André Mendonça avalia incluir Alexandre de Moraes em investigação do caso Master, mas mantém silêncio sobre Flávio Bolsonaro
A ofensiva do ministro André Mendonça sobre Alexandre de Moraes abriu uma das frentes mais delicadas do escândalo do Banco Master, mas o material sob responsabilidade do próprio magistrado não se limita às relações de Daniel Vorcaro com integrantes do Supremo. O caso também alcança diretamente o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que admitiu ter procurado o então banqueiro em busca de recursos para financiar Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
As conexões ganharam nova relevância depois que Mendonça determinou a divulgação de documentos da Polícia Federal contendo mensagens enviadas por Vorcaro a um interlocutor que os investigadores atribuem a Moraes. Nos diálogos, o banqueiro busca informações sobre investigações que o atingiam, pede encontros e fala em conseguir ajuda junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. As mensagens não permitem conhecer eventuais respostas de Moraes e, até agora, não demonstram por si mesmas que o ministro tenha interferido ilegalmente nas investigações.
Flávio também procurou Vorcaro atrás de dinheiro
Se as relações políticas e institucionais mantidas por Vorcaro passaram a ser parte central da investigação, uma delas leva diretamente a Flávio Bolsonaro.
Mensagens e um áudio revelados inicialmente pelo Intercept Brasil e posteriormente confirmados por outros veículos mostram que Flávio procurou Vorcaro para obter recursos destinados à produção de Dark Horse. O próprio senador reconheceu que participou da captação e afirmou posteriormente à CNN que um fundo ligado ao banqueiro investiu pouco mais de US$ 12 milhões no projeto.
Documentos analisados pela investigação apontam que pelo menos US$ 10,6 milhões — aproximadamente R$ 61 milhões na cotação utilizada à época — foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para financiar a produção. A negociação discutida com Vorcaro poderia chegar a US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões.
Isso não significa que R$ 61 milhões tenham sido depositados na conta pessoal de Flávio. O dinheiro foi direcionado à estrutura financeira ligada à produção do filme. O dado relevante é que o senador participou diretamente das conversas com Vorcaro para viabilizar os aportes e, em áudio, chegou a cobrar a continuidade dos pagamentos quando a produção enfrentava dificuldades financeiras.
Flávio sustenta que não houve qualquer contrapartida ou vantagem política oferecida ao banqueiro e afirma que os recursos eram privados e destinados exclusivamente à produção cinematográfica.
PF abriu investigação sobre o dinheiro de Dark Horse
As revelações não permaneceram apenas no terreno político.
Em junho, um pedido apresentado ao Supremo buscou investigar os pagamentos realizados por Vorcaro para o filme. O processo terminou redistribuído justamente para André Mendonça, por ser ele o relator das investigações relacionadas ao Banco Master.
No mês seguinte, Mendonça autorizou formalmente a Polícia Federal a instaurar um inquérito sobre os repasses. A medida foi tomada a pedido da própria PF e contou com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República.
Portanto, não há base factual, até aqui, para afirmar que Mendonça tenha arquivado ou bloqueado uma investigação que envolve Flávio Bolsonaro. O que existe é uma questão institucional que tende a ganhar peso conforme o ministro aumenta o rigor sobre outros personagens do caso: a mesma investigação sob sua relatoria contém conexões relevantes entre Vorcaro e o candidato presidencial do PL.
Dinheiro passou por empresa atingida pela investigação do Master
A rota de parte dos recursos tornou a história ainda mais sensível.
Investigações apontam que dinheiro ligado a Vorcaro passou pela Entre Investimentos, de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, antes de chegar a estruturas financeiras relacionadas ao projeto Dark Horse nos Estados Unidos.
Freixo firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. Segundo informações divulgadas nesta semana, sua empresa teria realizado transferências para o Havengate Development Fund, administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. As transferências ocorreram após negociações de Flávio com Vorcaro.
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A Entre também entrou no radar da Operação Compliance Zero, que investiga as supostas fraudes do Banco Master.
Essas conexões não provam, isoladamente, que Flávio Bolsonaro tenha cometido crime. Elas explicam, porém, por que a origem, o destino e as circunstâncias dos pagamentos se tornaram objeto de investigação da Polícia Federal.
Flávio pediu que o caso fosse para Mendonça
Há ainda um elemento político relevante: antes de Mendonça assumir a investigação do Dark Horse, o próprio Flávio Bolsonaro havia pedido ao STF que Alexandre de Moraes fosse considerado suspeito para analisar o caso.
A defesa do senador sustentou que os procedimentos envolvendo Vorcaro e o Banco Master deveriam ficar sob responsabilidade de André Mendonça. Posteriormente, a PGR também defendeu a redistribuição, e o presidente do Supremo, Edson Fachin, definiu Mendonça como relator.
O episódio ganha novo significado diante da atual guerra aberta dentro do Supremo. Agora é justamente Mendonça quem conduz as apurações sobre o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro e, simultaneamente, pressiona pela análise das mensagens de Vorcaro envolvendo Moraes.
Escândalo não cabe em apenas um campo político
Os documentos encontrados nos aparelhos de Daniel Vorcaro vêm revelando uma rede de relações que atravessa partidos, governos, Congresso, Judiciário e outras instituições do Estado.
No caso de Alexandre de Moraes, as mensagens mostram Vorcaro tentando obter informações e ajuda em momentos decisivos da crise do Master. Também vieram à tona contratos entre o banco e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Moraes ainda não é considerado culpado de qualquer irregularidade e parte das circunstâncias permanece sob disputa jurídica e investigação.
Do lado bolsonarista, os documentos registram uma relação igualmente concreta de Vorcaro com personagens do grupo político. Flávio aparece conversando diretamente com o banqueiro e buscando financiamento para um projeto dedicado à trajetória de seu pai. Mensagens recuperadas também mostram tratamento próximo entre ambos.
A situação produz uma exigência institucional simples: se as relações de Vorcaro com autoridades são relevantes para compreender a extensão do escândalo Master, o critério não pode variar conforme o personagem atingido.
O mesmo rigor aplicado às mensagens envolvendo Alexandre de Moraes precisa valer para os recursos destinados ao Dark Horse, para os intermediários das transferências e para a participação de Flávio Bolsonaro nas negociações. Isso não significa antecipar culpa de nenhum dos lados. Significa exatamente o contrário: investigar com a mesma profundidade, independentemente de sobrenome, cargo ou campo político.
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