Redação Pragmatismo
Eleições 2018 17/Oct/2018 às 15:09 COMENTÁRIOS

Uma comparação entre o “risco Lula” e o “risco Bolsonaro”

Em 2002, os grandes meios de comunicação do Brasil espalharam um verdadeiro terrorismo para o caso de vitória de Lula. Esse movimento foi chamado genericamente de “risco Lula”. Na eleição de 2018, pouco se falou na imprensa e nos ambientes dos endinheirados a respeito do “risco Bolsonaro”

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Paulo Kliass*, Vermelho

Durante boa parte de 2002, os grandes meios de comunicação de nosso País publicaram matérias, pesquisas e boatos espalhando um verdadeiro terrorismo na sociedade. Era a catástrofe anunciada que estaria embutida na eventual vitória de Lula nas eleições de outubro daquele ano. Esse movimento foi chamado genericamente de “risco Lula”. Na verdade, ele compunha de maneira ardilosa com outro grande mito criado pela “intelligentsia” vinculada ao financismo.

Ele procurava sintetizar o conjunto das dificuldades para que o crescimento da economia fosse alcançado por nossas terras: o tal do “custo Brasil”. À medida em que até aquele momento a nossa dependência com relação aos recursos externos era muito elevada, a lógica de comportamento do investidor/especulador estrangeiro era apresentada como o “risco Brasil”.

Esse foi o conjunto de variáveis que estimularam a propagação da chantagem implícita na campanha contra a candidatura de Lula há 16 anos atrás. O Brasil iria quebrar. A economia iria para o fundo do poço. O capital estrangeiro sairia para nunca mais voltar. A inflação explodiria. E o maior exemplo disso era a cotação da taxa de câmbio no mercado financeiro, onde os poucos mastodontes operadores manipulavam a cotação do dólar de forma irreal e meramente especulativa. As imagens assustadoras iam desde a fala de artistas como Regina Duarte e seu medo, até ameaças explícitas de agentes do mercado financeiro para uma suposta revoada de capital caso José Serra não vencesse as eleições.

Pois a realidade que se seguiu à década posterior a 2003 foi exatamente a oposta.

No pleito atual, a situação é bem distinta. A estratégia de marketing da campanha de Jair Bolsonaro é a tentativa de se apropriar do sentimento generalizado de uma espécie de multi-descontentamento da maioria da população e canalizar essa energia a favor do capitão-deputado.

O arco de abrangência é amplo e inclui as pessoas que são contra tudo o que está aí, as pessoas que são contra os políticos em geral, as pessoas que têm críticas aos governos do PT, as pessoas que são a favor da Operação Lava Jato. Além disso, incorpora as pessoas que aceitam passivamente as orientações dos líderes religiosos de suas comunidades fundamentalistas ou ainda as que concordam com as propostas de natureza autoritária, homofóbica, machista e hipocritamente moralista do candidato.

Ocorre que está sendo exitosa também uma operação de consolidação da alternativa bolsonarista no interior do próprio estrato superior do sistema financeiro. Não foram suficientes os alertas emanados de setores do financismo internacional, que sabem das reais ameaças que um eventual governo do vice-presidente General Mourão pode causar ao país e mesmo às nossas instituições públicas e econômicas. Os representantes tupiniquins desses interesses não conseguiram ainda superar as estreitezas de visão das elites e das classes dominantes brasileiras. Olham apenas para o próprio umbigo e pouco se preocupam com os eventuais danos de longo prazo provocados pelo aprofundamento do austericídio e do desmonte.

Com isso, pouco se falou nos meios de comunicação e nos ambientes dos endinheirados a respeito do “risco Bolsonaro”. Ao que parece, apenas agora mais recentemente, a poucos dias do segundo turno, alguns veículos e analistas começam a perceber a gravidade do ambiente geral em que o Brasil estará mergulhado caso ele vença as eleições. Para além das questões de políticas públicas conservadoras e do autoritarismo implícito em sua eventual forma de governar, existe um enorme risco para a definição de sua política econômica.

A delegação a Paulo Guedes da responsabilidade pela definição das diretrizes estratégicas da economia é uma loucura completa. O cenário lembra um pouco o ambiente de Collor recém-eleito em 1990 e o super empoderamento concedido a Zélia Cardoso de Mello, convertida em super ministra do comando econômico.

O economista preferido de Bolsonaro foi exercitar seu aprendizado dos ensinamentos da Universidade de Chicago com os seus colegas, os famosos “meninos de Milton Friedman”, na ditadura chilena que havia deposto Salvador Allende em 1973. Desde então, o protótipo do financista assumiu-se como um ortodoxo de raiz e promete não ceder em seu programa maximalista frente às eventuais dificuldades de natureza política.

Paulo Guedes é a favor da privatização completa das empresas estatais ainda restantes.

Paulo Guedes é a favor da manutenção da EC 95, que mantém o congelamento dos gastos sociais por longos vinte anos.

Paulo Guedes considera urgente “resolver” a questão fiscal na marra e sugere também a venda total dos ativos da União, inclusive imóveis, prédios e outros bens patrimoniais similares.

O General Mourão já externou mais de uma vez sua tentação em reduzir os custos de natureza trabalhista das empresas, como o já anunciado fim do 13º salário. Enfim, a preparação das maldades parece ser algo sério, uma vontade para valer.

Paulo Guedes articula, junto aos formuladores de programas econômicos dos candidatos de direita derrotados no primeiro turno, uma proposta de Reforma da Previdência tão ou mais perturbadora do que a enviada por Temer ao Congresso Nacional. O pacote seria apresentado como sendo de paternidade de seu candidato, caso Bolsonaro suba a rampa do Palácio do Planalto no início de janeiro. Paulo Guedes tenta costurar um programa drástico de cortes nas despesas orçamentárias, que passaria também por redução dos gastos com pessoal da União – os servidores públicos na ativa e os aposentados.

Ora frente a tal quadro de extrema gravidade, o risco Bolsonaro é evidente. Não existe possibilidade de converter esse conjunto de medidas em regras jurídicas em um ambiente que seja minimamente pautado pelo respeito às regras democráticas e pela obediência aos direitos básicos de cidadania. A tentação autoritária é mais do que evidente e as consequências para a deterioração do quadro de crise social são quase óbvias.

O momento é de um amplo chamamento à razão e à responsabilidade de todas as forças políticas e setores econômicos que estejam de fato preocupados com a superação da crise atual. Votar branco, nulo ou não comparecer às seções eleitorais em dia 28 é ser conivente com o desastre anunciado. O momento é de superar rancores ou divergências, apontando para a única alternativa que nos permita buscar caminhos ainda nos marcos da civilização.

O risco Bolsonaro responde por um nome: retorno à barbárie.

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*Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.

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