Delmar Bertuol
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Colunistas 03/Jun/2026 às 08:39 COMENTÁRIOS
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Quintana e o Ypê

Delmar Bertuol Delmar Bertuol
Publicado em 03 Jun, 2026 às 08h39

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

“Se tu me amas, ama-me baixinho / Não o grites de cima dos telhados / Deixa em paz os passarinhos / Deixa em paz a mim!…”

Essa é parte do poema Bilhete, do Mario Quintana. Frequentemente eu o evoco como parâmetro. Mas não para concordar e sim (quanta petulância!) discordar do poeta. É que eu não sei amar discretamente. Não só não deixo em paz os passarinhos, como os chamo pra me acompanharem na serenata. E não espero menos de quem me ama. Não aceito nada menor do que um grito em cima do terraço do mais alto prédio da cidade.

Mas não quero agora falar (ou gritar) sobre amor. Meu assunto é o ódio. E daí que parafraseio o escritor do Hotel Majestic de Porto Alegre. Só que eu “apenas” modifico o sentimento. Ao invés do sublime amor, falo do ódio, que outro poeta já nos ensinou não se tratar do oposto do amor, já que o oposto desse é a indiferença. Talvez daí minha preocupação em contrariar o poeta e gritar minha paixão. Não posso ser confundido como indiferente.

Mas devaneio, tão apaixonado sou. Me propus a falar de ódio e vencerei o amor para fazê-lo.

Ocorre que com o maniqueísmo dicotômico que estamos vivendo no que se refere à Política, não basta ser dum lado. Há que se odiar o outro. E é odiar literalmente. Romper relações inclusive familiares, se for o caso.

E a questão nem é somente o ódio e o rompimento do amor. E é aí que entra a releitura do poema. Não se pode odiar baixinho. Não se pode deixar em paz os passarinhos. Literalmente, em muitos casos, pois há os que consideram os ambientalistas uns “ecochatos” e merecem serem odiados com todo barulho que uma poluição sonora pode ocasionar.

Nessa esteira, está em voga o tal do cancelamento. É mais ou menos assim: se não se concorda com o posicionamento político de determinada pessoa ou empresa, não se consome mais os produtos e serviços dessa em questão. E isso vale para quando apenas se acha, não se tem certeza, que determinada pessoa ou empresa tem determinado posicionamento político.

Eu acho o cancelamento genial, ineficiente, paradoxal, ridículo e/ou perigoso. A depender do ponto de vista e de como se faz. Explico.

Vamos ao ridículo e paradoxal. Final do ano passado, as Havainas fizeram peça publicitária sugerindo que não se deveria entrar o ano somente com o pé direito, mas com os dois pés. Percebam, ela não trocou o pé da sorte. Apenas, e sem nem mesmo denominar o outro, sugeriu que os dois pés dariam sorte neste 2026. Pronto. Parte da direita já supôs que a empresa era de esquerda e pregaram o boicote à marca. Nem vou entrar no mérito de que são manifestantes covardes. Teriam o meu respeito não se deixassem de comprar esses chinelos, mas se cortassem fora o pé esquerdo. Trocar Havaianas por Ipanema é fácil. Acho até que essa é mais barata que a outra. Mas, enfim, parte ridícula da direita passou a não só não comprar como a fazer propaganda contra a marca. E aí o paradoxo. Ao que consta, com isso, as vendas aumentaram sem a empresa precisar investir mais milhões em publicidade em horário nobre.

Mario Quintana. Reprodução.

Também tem a parte genial e ineficiente. Até então, eu nunca tinha entrado numa Havan. Orgulhava-me disso. Mas deixava em paz os passarinhos, se é que me entendem. Não ficava em cima do telhado pregando o boicote à loja de quinquilharias. Até porque, certa vez, ouvi numa palestra que não devemos dizer que nunca mais entraremos em um estabelecimento. Pois um dia se pode passar por um aperto e precisar ir justamente nesse estabelecimento. Aí se perde a credibilidade. E foi justamente o que aconteceu. Ou melhor, quase.

Eu tava precisando de uma quinquilharia. Já havia entrado em todos os bazares e nas lojas de 1,99, que hoje são de 199,00. Essas lojas que têm de tudo. Uma vez entrei com a namorada, pois ela queria comprar uma bolsa. No final, eu comprei uns trecos pra mim e já troquei de namorada. É que eles parcelavam sem juros. Como não admirar os chineses. Eles fabricam coisas que a gente não sabia que existia e não sabia sequer de que precisávamos disso. Impossível sair dessas lojas sem uma sacola.

Mas eu dizia. Tinha entrado em várias dessas lojas. Pesquisado na internet. Nada de achar um preço em conta. Aí passei em frente à Havan. Olhei pro lado, olhei pro outro. Nenhum conhecido. Eis que entrei. Tivesse o produto mais barato lá, eu ia comprar e azar. E se o Véio tivesse por acaso presente, ainda ia pedir uma foto. Mas qual nada. (In)Felizmente não estavam baratos os copos específicos de que precisava. E o tal carequinha também não se encontrava, que ele é contra o fim da escala 6X1, mas era domingo. Aposto que ele não trabalha em domingo. Fui no setor de namoradas e também nenhuma promoção. No fundo, vibrei. Pelo menos, não gastei nem um centavo lá. E ainda usei o banheiro.

Nesse ponto, o cancelamento é genial, pois se evita de frequentar/consumir um local sem fazer maiores alardes. Numa decisão pessoal e silenciosa. Um contentamento subjetivo e introspectivo. Mas também é ineficaz, pois na semana seguinte, a Havan inaugurava sua centésima não sei o que loja, com aquela estátua ridícula e subserviente… ainda bem que não tinham os canecos lá. Não comprem na… Não, não. Não sou desses.

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Por último, e acho até que o mais importante, a questão do perigo. Lembremos que os nazistas segregavam o comércio na Alemanha. Lojas exclusivas para judeus ou outras que eles eram proibidos de entrar. Por aqui e por estes tempos, já houve casos de lojas em que constava explícito aviso de que, ali, naquele estabelecimento, determinadas pessoas (petistas ou bolsonaristas, ou palavras que os valham) não eram bem-vindas.

Isolado, com a filha longe e sem namorada (logo eu, cujo coração parece aquele samba do Paulinho da Viola, tem mania de amor), confesso que na pandemia eu não era muito prudente. Ainda mais que uso óculos. Quem usa esse adereço e usou máscara sabe do que estou falando.

Acabei me encontrando sem máscara com outros imprudentes e, quando o protocolo permitia, tive alguns encontros amorosos, que terminaram no mínimo em beijo na boca. E sem máscara, para piorar. E ainda corri risco à toa, pois nenhuma evoluiu para um amor de incomodar os passarinhos.

Só que eu não ficava nas redes sociais pregando o libera geral ou que a vacina nos faria virar jacaré. Ao contrário, compartilhava hipocritamente que se usasse máscaras e que se tomasse a vacina. Sobre isso, eu me vacinei acho que três vezes. Não tomei a última dose.

Mas não sou negacionista. Confio na ciência e nas instituições. Se a OMS manda ficar em casa, pode ser que não fique, mas tenho consciência de que corro risco. Mesma coisa com as máscaras que embasavam minha visão.

Por último, a Anvisa detectou que uma marca de detergente tem um lote contaminado por uma perigosa bactéria. Confesso que, num primeiro momento, ainda utilizei o produto. E culpei minha esposa. Sempre preferi Limpol. Rende mais. Só que depois de pesquisar melhor, temi e descartei o produto. Ressalte-se que, nesse pouco tempo em que irresponsavelmente lavei uns pratos com o detergente contaminado, não fiz campanha menosprezando a contaminação. Assim como respeitava na pandemia aqueles que lavavam todos os produtos na quiboa. Definitivamente, respeito a prudência alheia.

Só que parte da direita, talvez a mesma que promoveu o boicote às Havaianas, relacionou a suspensão da Anvisa a questões políticas, já que o dono da empresa doou dinheiro pra campanha do Bolsonaro. Agora, a direita fazia um boicote ao contrário. Não só irresponsavelmente pregavam que se continuasse usando o produto, como apareceram pessoas em vídeos passando na pele o detergente neutro (nem pra usar o de limão, mais cheiroso), como limpando um anacrônico bigode ou mesmo tomando.

Vamos por um parágrafo supor que os servidores técnicos de carreira da Anvisa são petistas irresponsáveis e que superdimensionaram o perigo do uso dos produtos Ypê. O que o governo ganharia com isso? Uma grande empresa nacional, que emprega milhares e gera milhares de reais em impostos estar sob grave suspeita. Milhares de pessoas temendo pela sua saúde. E mais ainda, se é verdade que política e fiscalização estão ilegal e promiscuamente ligadas, a Vigilância Sanitária de São Paulo, governado pelo Tarcísio, não poderia ter orientado os consumidores a suspenderem o uso do produto cujo dono ajudou na campanha dum aliado político do governador.

Houve um tempo em que amávamos, odiávamos, éramos imprudentes, tudo baixinho. Agora e com as redes sociais, praticamente tudo tem que ser mostrado e compartilhado. Não basta não ir a uma loja, como aquela que eu não vou citar novamente pra não ter o risco do efeito paradoxo. É preciso fazer campanha de boicote. Não basta simplesmente ignorar as advertências da agência de saúde, é preciso chegar ao patético de tomar o produto infectado. E gravar! O Brasil decidiu que tomar ou não a vacina é decisão pessoal. Mas não basta simplesmente não se imunizar. Há que se compartilhar sobre a possibilidade de os chineses terem colocado um chip rastreador na dose.

Vou lavar a louça que ganho mais.

Pobre passarinhos.

*Delmar Bertuol é professor de história

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