendedor. Faça seu horário. Genial.

-“Somos patrióticos.” Não, não são. Quem é patriota defende o País, não o entrega aos Estados Unidos. O PT é patriótico.

-“Somos pela família.” Não, não são. Quem é pela família respeita todas as formas de amor, todas as maneiras de se constituir uma família, que cada família é louca do seu jeito. O PT é a favor da família.

-“Somos cristãos”. Não, não são, que Jesus não defendia a violência. Pregou o amor e a solidariedade. Propôs dividir o pão. O PT não é comunista. Jesus era comunista. Mas o PT, com a sua social-democracia, está mais perto de Cristo do que a direita com a sua meritocracia pra quem já nasce em berço meritório.

-“…porque o método Paulo Freire…”. Para, tu nunca leu nada do Paulo Freire.

-“O Lula é comunista.” Mentira. Ele já se declarou corinthiano.

-“O PT persegue os evangélicos.” Mentira. As igrejas neopentecostais tiveram significativo aumento de fiéis justamente a partir dos governos do PT. E muitas igrejas foram construídas com o dinheiro do dízimo oriundo do Bolsa Família. E eu teria umas críticas a fazer a determinados pastores extorquistas da fé alheia, mas o próprio Lula já brigou com seus correligionários, que ele não quer que se critique fé e tudo que a envolve. Lula não usa a fé das pessoas pra fazer politicagem, a direita sim. Lula é católico praticante desde criança. Aproveitadores de direita se converteram ao evangelismo por puro oportunismo. Lula nunca se divorciou e nem propôs pra namorada fazer aborto; Bolsonaro já fez essas duas coisas. Lula é um conservador na vida privada, mas ela não mistura o público com o privado.

-“O PT quer liberar as drogas.” Em doze anos, sequer tentou legalizar a maconha. O único avanço que teve foi, juntamente com a comunidade científica (e aí não sei se a direita vai entender essa coisa de cientificismo), mas não sem resistências, foi liberar a cannabis para uso medicinal.

-“O PT vai liberar o aborto.” Outra mentira. O que os parlamentares do PT lutaram e lutam até hoje é para aborto em casos específicos, sobretudo em fetos acéfalos e em caso de estupro.

-“O PT incentiva a homossexualidade”. Não sei, acho que é mentira. Pois já tive propostas de alguns amigos e resisti a quase todas. Menos a do Norberto… ai, Norberto… é verdade que o PT (a esquerda, pra ser justo) foi favorável à permissão do casamento homoafetivo. Mas à permissão, não à obrigação. Ninguém é obrigado a aceitar o pedido nupcial de quem quer que seja (se bem que duvido resistirem à voz doce mas máscula do Norberto…). Se bem que, por outro lado, para alguns, é conveniente culpar o PT pela sua sexualidade. Seria o momento daqueles enrustidos que pregam ódio aos LGBTSHKJSJKJLKJFPRJ4GPQIA+ saírem do armário e fazerem como sempre: “foi culpa do petêêêêêê!”.

*Delmar Bertuol é professor de história

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