Já foi o Rio de Janeiro?

Nós estávamos com dois notibúquis, dois celulares e mais a tevê ligada. Três abas de canais abertas. Instagram, Facebook e WhatsApp apitando. Enfim, fizemos uma espécie quartel general no quarto para a apuração. O termo é oportuno, pois ambos estávamos alistados no Exército do Lula, sob o comando do General Janones. Agora essa coisa de Exército do Janones parece algo pueril. Talvez até fosse, mas que deu certo, ah, isso deu.
Por falar nisso, não posso deixar de refletir: as chamadas redes sociais não são um mundo paralelo. Para muitos, elas são o verdadeiro mundo. É de lá que elas se alimentam mental, ideológica e intelectualmente. Isso ficou claríssimo com a exitosa vitória do modus operandi do General Janones (gostei, vou continuar escrevendo assim).
E outra constatação: não entendo nada de Política. Pelo menos não de quem vai ou não ganhar. Pouco antes da apuração do primeiro turno, eu estava confiante, soberbo até. Sentei-me no sofá da sala só aguardando o momento que o Tralli iria me autorizar a ir para a varanda gritar coisas impublicáveis: “É Lula, lhiuhiuhfkjih. Vai todo mundo tomar jhbughbhje. Abaixo a extrema-direita bibkjnroefv. ♫♫♫ Lula lá, brilha uma estrela / Lula lá, cresce a esperança / Lula lá, o Brasil criança ♫♫♫”
Eu tinha convicção de que iria entrar a Tebet e a Marina como senadoras paulistas; e aqui no Rio Grande, elegeríamos pelo menos a Manuela. E não esperava perder pro Zucco já no primeiro turno. E quem eu imaginava que venceria logo no primeiro turno seria o Homem, o Lula. Nada, nada do que eu previ aconteceu.
Eu estava desolado. Era a volta do pesadelo bolsonarista. Do negacionismo. Da banalização dos preconceitos. Do arrocho salarial. Agora, com a maioria no Congresso e a possibilidade de indicar quatro nomes ao STF, seria um estado teocrático…
Mas, à luta. À luta que não se tratava meramente de uma escolha ideológica. Era uma escolha entre a democracia e ao arbitrarismo; entre o progresso e o retrocesso; entre a ciência e o negacionismo; e, claro, entre o amor e o ódio, que sou um apaixonado incorrigível.
Engoli meu ego, alter ego, ID ou sei lá qual “eu” é o responsável pela vaidade. Parei de discutir com quem não estava disposto a mudar sua opinião. Foquei naqueles que eu achava ter alguma chance de reverter pelo menos o nulo. Também tentei convencer alguns a irem votar.
Fui à manifestação chuvosa. Adesivei meu carro. Alistei-me no Exército Janonense (tô gostando tanto, que já crio adjetivos). Escrevi neste espaço abrindo meu coração, pedindo voto, explicando os porquês…
Enfim, mas nada disso me fez ficar confiante no domingo. Aparecia suruba com dinheiro público, ligação bilionária com bets (não escrevi errado, é bi mesmo), o caso Ana Clara, mentiras do Flávio diárias, por fim, a ofensa de “nove dedos”. Eu estava cético. Depois de muitos escândalos, mesmo assim o cara leva já no primeiro turno…
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Desta vez, nada de sala e acepipes. E outra, iria acompanhar pela tevê do quarto, deitado na cama. Quando percebesse que não daria mais, era virar pro lado, posição fetal e tentar dormir. Sempre disse aos bolsonaristas que, se eu perdesse, choraria na cama, que é lugar quente. E aconselhava-os a fazer o mesmo, não a ir fazer fiasco em frente aos quarteis. “Eu autorizo” é meuzovo!
Ah, e isso sem falar nos ônibus parados e nos aviões rumo ao nordeste que não decolavam. Safadeza das mais explícitas. Espero justiça por isso, ainda.
Estende-se a votação até às 19 horas. Pronto, pensei, era a brecha que a direita precisava pra contestar as eleições. Os quarteis seriam tomados por velhinhas depredadoras, mas que na verdade são apenas passeantes em um domingo no parque, tadinhas. Só que o PL também pedira a prorrogação. Só em territórios em que eles tinham em tese mais votos, claro. Só que o Zanin ordenou o óbvio, que se estenda a todo o Brasil. Só que o número de votos pós 17 horas foi ínfimo. Poder-se-ia transferir todos ao Flávio que só mudaria o terceiro número pós vírgula. Enfim, a acusação de influência do STF na eleição não se sustentou.
Lula liderou quase que de ponta a ponta. Ficou ligeiramente atrás entre os 15 e 40% de apuração, se não me engano. Os sites em que eu estava acompanhando mostravam projeções estatísticas avisando que e quando Lula viraria e, dali, só pra cima.
Ocorre que eu sou cético. Realista. Pessimista. Chato. Faltava uma calharada de votos do Rio de Janeiro. Fui verificar a apuração de lá. Ganhávamos na Capital, mas perdíamos no estado.
Alguns amigos me chamavam no Whats, em tom de vitória. Muito mais para já cobrar o chope por mim prometido em caso de vitória do que pelo companheirismo. Mas tudo bem. Uma amiga perguntou se já poderia abrir a espumante. Calma, falta o Rio de Janeiro.
“O chope é amanhã?” perguntou um que eu nem sabia quem era. Avisei da data do cumprimento da promessa, mas ressaltei que faltava o Rio de Janeiro, colégio eleitoral numeroso e bolsonarista.
Minha esposa chorando de emoção já, e eu perguntei se as lágrimas eram receio dos votos fluminenses a entrar.
O Eduardo Moreira do ICL estourando meu sistema de som de tanto que gritava em comemoração; a Dani Lima, do UOL, tentando conter uma indisfarçável satisfação… Mas eles não viram que falta parte do Rio de Janeiro? Vamos com calma.
Só me dei por convencido quando o Tralli anunciou a vitória matemática. Me chamem de velho, de conservador, mas eu ainda acho, subjetiva e inconscientemente, que a Globo tem inabalável credibilidade. E eu ainda ia ficar mais convicto se fosse o Bonner a anunciar. Todos os homens, alguma vez na vida, já quiseram ter a credibilidade charmosa e quase sedutora do Bonner.
Ele diria com sua voz firme, olhando nos olhos do telespectador, que, apesar da apuração no Rio de Janeiro estar um pouco atrasada, matematicamente Luiz Inácio Lula da Silva está reeleito presidente do Brasil.
Mas não foi o Bonner. Apesar de ter sido na Globo, foi o Tralli. Mas acho que agora já foi contabilizado o Rio de Janeiro, né?
*Delmar Bertuol é professor de história
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