Reviravolta: Menina Giovanna não morreu em “ritual de magia” e autor do crime é preso após 20 anos
Caso Giovanna é reaberto após 20 anos e expõe falhas, preconceitos e desvio de foco na investigação original. Prisão de antigo vizinho reacende debate sobre pânico moral, criminalização de minorias e erros que podem ter retardado a busca pela verdade

Por Ana Oliveira e Felipe Borges
Durante anos, parte do debate público brasileiro foi contaminado por uma narrativa recorrente: crimes brutais contra crianças atribuídos a “rituais” ou “seitas satânicas”. Em mais de um episódio, essa hipótese ganhou eco na imprensa e adesão de autoridades policiais, ainda que amparada por indícios frágeis. O tempo mostrou que, não raro, o discurso espetacularizado obscureceu o essencial: a investigação técnica e a responsabilização dos autores reais — muitas vezes homens socialmente integrados, protegidos pela aparência de normalidade.
A reabertura do assassinato de Giovanna dos Reis Costa, morta aos 9 anos em 2006, no Paraná, reacende esse debate.
“Não foi ritual, mas erro grave de investigação”, afirmou um dos advogados que acompanha o caso, após a decretação da prisão preventiva de Martônio Alves Batista, de 55 anos, nesta quinta-feira (19), em Londrina, no norte do estado.
O desaparecimento e o crime
Giovanna desapareceu em 10 de abril de 2006, enquanto vendia rifas escolares nas proximidades de sua casa, em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba. Dois dias depois, o corpo foi encontrado em um terreno baldio, envolto em sacos plásticos, amarrado com fios elétricos e com sinais de violência sexual.
As roupas da menina foram localizadas a cerca de 50 metros da residência da família. A perícia apontou que a morte ocorreu por asfixia mecânica, como esganadura ou sufocamento.
À época, a então delegada responsável declarou que tudo indicava que o crime havia ocorrido em uma das casas da região.
Indícios ignorados
Martônio, vizinho da vítima, chegou a ser considerado suspeito em 2006. Policiais estiveram em sua casa no dia do desaparecimento. No imóvel, encontraram um colchão com mancha de urina e orientaram que a perícia fosse aguardada. Quando retornaram, o colchão já não estava no local e a casa havia sido lavada com água sanitária.
O laudo apontou que a calcinha da vítima também estava impregnada de urina. No quintal da residência do suspeito, foi encontrado um fio de energia semelhante ao utilizado para amarrar o corpo da criança.
Apesar disso, Martônio foi ouvido e liberado.
O desvio da investigação
As roupas de Giovanna foram encontradas em frente à casa do suspeito, vizinha a uma residência onde funcionava uma casa de tarô, habitada por ciganos. A partir daí, a investigação passou a concentrar-se em três moradores do imóvel.
Documentos do inquérito reaberto indicam que, ao localizar objetos ligados à leitura de cartas, a hipótese de “ritual satânico” ou “magia negra” passou a ser considerada. Fotos dos acusados circularam na internet. A delegada responsável chegou a declarar publicamente que havia “fortes indicativos” de vínculo com algum tipo de ritual.
Os três homens foram presos, permaneceram detidos por seis anos e foram submetidos a júri popular em 2012. Tanto acusação quanto defesa reconheceram a ausência de provas. O Conselho de Sentença absolveu os réus. O caso foi arquivado.
A criminalização de uma família cigana, sustentada por uma narrativa de ritual, se insere em um histórico brasileiro de pânicos morais que, em determinados contextos, dialogam com preconceitos estruturais. A suposição de motivações “esotéricas” substituiu a análise material dos indícios concretos.
A reviravolta
O caso foi reaberto em 2026 após uma ex-enteada de Martônio denunciá-lo por abuso sexual. Segundo o relato à polícia, ele fazia referência à morte de Giovanna para ameaçá-la.
De acordo com documentos do inquérito, o suspeito teria afirmado que “estava tudo na frente” dos policiais em 2006 e que eles eram “idiotas e tapados”. Uma testemunha relatou que ele mencionava ter cortado o fio usado para amarrar o corpo de um rolo que possuía em casa — rolo que, na época, teria sido examinado sem que a correspondência fosse percebida.
Ex-companheiras também foram ouvidas. Algumas disseram que a mulher que era casada com ele em 2006 teria sido obrigada a limpar a residência para eliminar vestígios. Outra relatou à polícia uma suposta confissão compatível com elementos periciais: Giovanna teria sido atraída para dentro da casa sob o pretexto de receber o dinheiro das rifas, sufocada e violentada; posteriormente, o corpo teria sido descartado e as roupas espalhadas para direcionar suspeitas a terceiros.
Martônio está preso preventivamente por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e estupro de vulnerável. Ele permaneceu em silêncio em depoimento. A defesa afirma que não teve acesso integral aos autos e destaca o direito à ampla defesa e à presunção de inocência. O suspeito também é investigado por outros crimes sexuais.
Uma lição tardia
O caso Giovanna não se limita à eventual responsabilização de um homem. Ele expõe o custo de uma investigação que, ao abraçar uma hipótese ritualística sem lastro probatório sólido, pode ter retardado a busca por respostas.
Ao longo dos anos, discursos sobre “seitas” e “rituais” serviram, em diferentes episódios, como atalhos explicativos que desviam o foco daquilo que costuma ser mais banal e mais perturbador: a violência praticada por homens comuns, integrados ao cotidiano, frequentemente amparados pela imagem de “cidadãos de bem”.
Duas décadas depois, a pergunta que permanece não é apenas quem matou Giovanna. É também por que a investigação inicial parece ter ignorado indícios que estavam, como relatou uma testemunha, “na frente de todos”.



