Redação Pragmatismo
Eleições 2018 10/Oct/2018 às 23:29 COMENTÁRIOS

7 dicas para vencer Jair Bolsonaro no 2º turno

Tutorial com 7 aspectos que precisam ser considerados para derrotar Jair Bolsonaro no 2º turno da eleição presidencial

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Renato Souza, Jornal GGN

Votei no Ciro Gomes no Primeiro Turno, e perdi aquela batalha. Mas a guerra ainda transcorre, e não tenho dúvidas sobre de que lado da trincheira estou agora. Não há mais tempo para divisões, lamentos ou responsabilizações, só para ir à luta.

Embora as condições de vitória do campo progressista não sejam favoráveis, penso que a campanha do Segundo Turno será mais fácil que a do Primeiro, e muito, muito mais breve. Então, não há tempo para errar ou perder.

É uma campanha mais objetiva e franca, sem as nuances estratégicas e receios de um primeiro turno como o que tivemos, com progressistas se fragmentando e disputando entre si, e a direita se aglutinando em torno de um só candidato. O Primeiro Turno foi um jogo de xadrez, o Segundo está mais para um cabo de guerra, e este qualquer um pode jogar.

Bolsonaro vai voltar a se expor, perdendo a imunidade que ganhou por conta da facada, vai ter que enfrentar debates, falar de propostas, cotejar suas fraquezas e não só fazer fanfarrices como de costume. E já sabemos que a exposição na mídia do Bolsonaro Real é ruim para o Bolsonaro “mito”. Ao mesmo tempo, a campanha do Haddad vai poder focalizar seus esforços e simplificar o discurso. E a militância, agora de vários partidos e candidatos, poderá finalmente sair do Facebook e “ir para a rua”, fazendo um boca a boca direto com os eleitores.

Assim eu espero e assim acredito.

Mas acho que isso tudo só vai dar resultado se o discurso for unificado, e se fizermos os movimentos certos. Por isso, com base na minha leitura desta eleição, fiz este pequeno tutorial para virar a eleição para o campo progressista e eleger Haddad e Manuela no Segundo Turno.

(1) ASSUMINDO QUE “HADDAD E MANUELA” REPRESENTAM, AGORA, UMA AMPLA FRENTE PROGRESSISTA

Em primeiro lugar, eleitores e militantes de outros candidatos do campo progressista, como eu mesmo, precisam tomar consciência de que agora só há dois candidatos de dois campos absolutamente opostos, e negar o voto e apoio para quem está em segundo lugar e precisa reverter a tendência, é o mesmo que votar em quem está na frente, quase eleito. Não há muro possível, esta não é uma eleição entre dois candidatos equivalentes em que você pode se dar ao luxo de ficar indiferente em relação a eles.

Acredito que eleitores de Ciro, Marina, Boulos e até mesmo Alkmin reconheçam que as distâncias que guardam dos dois candidatos é muito distinta, e mesmo com as críticas que têm ao PT e aos petistas, ponderem que seu “antipetismo”, muitas vezes fruto de uma sofisticada crítica política, é absolutamente distinto do antipetismo bolsonarista, que é tosco e em boa medida baseado em delírios direitistas, como o medo do comunismo ou da venezualização do Brasil.

É fundamental aglutinar as forças progressistas não só no voto mas na militância, e isto depende da posição dos candidatos, mas também de um trabalho de convencimento feito aqui na base.

E é importante o PT tomar consciência disso também, de que não representa mais somente a si e seu projeto, pois isto exige uma mudança de postura da sua candidatura para viabilizar uma ampla adesão que possa levar à vitória.

E para nós aqui da base, é importante sinalizar a nova opção para os seguidores nas redes sociais e interlocutores diretos, por isso, nos perfis de Facebook, por exemplo, cabe colocar o “fui de Ciro, agora sou Haddad”, “Fui de Marina, agora sou Haddad”, e assim por diante.

(2) SEPARANDO A AGENDA “LULA LIVRE” DA AGENDA ELEITORAL.

Embora tardiamente, o PT deve separar a agenda “Lula Livre” da agenda eleitoral. Para os petistas e também para muitos não petistas, a agenda Lula Livre continuará viva, denunciando o Golpe e a perseguição política ao ex Presidente, mas não deve mais se confundir ou misturar com a agenda da eleição. Por muito tempo o PT considerou que só elegendo o seu candidato poderia enterrar simbolicamente o Golpe, por isso insistiu numa candidatura própria mesmo com o antipetismo crescendo durante a campanha e impulsionando a candidatura de Bolsonaro. Isto garantiu boa parte dos atritos com outras candidaturas progressistas no Primeiro Turno, como com Ciro Gomes, embora tenha garantido também que o PT passasse para o Segundo Turno. Mas isto não ganha eleição, aliás, está longe de ganhar.

A luta agora é outra, muito mais ampla e com outros parâmetros e critérios de adesão; para Haddad ganhar a eleição terá que contar com votos de não petistas, e mesmo de muitos que não consideram que o Impeachment foi um Golpe ou que Lula seja um preso político inocente.

Ao mesmo tempo, Haddad e Manuela já levaram os votos históricos de PT e PCdoB e mais alguns transferidos pelo Lula, mas esta transferência de votos aparentemente se esgotou. Então, não cabe mais o “Haddad representa o Lula na eleição”, ou “Haddad é Lula”, ou “Eleição sem Lula é Golpe”.

Haddad e Manuela agora representam uma ampla frente progressista, e vão ter que encampar a campanha demostrando autonomia e atitude próprias. Neste momento, tentar torná-los representantes de um líder que está preso, além de acirrar o antipetismo contra eles, coloca em cheque a possibilidade dos dois liderarem uma ampla frente progressista que deve necessariamente se formar, e de capturar todo o variado espectro de votos que precisam para se eleger no Segundo Turno.

(3) DESDOBRANDO E DESFAZENDO-SE DE ESTEREÓTIPOS

Uma das derrotas do petismo no Primeiro Turno foi aceitar bovinamente todos os rótulos que lhe foram impingidos pela Direita, de que o PT é comunista, que vai transformar o Brasil numa Venezuela, que é o partido mais corrupto do Brasil, que afundou economicamente o Brasil, etc. Assim, o PT foi transformado num partido repulsivo, e embora tenha chegado ao segundo com expressiva votação, seu adversário fez 46% dos votos surfando sobre este estereótipo.

Em parte, este conformismo se deu por receios petistas de ferir suscetibilidades, por exemplo, caso declarasse não se alinhar com o regime de Maduro da Venezuela. Assim, ele aceitou o discurso de que se Haddad ganhar o Brasil vai virar uma Venezuela, assustando uma classe média já assustada e sem memória. Porém, o mais provável de acontecer, como disse o professor Pedro Serrano, é que se o Bolsonaro ganhar o Brasil vire uma Venezuela de Direita. É isto que precisa ser dito, Bolsonaro está muito mais próximo do regime de Maduro que Haddad.

Então, é preciso afirmar peremptoriamente que o PT não vai transformar o Brasil numa Venezuela ou numa república comunista, e é fácil comprovar: o PT teve 13 anos para fazer isto e não fez. Ao contrário do Bolsonaro, que só tem seus pronunciamentos para dizer que não vai cortar o 13º salário, o Haddad tem 13 anos de governos anteriores para provar que o seu projeto não é comunista, nem venezuelista, nem autoritário. Pelo contrário, nunca houve tanta liberdade de expressão como na era Lula e Dilma, tanta autonomia das instituições, tanta separação entre os três poderes da república, além de desenvolvimento e paz. Nada, absolutamente nada que se compare ao que acontece na Venezuela atualmente.

Ao mesmo tempo, há dados para provar que o Brasil na Era PT era economicamente saudável mesmo sob a crise de 2008, e que a situação se agravou muito após o Impeachment. E que os indicadores de corrupção existentes colocam muitos outros partidos à frente do PT, inclusive o ex partido de Bolsonaro. Isto é o que precisa ser dito.

De outro lado, Bolsonaro não é só Fascista, seu projeto neoliberal representa muito mais continuísmo que o do PT, e isto tem que ser mostrado. Como alguém que passou quase 30 anos no partido do Maluf pode reivindicar para si a mudança ou um projeto anticorrupção? Como alguém que votou a favor de quase todas as propostas do Temer pode representar a mudança? Como alguém que está no partido com maior fidelidade ao Governo Temer pode representar mudança? E como uma candidatura neoliberal, de cassação de direitos trabalhistas, de privatização, de desprevidencialização, etc. pode favorecer os trabalhadores e as pessoas mais pobres?

Isto é que tem que ser mostrado para boa parte dos eleitores, não apenas que ele é um candidato Fascista.

Então, a primeira tarefa a fazer é denunciar a continuidade do projeto neoliberal do Temer que o Bolsonaro representa, e os danos que isto trará à classe trabalhadora, à classe média, aos mais pobres, etc. Mostrar o lado neoliberal que o seu estereótipo de mito da mudança e do Fascismo tentaram esconder.

(4) DEIXANDO DE TRATAR A CANDIDATURA DE BOLSONARO COMO ALGO EXCEPCIONAL.

O “Agora somos todos contra o Fascismo!” não tem dado muito certo. Dar este caráter de excepcionalidade a esta eleição por causa da figura do Bolsonaro, de suas declarações torpes e suas inclinações fascistas, só tem turbinado seu eleitorado. Sua militância mais ferrenha é orgulhosamente Fascista e tão tacanha quanto ele, e é assim que ele consegue se apresentar como representante de uma mudança radical. Além do mais, para muitos o Fascismo se apresenta apenas como mais um regime de governo, um tanto mais radical que a democracia, mas que pode dar certo, já que a crise é grave e o atual não está funcionando.

Precisamos entender que, em tempos de crise, pessoas acuadas pelo medo clamam por mudanças radicais e estão dispostas a arriscar tudo por isso, que para muitos, no caso, é quase nada. Quem menos tem é também quem menos tem a perder, isto vale tanto para os bens materiais quanto para a democracia. Portanto, quem está desempregado ou vivendo de bicos pode arriscar tudo numa proposta de mudança radical. De outro lado, só tem medo do Fascismo quem tem apreço e desfruta da democracia. Mas temos que considerar que para muitos esse é um tema supérfluo, a democracia é só o ônus de ser obrigado a votar de dois em dois anos.

Então, a luta não pode se concentrar em Democracia contra o Fascismo, tem que ser Haddad contra Bolsonaro. E aí, mostrar o verdadeiro Haddad de um lado, e o Bolsonaro tosco, ignorante, que não sabe nada sobre os problemas brasileiros e que só se defende bem agredindo, do outro.

(5) DEIXANDO A LUTA CULTURAL DE LADO POR UM TEMPO

Há basicamente duas lutas sendo travadas no momento, uma de projeto econômico social (neoliberalismo x desenvolvimentismo/Estado de bem estar social), outra cultural, que envolve questões como gênero, aborto, moralidade pública e formas de combate à criminalidade x direitos humanos. É esta segunda que está no centro do processo eleitoral atual e da ascensão do Bolsonaro neste momento, tanto que ele tem calado o Paulo Guedes e o Mourão toda a vez que eles avançam o sinal na pauta econômica, e os candidatos que carregaram a pauta econômico social derreteram no primeiro turno. E é sobre esta pauta cultural que o antipetismo avança para ganhar no segundo turno.

Na minha avaliação, a Direita achou um “ovo de Colombo”: descobriu como ganhar uma eleição omitindo o projeto econômico neoliberal que representa, que foi o que determinou o fracasso do PSDB nas últimas eleições.

Sobrepuseram uma pauta cultural, moral, dos costumes, contrapolítica e contracivilizatória, que mobilizou pelos instintos ao invés da razão uma parcela desorientada e despolitizada da população, e isto produziu um efeito manada em direção ao Bolsonaro.

Se não entendermos isso, o segundo turno será um fracasso. É preciso deixar de lado, por um tempo, esta luta cultural (até porque este é um trabalho de longo prazo), que é a que ele gosta de travar e que faz a cabeça do seu eleitorado mais fiel, para fazer o debate que ele não quer e não gosta, o do plano de governo para a economia, saúde, educação, política externa, mercado de trabalho, mercado internacional, energia, etc.

(6) FOCALIZANDO NA CONQUISTA E REVERSÃO DE VOTOS NOS NICHOS CERTOS

Não há como ganhar a eleição apenas com a transferência de votos do campo progressista para o Haddad, é preciso também reverter votos do Bolsonaro e conquistar novos votos entre os nulos e brancos. Mas também é necessário reconhecer que certos votos são irreversíveis, e não vale a pena ficar acirrando os ânimos e perdendo a paz discutindo com bolsonaristas convictos.

Além disso, há votos no Bolsonaro que estão enraizados em posições concretas e conscientes, como o dos ruralistas e de boa parte do empresariado. A promessa de liberação de armas pesadas para que estes protejam suas propriedades e o aprofundamento da reforma trabalhista, com a desoneração da folha salarial e a fragilização do empregado na relação com o empregador, são elementos muito concretos que definem os votos nestes dois segmentos, e não vejo como mudá-los.

Mas também há uma grande parcela, sobretudo de trabalhadores e pessoas mais humildes que possivelmente seriam prejudicadas pelas políticas neoliberais do candidato, que foram induzidos a votar nele ou se omitiram por inocência, desconhecimento ou apatia em relação ao processo eleitoral. São votos plenamente reversíveis com alguma argumentação e fornecendo algumas informações sobre as políticas dos governos do PT e as promessas de política do Bolsonaro, sobretudo nas áreas da economia e do trabalho.

É com este público que devemos conversar, e focalizando no programa econômico do Bolsonaro e no risco que ele representa para os trabalhadores e os pobres do país, principalmente com aqueles que moram em áreas vulneráveis e que podem ser atingidos, também, por suas ideias violentas de combate à criminalidade mesmo que ao custo de vidas inocentes.

(7) LARGANDO UM POUCO AS REDES SOCIAIS E PARTINDO PARA O CONTATO DIRETO COM AS PESSOAS

As redes sociais estão contaminadas, lá é o território das fakenews atualmente. Além do mais, boa parte das pessoas mais simples que votam no Bolsonaro não estão nas redes sociais, nem na sua nem na de ninguém; e aqueles que estão nas suas redes em geral já estão convertidos a um dos candidatos. Portanto, focalizar a campanha nas redes sociais não irá trazer os votos necessários.

Isto não significa abandonar as redes sociais, mas incrementar o contato pessoal, o diálogo, com vizinhos, amigos, conhecidos, parentes, fazer incursões de campanha em áreas periféricas, ocupar espaços em grupos organizados, no local de trabalho, no bar, etc. Não é possível mais se esconder apenas na frente do computador, é preciso encarar as pessoas, num diálogo franco, respeitoso mas propositivo. Mas só fazer isto com quem valha a pena, com quem haja algum tipo de abertura ao diálogo.

Não é correto pensar que o Brasil tem 46% de pessoas fascistas, homofóbicas, violentas, racistas e neoliberais. Penso que os candidatos teriam aprendido muito se tivessem conversado e ouvido mais algumas pessoas que votaram no Bolsonaro, ouvido suas razões e argumentado respeitosamente com elas. Não os bolsonaristas convictos, mas a população mais simples que votou no candidato. Veríamos que muitos só estão desorientados, dispostos a arriscar tudo em algo que entendem ser diferente, e experimentar soluções novas para velhos problemas. Fazem isto, normalmente, com parcas informações, contaminados por fakenews e estereótipos falsos, e a partir de um sentimento de profunda frustração e indignação com o período em que vivemos.

Muitos deles são pessoas em busca de um norte, de uma fonte para depositarem suas esperanças; mas por um tempo preferimos chamá-los todos de fascistas e obstruir o diálogo com eles, até quase perdermos no Primeiro Turno. Mas não aconteceu, temos a oportunidade de um Segundo Turno, só precisamos abrir a mente, ajustar as velas, arrumar o discurso, corrigir o foco e tocar em frente.

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