Fim do futebol. Começo do futebet?
Quando o campeonato leva o nome de uma casa de apostas, a publicidade se confunde com o próprio jogo, enquanto o futebol lhe empresta a sua credibilidade.

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
No mundo da bola, há um detalhe que mostra o tamanho do que o futebol brasileiro deixou acontecer. É um problema. E ele vai muito além de uma casa de apostas patrocinar um campeonato. Os campeonatos passaram a carregar o nome delas.
A partir de 2023-2024, em acordo, foram “oficialmente batizados” os dois maiores torneios nacionais com nomes de casas de aposta, Brasileirão Betano e Copa Betano do Brasil (é essa a substância da coisa). Fica claro que isso deixa de ser publicidade ao lado de um produto para ser o próprio produto levando, no nome, a assinatura de quem lucra em cima da aposta. Patrocínio sempre existiu no esporte. Bancos, montadoras, cervejarias, empresas de telefonia, todo mundo já colocou dinheiro no futebol. Mas tem uma diferença grande entre uma marca aparecer ao lado do jogo e uma marca se misturar com ele até virar praticamente a mesma coisa.
Quando o nome do torneio vira Brasileirão + nome da casa de aposta, a aposta para de ser uma atividade de fora do esporte e passa a fazer parte da própria identidade comercial da competição. O torcedor ouve isso dezenas de vezes por ano, em toda transmissão, em toda manchete, em lives, até essa fusão entrar de vez na mente dele, sem ele se dar conta. Essa fusão tem um efeito prático que incomoda. Quanto mais o orçamento dos clubes depende desse dinheiro, mais difícil fica discutir abertamente os problemas que isso traz junto. A coisa ficou escancarada há pouco, quando clubes e federações reagiram à possibilidade de uma Medida Provisória restringir os jogos de cassino on-line, o que poderia derrubar as receitas das empresas de apostas que sustentam boa parte do futebol hoje. Um manifesto chegou a falar em risco de “fim do futebol brasileiro“, o que seria uma espécie de falecimento pós-morte, se considerarmos que, tendo as Copas de seleções como parâmetro, o futebol brasileiro já “bateu as chuteiras” faz tempo. É importante destacar que a reação mais interessante nem veio de fora, veio de dentro. Grupos e coletivos de torcedores de vários clubes discordaram na cara dos dirigentes. “O meu clube não é bet, o meu clube é povo“, escreveram dois desses coletivos.
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Quando parte das torcidas se põe a pensar e enxerga o problema de um jeito tão diferente das diretorias, é sinal de que alguma coisa nessa relação já se quebrou. E, saibam, o smartphone deixou essa dependência ainda mais forte. A casa de apostas não tem mais um endereço fixo, ela mora no bolso do torcedor durante os noventa minutos inteiros, esteja ele no estádio, no bar ou diante da TV em casa. No mesmo aparelho a pessoa assiste ao jogo, recebe a propaganda, deposita dinheiro e aposta, tudo ao mesmo tempo, podendo perder e tentar de novo antes mesmo de a bola voltar a rolar. A Organização Mundial da Saúde já trata essa mistura, celular sempre à mão, acesso o tempo todo, e apostas grudadas no esporte, como parte de uma normalização rápida das apostas e do crescimento dos seus danos. Os números confirmam a gravidade da coisa: segundo estudo baseado em dados do Banco Central, as famílias brasileiras perderam sessenta e dois bilhões e meio de reais em apostas somente em 2025.
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Tem também um risco mais silencioso, o da integridade do próprio jogo. Apostar não significa manipular, mas quanto maior o mercado, maior o incentivo para tentar.
Em 2023, o Ministério Público de Goiás denunciou dezesseis pessoas por fraudes envolvendo treze partidas, oito da Série A de 2022, uma da Série B do mesmo ano e quatro de campeonatos estaduais de 2023. Isso é um histórico documentado, com processo correndo, e não uma hipótese ou estimativa. A desconfiança já contaminou o torcedor comum. Uma pesquisa recente do instituto Ipsos-Ipec mostra que cinquenta e oito por cento dos brasileiros acreditam que as bets aumentam muito o risco de jogos combinados. Um esporte que depende fundamentalmente da crença do torcedor na própria verdade do resultado não aguenta bem esse tipo de suspeita generalizada. Ou aguenta?
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Existe um caminho possível, e ele já foi testado fora daqui. A partir da temporada 2026 e 2027, a Premier League decidiu tirar os patrocínios de casas de apostas da frente das camisas, deixando essas empresas seguirem presentes em outros espaços. Foi um recuo pontual, não uma ruptura total, mas já mostra que dá para reduzir a exposição sem quebrar tudo. É como reduzir bem o estímulo visual e a hierarquia daquilo que esse tipo de linguagem pode produzir via condicionamento. Segundo apuração recente, a própria CBF estuda limitar o número de casas de apostas entre os patrocinadores da Copa do Brasil, deixando apenas uma empresa por segmento comercial. É um primeiro sinal de que até quem lucra com esse modelo já percebe que ele passou do ponto.
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O que falta ao futebol brasileiro não é dinheiro alternativo. É coragem para admitir que a dependência criada nos últimos anos parou de ser parceria e virou dependência mesmo, sem meio-termo, pura, nociva. O sinal mais claro disso já está na frente de qualquer torcedor. Não basta mais uma bet patrocinar o campeonato. O campeonato passou a carregar o nome dela.
E aí fica a pergunta: o “futebol brasileiro está em vias de acabar” porque passou a depender de receber dinheiro dessa indústria, ou porque já emprestou a ela algo bem mais valioso, que é a sua história, a sua credibilidade, o seu significado cultural e a confiança de milhões de torcedores?
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*Lucio Massafferri Salles é Jornalista, Psicólogo, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal FluPress (YouTube).
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