Eleições 2026: O Tabuleiro em Movimento
Num palco em Dallas, um candidato à presidência do Brasil pediu pressão diplomática estrangeira sobre as eleições do próprio país. O tabuleiro de 2026 já está em movimento. E parte da disputa acontece num terreno que o campo progressista ainda não aprendeu a disputar

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
No sábado 28 de março de 2026, numa conferência em Dallas, Texas, o senador Flávio Bolsonaro subiu ao palco da CPAC, o maior evento da extrema-direita americana, e fez um pedido incomum. Dirigindo-se diretamente ao público americano, disse: “Monitorem a liberdade de expressão do nosso povo. E apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente.” No mesmo discurso, “ofereceu” as reservas brasileiras de terras raras como contrapartida estratégica para os Estados Unidos na disputa com a China. Num evento estrangeiro, um candidato à presidência do Brasil pedindo interferência externa nas eleições do próprio país, e oferecendo o subsolo nacional como moeda de troca.
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Há algo bastante revelador nesse gesto. Um candidato à presidência do Brasil não busca legitimidade nas ruas de São Paulo, nos sindicatos do ABC, nas favelas do Rio, nas cidades do interior nordestino. Busca-a em Dallas. Fala inglês para uma plateia sobre o que o Brasil precisa. Pede a potências externas que monitorem, pressionem e enquadrem a democracia brasileira. E oferece, como contrapartida, o subsolo com riquezas do país. Não se trata de alinhamento ideológico, isso qualquer político pode ter. Trata-se de outra coisa, mais grave: a incapacidade de construir poder a partir do Brasil, para o Brasil. Quando um presidenciável precisa ir ao exterior buscar a consagração que não consegue em casa, algo no seu projeto político está rachado por dentro. A dependência simbólica revela uma fragilidade real.
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Esse gesto não é isolado. Ele se encaixa numa moldura que o precede e o explica. Em dezembro de 2025, o governo Trump publicou sua Estratégia de Segurança Nacional relançando, com outro nome, a velha Doutrina Monroe: a América Latina como espaço de influência exclusiva de Washington. Em janeiro de 2026, forças americanas capturaram Maduro em Caracas e o levaram preso para Nova York. Trump declarou que os EUA administrariam o país. Caracas rejeitou a afirmação. A mensagem para o continente foi clara: os Estados Unidos voltaram a tratar o hemisfério como quintal, e estão dispostos a agir.
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Nesse contexto, um presidenciável brasileiro que sobe ao palco da CPAC para pedir pressão diplomática estrangeira sobre as eleições do próprio país não é apenas um político fazendo campanha no exterior. É um sinal de disponibilidade num tabuleiro já em movimento.
O Brasil está no mapa. E Flávio Bolsonaro, em Dallas, estava sinalizando onde quer se posicionar nele.
Mas a disputa de 2026 não começa no dia da votação. Ela já começou.
E parte dela acontece num terreno que o campo progressista brasileiro ainda não aprendeu a disputar com a mesma eficiência. A regulação das plataformas digitais travou no Congresso e no Judiciário. O Brasil chega ao pleito sem critérios definidos para o controle de conteúdo. WhatsApp, Instagram, Facebook, X: todas respondem também a interesses de poderosos empresários com aspirações políticas. Elon Musk, dono do X, chamou a inelegibilidade de Bolsonaro de “tirania” e disse que Janja “perderia a eleição.”
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Em abril de 2026, o governo Trump incluiu o PIX num relatório oficial como prática comercial desleal. A reação de Flávio Bolsonaro foi reveladora: em vez de defender o sistema usado por mais de 150 milhões de brasileiros, direcionou o argumento contra o PT. A interferência não é só geopolítica. Ela já chegou ao celular de cada brasileiro. E é nesse terreno que ela opera com mais eficácia.
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O microtargeting, o deepfake, a desinformação em rede são instrumentos que a extrema-direita domina com mais desenvoltura. Não porque seja mais inteligente. Porque chegou primeiro e treinou mais. Aqui há um problema que vai além da técnica. A psicologia, a ciência que estuda como o medo e o desejo movem pessoas antes que a razão entre em cena, ainda é tratada como disciplina secundária no debate político progressista. Continua-se falando de teoria política, de conceitos, de geopolítica, como se o argumento racional fosse suficiente. Não é. As plataformas não convencem: condicionam. E condicionam antes que o pensamento crítico entre em cena. Há uma fragilidade constitutiva no campo progressista que chega a 2026 sem ter sido resolvida. O campo progressista chega a este pleito com Lula como centro gravitacional insubstituível e sem ter construído, ao seu redor, lideranças de fôlego capazes de sustentar o projeto para além dele. Não é crítica ao presidente. É constatação de uma lacuna de formação política. Lula construiu seu poder nas ruas, nos sindicatos, no chão das fábricas, na palavra que chega antes da teoria. O campo que ele representa ainda não produziu, à sua altura, alguém com esse mesmo acesso à alma popular. Há algo mais fundo do que a ausência de nomes. No pensamento progressista brasileiro há uma tendência a tratar a disputa política como primordialmente racional e o psicológico como secundário. É uma hierarquia de saberes que custa caro quando o adversário opera exatamente onde a razão não chega. As plataformas digitais não disputam argumentos. Disputam medos, desejos, identidades. E quem não entende isso chega ao debate armado de conceitos, quando deveria chegar com duas armas distintas que se tocam: a linguagem que alcança, e a capacidade de dar sentido ao caos antes que a desinformação o faça.
José Genoíno tem razão quando insiste na importância de conquistar verdadeiramente corações e mentes.
Não como fórmula, mas como presença. Como escuta. Como a palavra que caminha na rua antes de subir ao palanque. Num tempo em que a polarização afetiva aparta as pessoas umas das outras e as câmaras de eco aprofundam o isolamento, conquistar corações e mentes exige sair da própria bolha, ir ao encontro de quem pensa diferente, falar uma língua que o outro reconheça. No campo progressista, isso ainda está por se realizar efetivamente.
2026 não será apenas uma eleição. Será um teste sobre o que o Brasil quer ser num continente que parece cada vez menos escolher seus próprios termos. De um lado, um projeto que busca legitimidade fora do país e oferece o país como peça de reposicionamento estratégico alheio. Do outro, um campo que precisa fortalecer sua capacidade de chegar a quem ainda não o ouve.
A pergunta que fica não é quem vai ganhar.
É se o campo que defende a soberania brasileira será capaz de defendê-la também nas ruas, nas redes, nas conversas que acontecem longe dos palanques e das conferências internacionais.
Numa eleição que já começou fora do Brasil, vencer dentro dele vai exigir exatamente o que ainda falta: a palavra que conhece o chão antes de pedir o poder.
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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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