Três vezes: uma coincidência improvável
Três tentativas de atentado em menos de dois anos. Entre falhas de segurança e respostas políticas, o padrão se repete e levanta uma dúvida incômoda: ainda é coincidência ou já é outra coisa?

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Washington Hilton, 25 de abril de 2026. Um homem de 31 anos desce a escadaria do hotel com uma bolsa. Dentro dela: uma escopeta, uma pistola, facas. O sujeito atravessa o corredor, força o perímetro de segurança, troca tiros com agentes do Serviço Secreto. Um agente é atingido; o colete absorve a bala. O atirador é detido. Donald Trump, Melania, JD Vance e demais secretários de gabinete já haviam sido retirados às pressas do salão de jantar onde cerca de 2.300 convidados estavam reunidos.
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Julho de 2024, Butler na Pensilvânia: uma bala raspa a orelha de Trump durante um comício ao ar livre. Setembro de 2024, campo de golfe na Flórida: um atirador é detido antes de disparar. Abril de 2026, Washington Hilton: um homem com arsenal atravessa o perímetro e é barrado a metros do salão. Três episódios. Três fracassos, do atirador ou do atentado, conforme o ângulo que se escolhe.
A pergunta mais incômoda não me parece ser quem atirou. Mas o que significa, exatamente, que isso continue acontecendo?
Nos dois primeiros casos, o Serviço Secreto foi objeto de investigação, reforma institucional, auditorias. Em Butler, a falha foi constrangedora e documentada, o atirador ficou a menos de 200 metros sem ser detectado. No campo de golfe, o perímetro de segurança foi rompido antes de qualquer disparo. Agora, um hóspede registrado no hotel, com check-in na véspera, desce a própria escadaria do estabelecimento com um arsenal e só é contido a metros do presidente. A cada vez, o sistema aprende. E alguém encontra uma nova fresta.
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Me parece que essa estranha regularidade merece ser nomeada com cuidado, por ora descarto tanto a conspiração quanto o acaso, optando por entender o fenômeno como problema estrutural de outra natureza. Quando Reagan levou um tiro em 1981 (no mesmo Washington Hilton) chamou-se de falha de segurança, abriu-se inquérito, reformou-se o protocolo de segurança. Quando Kennedy morreu, chamou-se de tragédia nacional e trauma civilizatório. O que se chama quando o presidente escapa três vezes, e o sistema é reformado três vezes, e uma quarta fresta aparece? Cole Tomas Allen, engenheiro pelo Caltech, mestre em ciência da computação, professor de reforço escolar, desenvolvedor de jogos. Antes de descer a escadaria, enviou um manifesto à família. Assinava-se “The Friendly Federal Assassin“. Escreveu que sentia raiva da administração. Pediu perdão. Chegou de trem da Califórnia, fez o check-in na véspera, e esperou.Não é um perfil opaco. É quase o oposto: tem trajetória, rastro digital, manifesto entregue a familiares minutos antes do ataque. A irmã de Cole confirmou às autoridades que ele havia se radicalizado nos últimos meses, que falava muito em violência política. Tudo isso existia, e ainda assim ele chegou até a escadaria.
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Arrisco dizer que há duas perguntas que o episódio deixa em aberto e que mais segurança técnica não responde.
A primeira é sobre a cadência. Três tentativas em menos de dois anos, contra o presidente com o aparato de proteção mais caro e sofisticado do mundo. Isso foge ao padrão histórico recente. Há presidentes estadunidenses que governaram oito anos sem um único episódio desse tipo. Existe algo no momento político dos EUA que está produzindo essa frequência, e esse algo não se nomeia confortavelmente nem como “violência de esquerda” nem como “falha de segurança”. É mais amplo. É mais difuso. É muito mais perturbador.
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A segunda é sobre a resposta imediata de Trump. Na coletiva noturna, perguntado sobre as sucessivas tentativas contra sua vida, disse: “quando você é impactante, eles vão atrás de você”. Citou Lincoln. Disse que se sentia, constrangido, honrado. E logo avançou para o argumento que já estava em disputa judicial: a necessidade do salão de baile de 400 milhões de dólares que está sendo construído no terreno da Ala Leste da Casa Branca. “Este evento nunca teria acontecido com o salão militarmente top secret em construção na Casa Branca”, postou ele no domingo de manhã. Convenhamos: é uma reação política, imediata, instrumentalizada, à la Trump, o que não significa necessariamente que seja calculada, e muito menos que o episódio seja fabricado. A cética suspensão de juízo ajuda, aqui. Pode simplesmente significar que Trump é Trump: que ele processa qualquer evento, inclusive a própria quase-morte, como material a ser mobilizado, inclusive em postagem.
O que me parece mais difícil de nomear não é a intenção de Allen, nem a eficiência do Serviço Secreto, nem o oportunismo de Trump. É o padrão que vai se instalando e se normalizando silenciosamente: a violência política que não se consuma, o sistema que falha e se reforma e falha de novo, o presidente que sai ileso e sai fortalecido, a pergunta sobre segurança que vira argumento de obra.Três vezes. E em nenhuma delas o país parou de verdade para perguntar o que, exatamente, está produzindo essa sequência.
Talvez porque isso já tenha passado do ponto de exceção.
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*Lucio Massafferri Salles é filósofo, psicólogo e psicanalista, jornalista, professor do Departamento de Psicologia da UCAM e professor de Filosofia, com atuação em Educação Especial, na rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro. Doutor e mestre em Filosofia pela UFRJ, especialista em Psicanálise pela USU, realizou pós-doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. Autor de Raízes Sofísticas: a palavra como fármaco e A arquitetura do caos: guerras híbridas, operações psicológicas e manipulação digital. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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