O mundo habitado por abutres e hienas

Anderson Pires*
O livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, do astrônomo Carl Sagan, trata de como as crenças religiosas, das mais diversas orientações, constroem narrativas baseadas na criação de “demônios”, sem qualquer base científica. Nesse livro, o autor desconstrói uma série de mitos e rituais com base no pensamento racional, no ceticismo e no método científico. Mas o passeio pelo tema explicita que muito da expansão da religiosidade advém dos medos e da exploração das fragilidades humanas.
Quando tratamos desse assunto, ressaltamos o papel da religiosidade na formação da humanidade. A maioria das crenças ressalta medos, constrói pecados e determina penas que, muitas vezes, só acontecerão após a morte. Há um lado positivo nisso, pois, de alguma forma, exerce um efeito regulador, estabelecendo controle sobre atos considerados inaceitáveis pelas religiões, mas que também são criminosos. Não tenho dúvida de que, em um mundo tão desigual, com bilhões de pessoas vivendo na pobreza e até passando fome, as religiões também desempenham o papel de conter revoltas generalizadas.
Porém, as religiões, ao mesmo tempo, oprimem e criam seus próprios códigos de crimes aceitáveis. Os pecadores privilegiados sempre terão o perdão mediante indulgências, seja pela confissão sacramental e pelas rezas praticadas pelos católicos, seja pelo pagamento de gordas cifras entre os neopentecostais. Já aos pobres, diante de uma galinha roubada e do crime confessado, restará aceitar a condenação divina e jamais ultrapassar a linha que represente risco aos privilegiados. Podem trabalhar até morrer, mas jamais se revoltar.
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Notem que existe uma construção social e cultural que diferencia fortes de fracos, ricos de pobres e estabelece condições distintas para o perdão e a aceitação. Premia quem demonstra força e dominação, tanto que alguns podem até pagar pelo perdão divino, mas condena e destrói socialmente os que demonstram fragilidade. Aqui não cabe vir com publicidade travestida de caridade, que serve como autoabsolvição. Na maioria das vezes, ela apenas reafirma a condição de vulnerabilidade dos atendidos. Entendo que o sofrimento deve ser amenizado, mas, ao lado da ação pontual, deve haver uma postura de rompimento com todo o sistema que levou à segregação de bilhões em prol de muito poucos.
Até agora falamos dos humanos, mas, se fizéssemos um paralelo com o mundo animal, perceberíamos que existe um instinto predatório na forma como o mundo civilizado estabeleceu seus valores e se comporta. Assim como na natureza, temos aqueles que se nutrem dos medos e das fragilidades. Diante da fraqueza iminente, não espere condescendência: os “abutres” e as “hienas” estarão sempre preparados para atacar.
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O mundo está cheio de gente à espera da hora do bote. Apesar de escutarmos cotidianamente falácias como “a pessoa colhe o que planta”, a tese da “lei do retorno” e muitas outras citações típicas de livros de autoajuda, a verdade é que o bônus é destinado a muito poucos. Se fosse verdade o que os gurus da prosperidade afirmam, teríamos um mundo sem desigualdade e povoado por pessoas solidárias.
Infelizmente, existe uma infinidade de carniceiros: são os abutres e as hienas que habitam o mundo. E não pensem que isso é um exagero. Não estou falando de algo pontual. Basta lembrar da pandemia, quando se esperava uma onda de solidariedade, mas a resposta foi exatamente o contrário. Quem estava em posição de força impôs seus interesses e buscou lucrar com a desgraça alheia.
O mundo é uma construção social. A humanidade deriva da moral e ética. As práticas estão presentes nos valores propagados pelas instituições: Igreja, Estado e família. Mas haverá quem diga e constate que abutres, hienas e humanos têm a mesma natureza.
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