Redação Pragmatismo
Notícias 29/Mai/2026 às 10:49 COMENTÁRIOS
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Pai de criança autista é espancado por fiéis em Balneário Camboriú após reclamar de som alto em igreja evangélica

Publicado em 29 Mai, 2026 às 10h49

Trabalhador disse conviver há 4 anos com o barulho excessivo vindo da igreja evangélica em Santa Catarina. Ele é pai de uma criança autista de 9 anos e diz que situação afeta bem-estar do filho. "Eu não tive chance de defesa", desabafa Tiago após o espancamento

por Felipe Borges

O caso do morador agredido por um guarda municipal de folga em frente a uma igreja evangélica de Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina, ganhou novos contornos após a divulgação de informações sobre o histórico de denúncias relacionadas ao local. Segundo Tiago Alves, vítima das agressões registradas por câmeras de segurança, o conflito envolvendo o volume dos cultos se arrasta há pelo menos quatro anos.

De acordo com o morador, ao menos 17 boletins de ocorrência foram registrados ao longo desse período em razão do som emitido pela igreja. Ele afirma que a situação afeta diretamente a rotina de sua família, especialmente a de seu filho de 9 anos, diagnosticado com transtorno do espectro autista.

A agressão ocorreu no dia 18 de maio, quando Tiago foi até o local para tratar novamente da questão do barulho. Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que ele é atingido por uma sequência de socos desferidos por um guarda municipal que participava do culto e estava fora de serviço.

Vídeo mostra sequência de agressões

As imagens registram o morador sendo atingido diversas vezes. Pessoas que estavam na igreja precisaram intervir para conter o agressor, que posteriormente foi levado para o interior do templo.

Tiago relatou que inicialmente acreditava ter recebido apenas um golpe. Ao assistir às gravações, porém, percebeu que as agressões continuaram mesmo depois de ele já estar caído.

Segundo seu relato, ele recebeu quatro socos, incluindo golpes desferidos quando já se encontrava desacordado. O episódio resultou em ferimentos que exigiram atendimento médico e seis pontos na boca.

Após a ocorrência, uma equipe da Guarda Municipal foi acionada e conduziu os envolvidos e testemunhas à delegacia para prestar depoimento.

Histórico de denúncias levou Ministério Público à Justiça

O episódio de violência ocorre em meio a uma disputa antiga envolvendo reclamações sobre poluição sonora.

Em 2024, denúncias apresentadas por Tiago deram origem a um processo que tramita na 1ª Vara Criminal da Comarca de Balneário Camboriú. No ano seguinte, o Ministério Público de Santa Catarina apresentou denúncia contra a instituição religiosa.

Na ocasião, o Judiciário reconheceu indícios suficientes para a continuidade da ação e determinou medidas cautelares, incluindo a realização de isolamento acústico no imóvel. A decisão previa multa e até mesmo a suspensão das atividades da igreja em caso de descumprimento.

Posteriormente, segundo o Ministério Público, a instituição promoveu adequações estruturais para reduzir a emissão de ruídos. Uma nova perícia realizada pela Polícia Científica concluiu que os níveis de som passaram a ficar abaixo dos limites estabelecidos pela legislação.

O processo segue em andamento e aguarda a citação formal dos envolvidos.

Medição da prefeitura apontou ruído elevado na região

Além da atuação do Ministério Público, as reclamações também motivaram uma vistoria da Secretaria Municipal do Meio Ambiente em abril deste ano.

Segundo a prefeitura, uma medição realizada na rua já identificou níveis de ruído acima do permitido antes mesmo do início do culto religioso. Durante a celebração, os equipamentos registraram média de 60 decibéis.

De acordo com o município, a diferença entre o som ambiente já existente e o ruído gerado pelo culto foi considerada pequena.

O resultado reforça um aspecto recorrente em disputas desse tipo nas grandes cidades brasileiras: a dificuldade de separar a contribuição específica de uma única atividade em áreas urbanas já marcadas por intensa poluição sonora.

Guarda é afastado das ruas

A Guarda Municipal informou que instaurou procedimento administrativo para apurar a conduta do servidor envolvido nas agressões.

Enquanto as investigações avançam, o agente foi retirado das atividades de patrulhamento e permanece exercendo funções administrativas.

Já a Polícia Civil informou apenas que o caso foi distribuído para uma delegacia de Balneário Camboriú responsável pela apuração.

Em nota, a igreja repudiou a agressão cometida pelo guarda municipal e afirmou que todas as exigências determinadas pela Justiça em relação ao isolamento acústico foram cumpridas.

O caso reacende um debate cada vez mais frequente em áreas urbanas brasileiras: até onde vai a liberdade de culto e onde começa o direito dos moradores ao sossego, à saúde e à qualidade de vida. A legislação brasileira protege ambos os direitos, mas conflitos como o de Balneário Camboriú mostram que encontrar equilíbrio entre eles nem sempre é uma tarefa simples.

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