Redação Pragmatismo
Cultura 19/Feb/2018 às 14:45 COMENTÁRIOS

A Beija Flor e a manipulação

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Attilio Giuseppe*, Pragmatismo Político

O Carnaval de 2018 ficou para a História, devido a alguns desfiles críticos e suas repercussões nos mais variados meios. As reações evidenciaram algumas diferenças ideológicas, nas visões políticas expostas na Marquês de Sapucaí. A Beija-Flor, apesar de tecnicamente desfilar com perfeição, notou-se por um discurso extremamente superficial, clichê e até certo ponto, suspeito.

A escola iniciou seu desfile mostrando um staff de verde e amarelo, com a bandeira brasileira nas camisas. Um pouco depois surgiu uma ala com barris de Petróleo e caveiras estampadas nos mesmos, fazendo uma associação bastante infantil, visto que a corrupção encontra-se nos diversos setores econômicos e políticos, jamais restrita a um vilão solitário. Ainda exibiu empreiteiras associadas e um prédio da Petrobrás, que tomava a forma de uma favela.

Qualquer cidadão minimamente informado fez uma relação (até inconsciente) com os últimos governos acusados de “cabeças pensantes” dos esquemas presentes nestes setores. Era uma mini manifestação pró-impeachment disfarçada de crítica social. Importante ressaltar, que o prédio da Petrobrás se transformava e posteriormente exibia mulheres se bronzeando e pessoas tocando música, cenas costumeiras em uma comunidade (ou qualquer outro lugar), no entanto, com conotação terrível, visto que a estatal entrou em declínio.

Além de algumas cenas bem direcionadas foram expostas também, as velhas críticas vazias e hipócritas. Os políticos retratados como gananciosos, roedores dos cofres públicos e do Congresso Nacional. Foram mostrados colarinhos brancos e pizzas, como uma menção a esta classe. Nenhuma crítica aos empresários que financiam campanhas e manipulam o funcionamento do legislativo, através de suas pomposas propostas, foi exposta. A ambição pareceu restrita a um grupo social apenas.

No meio do desfile, uma ala denominada “impostos dos infernos” trazia pessoas carregando nas costas o peso de diversos tributos, como por exemplo: PIS, FGTS e INSS. A dúvida que paira no ar é: sobre quem estes “impostos” tanto pesam, visto que são convertidos em benefícios sociais para o trabalhador. Outro ponto raso a se observar é a “demonização” dos impostos, tão altos nos países da Europa Ocidental (lugar visto como o supra-sumo do bem viver), porém falados por aqui, como um grave problema que deve ser abolido. Para a audiência da telinha, o recado passado era muito claro, no sentido de defender a reforma trabalhista que extirpará todas estas “mazelas” para a economia do país.

Não acabou. Um enorme destaque dado à segurança pública foi marcante no desfile. Motes como: educação, saúde e segurança, o tripé do senso comum, obviamente esteve na avenida. Interessante entender, como viabilizar tantos investimentos nestes setores, se os impostos ocupam lugar de vilões em meio à administração pública. A própria ideia da Petrobrás em ruínas converge com o imaginário de privatizações em todos estes setores, para terem finalmente, administrações idôneas e eficientes, uma das maiores falácias do neoliberalismo.

Para encerrar o desfile, uma linda alegoria com corações pedindo tolerância e criticando o racismo, sendo que logo após arrastões eram realizados por bandidos, adivinhem de qual cor de pele? Se a origem do racismo não for explicada, como no caso da Beija-Flor, fica bastante fácil associar o negro à criminalidade, e assim, mais um desserviço para o combate ao racismo. Hipocrisia das mais baratas.

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Uma ala de esperanças surgia num final épico mostrando que o povo deve continuar “acreditando”, sabe-se lá no que, pois um dia, um belo dia, as coisas mudarão. Em nenhum momento a população foi retratada como agente ativa de transformações sociais, apenas como uma pobre vítima dos senhores de colarinho branco. Mais alienante impossível.

O verso do samba: “seus filhos já não aguentam mais” foi a melhor representação do papel do povo, nada ativo, nada responsável e muito sofrido. Como se o povo não votasse, nem tivesse obrigações quanto à fiscalização e participação nos meios políticos. Outros dois versos do hino de 2018 da escola campeã são sintomáticos: “a procura da luz, a salvação” e “meu canto é resistência”. O primeiro remete a espera por um Messias (aterrorizador) e o segundo demonstra a visão política de boa parcela da população, que se exime de qualquer responsabilidade, de qualquer ação transformadora, do próprio debate político, mas tem imensa capacidade em reclamar de tudo e todos. Nada mais apolítico, do que reclamar “disto tudo aí”.

A Beija-flor pode não ter feito um carnaval por encomenda ou pré-definido por uma força maior, mas ela prestou um grande desserviço a população, por endossar discursos superficiais, frases de efeito e, acima de tudo, falaciosos, provenientes de um senso comum desinformado, acrítico e desinteressado. Nada foi explicado ou analisado, apenas despejado na avenida em forma de fantasias, alegorias e adereços.

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*Attilio Giuseppe é historiador, professor e colaborou para Pragmatismo Político.

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