A privatização do inconsciente: como a IA transformou o desejo em arquitetura da indignação
O inconsciente sempre foi alvo. A Igreja, o Estado, a propaganda — todos operaram sobre ele. A diferença é que agora, pela primeira vez em escala individualizada e automatizada, esse território foi cercado, mapeado e posto a render.

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Há uma metáfora no título deste texto que precisa ser explicada antes de qualquer coisa.
Privatizar o inconsciente não é exatamente figura de linguagem. É descrição de um processo em curso, preciso, documentado e, em grande medida, irreversível nos termos em que opera hoje.
Na tradição que vai de Freud a Lacan, o inconsciente é o território do desejo que escapa ao controle consciente do sujeito. Não é apenas o que está escondido: é o que move sem ser visto, o que determina escolhas antes que a razão entre em cena. Esse território sempre foi alvo. A Igreja operou sobre ele durante séculos através do ritual, da culpa e da promessa de salvação.
O Estado moderno o mobilizou pela narrativa nacional, pelo mito do inimigo, pelo sacrifício coletivo. Edward Bernays sistematizou a exploração do inconsciente coletivo como profissão. A propaganda do século XX bombardeou esse território com símbolos, medos e desejos fabricados.
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Penso que a diferença não está na intenção — está na infraestrutura. O que existia antes era mais como uma manipulação artesanal: aproximativa, lenta, mediada por intermediários humanos, incapaz de alcançar o indivíduo com total precisão. O que existe agora é outra coisa. Pela primeira vez em escala individualizada e automatizada, os padrões de atenção, as propensões emocionais e os traços comportamentais do sujeito, aquilo que na prática orienta suas escolhas antes que a consciência delibere, são capturados pelo rastro digital, processados em escala industrial e devolvidos como produto contra ele mesmo.
Não se opera mais sobre o inconsciente coletivo com instrumentos aproximativos. Opera-se sobre o indivíduo concreto, a partir de inferências comportamentais em tempo real, com uma precisão e um alcance que a propaganda do século XX simplesmente não tinha.
Capitalismo e vigilância digital na sociedade democrática
Isso é o que aqui chamei de privatização do inconsciente — e que reduziu drasticamente o único território que ainda resistia ao cercamento. Em 1928, Edward Bernays publicou Propaganda e declarou que a manipulação consciente dos hábitos e opiniões das massas era um elemento legítimo da sociedade democrática.
Sobrinho de Freud, Bernays foi um dos primeiros a sistematizar que governar populações não exige força: exige acesso ao desejo. Sua operação mais célebre ilustra o mecanismo com clareza cirúrgica.
Contratado pela indústria do tabaco para ampliar o mercado feminino, associou o cigarro à emancipação das mulheres. Organizou uma marcha em Nova York. As participantes acenderam cigarros chamando-os de “tochas da liberdade”. A imprensa cobriu. O comportamento social mudou. Nenhuma lei foi aprovada, nenhuma ordem dada. O desejo foi reconfigurado por dentro. O que Bernays fazia era artesanal. Dependia de intuição, de pesquisa qualitativa, de intermediários: jornalistas, formadores de opinião, eventos públicos.
Tinha escala limitada e velocidade humana. A distância entre o que ele praticava e o que as plataformas digitais operam hoje não é de grau. É de natureza.
Shoshana Zuboff, em O Capitalismo de Vigilância, nomeou com precisão o que emergiu: um novo regime econômico que tem como matéria-prima não o trabalho, não os recursos naturais, mas a experiência humana.
Cada clique, cada pausa numa imagem, cada rota percorrida, cada pesquisa feita às três da manhã, tudo é capturado, processado e transformado em dado comportamental.
Esses dados não servem apenas para descrever o que o usuário fez. Servem para prever o que ele fará. E, mais do que prever, para intervir, calibrando o ambiente informacional de modo a inclinar o comportamento na direção desejada pelo anunciante, pelo partido, pela plataforma.
A era do capitalismo de vigilância
Zuboff chama esse poder de intervenção de means of behavioral modification, meios de modificação comportamental. A expressão é técnica e fria, o que a torna ainda mais perturbadora. Não estamos falando de persuasão, que pressupõe um interlocutor consciente que pode resistir. Estamos falando de arquitetura, de um ambiente construído para que determinadas respostas emerjam antes que o sujeito delibere.
É aqui que a metáfora da privatização encontra seu fundamento mais preciso. O inconsciente, esse território que Freud identificou como a sede do desejo, da pulsão, do que nos move sem que saibamos, foi cercado.
Não foi invadido pela força. Foi mapeado pela exposição voluntária. Postamos, reagimos, compartilhamos, e ao fazer isso entregamos os contornos do nosso mundo interno com uma generosidade que nenhum analista conseguiria extrair em anos de divã. As plataformas recebem esse material, processam-no em escala industrial e o devolvem como produto, não para o usuário, mas para quem paga para influenciá-lo.
Byung-Chul Han aprofundou a mutação política que esse processo produz: a psicopolítica.
O poder que age sobre o corpo, o poder disciplinar que Foucault mapeou, cedeu terreno ao poder que age sobre a psique.
Não proíbe, não reprime, não deixa marcas visíveis.
Seduz, engaja, motiva. E o faz explorando precisamente o que o sujeito acredita ser sua expressão mais livre: suas emoções, suas reações espontâneas, seus afetos, sua indignação.
A indignação merece aqui atenção especial. Das emoções que circulam nas redes sociais, ela é a mais rentável. É uma emoção moral que se liga à percepção de injustiça e que é capaz de mobilizar ações, como protestos, ataques, denúncias. Han chama de shitstorm, os ataques de indignação nas redes, promovidos por enxames digitais.
E isso, não por acidente: por design. Os algoritmos das grandes plataformas aprenderam, através de bilhões de interações, que a indignação gera engajamento superior a qualquer outra resposta emocional. Ela faz o usuário comentar, compartilhar, responder, permanecer. E tempo de permanência é o que se vende. A arquitetura da indignação não é um efeito colateral do modelo de negócio das plataformas. Tornou-se seu núcleo operacional.
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O resultado é uma inversão perversa. O desejo, que na tradição psicanalítica aponta para o objeto amado, para a falta que move em direção ao outro, foi frequentemente recodificado como hostilidade.
A polarização que fragmenta sociedades inteiras não emerge apenas espontaneamente de diferenças reais: ela é cultivada, amplificada e mantida porque é economicamente eficiente.
Divide-se o corpo social em tribos de indignação mútua, cada uma alimentada com o conteúdo que maximiza sua reação, e cobra-se de anunciantes e operadores políticos pelo acesso a esse estado de ativação permanente. Privatizar o inconsciente significa exatamente isso: transformar o território mais íntimo do sujeito, seus medos, seus ressentimentos, seus desejos mal articulados, em infraestrutura de extração de valor. O que Bernays fazia com intuição e escala limitada, a inteligência artificial faz com precisão cirúrgica e alcance planetário, em tempo real, sem intermediários humanos.
O que torna esse processo particularmente difícil de enfrentar é que ele opera no nível pré-reflexivo. Han é preciso nesse ponto: a psicopolítica digital age antes que o pensamento crítico entre em cena. Não convence, condiciona. Não argumenta, aciona gatilhos. E o faz com uma velocidade que a deliberação consciente não consegue acompanhar.
Não se trata de conspirações. O mecanismo não precisa de um centro coordenador, de uma vontade malévola que planeja cada passo.
Funciona por seleção: os conteúdos que geram mais engajamento são amplificados, os que geram menos desaparecem. O ódio vence o afeto. A certeza vence a dúvida. A indignação vence a reflexão. Não porque alguém assim decidiu, porque é o que o modelo de otimização produz quando seu único critério é a maximização do tempo de tela.
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O sujeito que navega nesse ambiente acredita estar exercendo sua liberdade. Escolhe o que lê, reage ao que sente, segue quem quer.
Han chamaria isso de autoexploração: a eficiência suprema de um poder que não precisa coagir porque fez o sujeito internalizar sua própria dominação. A jaula é invisível porque foi construída por dentro.
Nomear o mecanismo não o desativa.
Mas é condição necessária para qualquer forma de resistência que não seja meramente reativa, que não seja, ela mesma, mais uma emoção capturável pelo sistema que pretende questionar.
A privatização do inconsciente é o fato político central do nosso tempo. Enquanto os debates públicos se concentram em candidatos, partidos e políticas, a infraestrutura que determina como esses debates são percebidos, sentidos e processados pertence a um punhado de corporações cujo interesse não é a democracia, a verdade ou o bem comum.
É o engajamento. E engajamento, descobriram, se maximiza pela indignação.
Bernays abriu a porta. A inteligência artificial a escancarou.
O que está do outro lado não é apenas manipulação: é a colonização sistemática do único território que ainda acreditávamos ser nosso.
A questão já não é quem governa. É quem programa o ambiente no qual o governo é percebido.
Quando o desejo se torna infraestrutura, a liberdade deixa de ser escolha e passa a ser variável.
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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
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