Resistência nas ruas e nas redes: o papel de Janones na vitória de Lula nas urnas
Janones, as ruas, a guerra de comunicação em rede e o conhecimento que a esquerda ainda precisa conhecer e reconhecer

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político
Em nome de um debate de ideias que a vitória de Lula garantiu para todos nós, reajo aqui a um comentário do jornalista Josias de Souza, do UOL, durante uma análise geral das eleições. Conhecido pelas críticas rigorosas aos governos Lula, às vezes até um pouco exageradas, ele foi um dos que se assustaram com o resultado do primeiro turno. Faz parte de um grupo bastante amplo, inclusive no campo progressista, que não conhece a fundo como funcionam as grandes plataformas e as redes sociais, as linguagens delas, os algoritmos e as formas de influência. Ao comentar a participação de André Janones na reviravolta da campanha que culminou na vitória de Lula no segundo turno, esse colunista fez uma ressalva. Reconheceu a importância dele, mas advertiu que seria preciso tomar cuidado com os métodos utilizados. Segundo ele, Janones reproduziria estratégias da extrema-direita, recorrendo a ofensas, ódio, ressentimentos, volume massivo de mensagens e, por vezes, até notícias falsas. Isso representaria um risco para a sociedade, porque essas práticas não contribuiriam para “formar uma consciência cidadã”. Ele fala por muita gente que pensa assim.
Pois é justamente aí que faço minha objeção.
Em geral, esse tipo de crítico não demonstra muita preocupação com o ensino público brasileiro, agredido e precarizado há décadas. Grande parte dos professores não recebe o piso nacional, são perseguidos e atacados dentro das próprias salas de aula, e as escolas sofrem invasões e episódios de violência. Faltam concursos públicos, e há carência de professores, especialmente no ensino médio. Os alunos enfrentam dificuldades crescentes para acompanhar as aulas, em meio a problemas de saúde mental associados também ao uso excessivo dos smartphones, enquanto as famílias tentam lidar, muitas vezes sozinhas, com uma realidade para a qual não foram preparadas.
Leia aqui todos os artigos de Lucio Massafferri Salles
É nesse ambiente escolar que deveríamos estar discutindo a formação da consciência cidadã. É na escola pública, com professores valorizados, condições adequadas de ensino e acesso ao conhecimento, que se pode formar uma população capaz de compreender criticamente a própria história, inclusive a história de um país que atravessou uma ditadura militar, golpes e sucessivas ameaças à democracia. Mas não vejo esse tipo de crítico dedicar a mesma atenção a essas questões. Agora, quando André Janones participa de uma mobilização decisiva, aparece a preocupação com a formação da consciência política dos cidadãos.
E aqui existe uma confusão que considero fundamental.
Janones entrou naquela disputa de última hora, em caráter emergencial, diante de uma situação eleitoral extremamente difícil. Foi atuar de frente numa guerra de comunicação digital, de “vida e morte”. Janones não se apresentou como educador político da sociedade brasileira nem como formador de consciência cidadã. E o que conseguiu fazer foi extraordinário. Ajudou a salvar o Brasil de um desgoverno de extrema-direita. O resultado repercutiu em todo o mundo. E eu diria que foi quase um milagre, se não houvesse por trás daquele resultado um lado técnico. Ele tem conhecimento prático, experiência, domínio das linguagens das plataformas, compreensão de como as mensagens circulam e atingem as mentes e de como os algoritmos respondem a certos estímulos. Janones teve papel central naquela virada fantástica. As ruas também tiveram o seu papel, com multidões convocadas sobretudo por movimentos estudantis e juvenis depois do primeiro turno, e não pretendo diminuir isso. Janones, porém, foi muito além de produzir mensagens em grande quantidade. Entendeu um ambiente de disputa que boa parte do campo progressista ainda desconhece. As redes foram construídas para capturar atenção, estimular reações e explorar predisposições humanas, o que as torna tudo menos espaços neutros. Os algoritmos trabalham em cima de medos, desejos, fragilidades, ressentimentos e expectativas. Há técnicas de comunicação capazes de atingir esses pontos com enorme precisão. É preciso conhecer esse funcionamento para saber atuar nele.
O ‘general’ do WhatsApp por trás da virada eleitoral de Lula no Brasil
Penso numa comparação com as artes marciais. Quem tem força física, disposição e a convicção de estar do lado certo ainda precisa conhecer os movimentos, compreender o adversário, dominar as técnicas e saber reagir. Nas redes sociais acontece algo parecido. Existe uma espécie de arte marcial digital, e quem não conhece as regras dela entra na disputa em desvantagem. O que me incomoda é perceber, em uma parcela intelectualizada da esquerda, certa resistência a reconhecer esse conhecimento quando ele vem de alguém como André Janones. Parece haver um preconceito embutido, uma dificuldade de aceitar que alguém de fora de certos círculos intelectuais domine uma área em que muitos dos integrantes desses círculos são praticamente leigos. Uma pessoa pode ter doutorado em Ciência Política, em Relações Internacionais, duas graduações, uma produção acadêmica respeitável e, mesmo assim, não entender as linguagens das redes. Pode conhecer a fundo a história das instituições políticas e não saber o básico de informática. Pode precisar chamar um técnico para instalar o Windows e nem saber o que é Linux, um terminal ou código-fonte. Conhecimento acadêmico não garante domínio tecnológico. E dominar a comunicação digital também não faz de ninguém um filósofo, um historiador ou um cientista político. O problema começa quando um campo de conhecimento se considera superior aos demais e se recusa a reconhecer competências que não domina.
As chaves da reeleição histórica de Lula no Brasil
Tenho a impressão de que parte dessa intelectualidade progressista não consegue abrir mão de protagonizar o debate público com as próprias ideias, muitas vezes com pouco efeito prático no ambiente onde a disputa política de fato acontece. E, quando alguém demonstra capacidade de atuar nesse ambiente, em vez de procurar compreender o que ele sabe e como esse conhecimento poderia ser aproveitado, surgem as ressalvas, as desconfianças e as objeções. Não nos esqueçamos nunca de que a história de Lula é também a história de um homem simples que passou fome e nunca se ligou em querer falar difícil, um torneiro mecânico que entrou para a história como um dos grandes líderes políticos que o mundo conheceu, e entrará em seu quarto mandato. É preciso baixar um pouco a bola. André Janones pode contribuir enormemente para a construção de uma estrutura de comunicação de um governo progressista. Pode ajudar a compreender como ocupar os espaços digitais, como organizar a circulação de conteúdos, como disputar atenção e como enfrentar uma máquina de comunicação que já domina esses instrumentos há muito tempo. A formação política da população cabe à escola, às universidades, aos movimentos sociais, às famílias, aos jornalistas e a muita gente mais. São funções diferentes, que podem e devem trabalhar juntas. O conhecimento de Janones não deve ser desprezado só porque difere dos métodos tradicionais de intervenção política de certos setores intelectuais. É perfeitamente possível discutir os limites éticos das estratégias digitais, questionar procedimentos e estabelecer critérios para a comunicação pública sem desqualificar a competência de quem conhece esse terreno. No caso dele, acho que Janones não passou dos limites. Foi no tom que devia ser diante do que estava acontecendo, com a própria Meta favorecendo o outro lado, e o meu canal e o Pragmatismo Político sendo punidos assim como outros, com diversos processos abertos junto ao TSE.
A esquerda precisa aprender a trabalhar de maneira menos elitista e a reconhecer saberes diferentes. Desta vez, valeria juntar a formação intelectual, a educação política e o conhecimento prático das plataformas. E, sobretudo, que não venham a sabotar André Janones justamente quando ele mostrou o valor do que tem a oferecer.
Leia também:
Identidade sobrescrita: quando nada mais acaba
Emulação do Desejo: quando as máquinas aprendem a querer
Instantes antes da palavra
Polarização afetiva e o fim da convivência
Nas cavernas algorítmicas: o novo teatro das sombras
A psicopolítica vai à guerra
A privatização do inconsciente: como a IA transformou o desejo em arquitetura da indignação
Inteligência Artificial: três equívocos que prejudicam o debate
Democracia hackeada – a manipulação e o direcionamento de alvos na grande rede
Comunicação e psicologia das massas na geopolítica da internet
*Lucio Massafferri Salles é filósofo, psicólogo e psicanalista, jornalista, professor do Departamento de Psicologia da UCAM e professor de Filosofia, com atuação em Educação Especial, na rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro. Doutor e mestre em Filosofia pela UFRJ, especialista em Psicanálise pela USU, realizou pós-doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. Autor de Raízes Sofísticas: a palavra como fármaco e A arquitetura do caos: guerras híbridas, operações psicológicas e manipulação digital. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.
→ SE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI… Saiba que o Pragmatismo não tem investidores e não está entre os veículos que recebem publicidade estatal do governo. Fazer jornalismo custa caro. Com apenas R$ 1 REAL você nos ajuda a pagar nossos profissionais e a estrutura. Seu apoio é muito importante e fortalece a mídia independente. Doe através da chave-pix: [email protected]



