Redação Pragmatismo
Direita 18/Out/2026 às 08:46 COMENTÁRIOS
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Emendas, homenagens e ex-assessores ligam trajetória de Flávio Bolsonaro a personagens do universo das milícias no Rio

Publicado em 18 Out, 2026 às 08h46

Documentos da Polícia Federal revelam negociação de verba parlamentar com condenado no caso Marielle Franco. Histórico do senador inclui familiares de Adriano da Nóbrega em seu gabinete e homenagens a policiais posteriormente associados a grupos criminosos

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Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz

A trajetória política de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, reúne uma série de episódios envolvendo personagens investigados ou condenados por participação em milícias no Rio de Janeiro. As relações atravessam diferentes momentos de sua carreira, desde os primeiros mandatos na Assembleia Legislativa fluminense até sua atuação no Senado.

Entre os fatos documentados estão a contratação de familiares de Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como chefe do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime, homenagens concedidas a policiais investigados e a destinação de recursos públicos após negociações conduzidas por um homem condenado no processo sobre o assassinato de Marielle Franco. Embora esses episódios não comprovem participação do senador em organizações criminosas, constituem um histórico relevante para o debate sobre suas relações políticas e sua atuação na segurança pública.

Emenda parlamentar negociada com condenado no caso Marielle

Uma das revelações mais recentes envolve Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão por integrar a organização criminosa relacionada ao assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018.

Segundo investigação da Polícia Federal divulgada pelo g1 em setembro de 2026, Peixe negociou diretamente com Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro, a destinação de uma emenda parlamentar de R$ 199.999,79.

As mensagens recuperadas pelos investigadores mostram que o condenado solicitou ajuda ao gabinete e recebeu orientações sobre como encaminhar o pedido. A assessora também sugeriu que ele aproveitasse um evento para reforçar pessoalmente a solicitação ao senador.

O dinheiro foi destinado ao Instituto IFOP, responsável por um projeto esportivo voltado a crianças e adolescentes na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Entretanto, um relatório técnico do Tribunal de Contas da União apontou indícios de desvio dos recursos. Parte da verba foi direcionada a uma empresa de serviços advocatícios cuja atividade não apresentava relação evidente com a execução do projeto esportivo.

Flávio Bolsonaro negou irregularidades. Em nota, afirmou que a destinação da emenda respeitou os critérios legais e que a responsabilidade pela correta aplicação dos recursos caberia à entidade beneficiada.

A investigação não demonstra, por si só, que o senador tivesse conhecimento de eventual desvio. Os documentos, porém, comprovam que a negociação da verba passou por uma integrante de seu gabinete e por um personagem posteriormente condenado por envolvimento no caso Marielle.

Relembre: Vereadora do PSOL que denunciou abusos de PMs é executada no Rio de Janeiro

Adriano da Nóbrega e os familiares empregados no gabinete

Outro episódio envolve Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como integrante de uma milícia e chefe do Escritório do Crime, grupo associado a assassinatos por encomenda.

Adriano morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia.

Antes disso, manteve vínculos indiretos com o gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

A mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, e sua ex-mulher, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, foram empregadas no gabinete do então deputado estadual.

As duas também apareceram nas investigações sobre o suposto esquema de recolhimento de salários de assessores, conhecido como rachadinha, associado ao ex-assessor Fabrício Queiroz.

O Ministério Público apontou movimentações financeiras suspeitas envolvendo integrantes do gabinete. Flávio Bolsonaro e Queiroz negaram participação em irregularidades.

A existência desses vínculos profissionais não demonstra que o senador tenha participado das atividades criminosas atribuídas a Adriano. Mas evidencia a proximidade administrativa entre seu gabinete e familiares de um personagem que se tornaria um dos nomes mais conhecidos das investigações sobre milícias no Rio.

A Medalha Tiradentes concedida a Adriano da Nóbrega

A relação política com Adriano da Nóbrega também foi marcada por homenagens públicas.

Em 2003, Flávio apresentou uma moção de louvor ao policial. Dois anos depois, concedeu a ele a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Na ocasião, Adriano estava preso sob acusação de homicídio.

O policial foi condenado inicialmente, mas obteve a anulação do julgamento e acabou absolvido em novo júri.

Flávio afirmou posteriormente que considerava Adriano vítima de uma injustiça e que a homenagem reconhecia sua atuação como policial.

O senador também apresentou homenagens a outros integrantes das forças de segurança que posteriormente foram associados a investigações sobre milícias.

Esses episódios ganharam nova relevância à medida que investigações revelaram a presença de policiais e ex-policiais em organizações criminosas que passaram a controlar territórios e explorar economicamente comunidades do Rio de Janeiro.

O histórico de posicionamentos sobre as milícias

As controvérsias não se limitam às relações pessoais e administrativas.

Durante sua passagem pela Assembleia Legislativa, Flávio Bolsonaro adotou posicionamentos que foram interpretados por críticos como favoráveis à atuação de grupos de policiais e ex-policiais em comunidades fluminenses.

O senador também foi questionado por seu voto contrário à instalação da CPI das Milícias na Alerj.

Posteriormente, procurou se distanciar dessas posições e afirmou não defender organizações criminosas.

A distinção é importante porque as milícias, inicialmente apresentadas por alguns de seus defensores como alternativas ao tráfico de drogas, consolidaram estruturas criminosas responsáveis por extorsões, exploração de serviços, controle territorial e violência contra moradores.

O crescimento dessas organizações tornou o enfrentamento da infiltração criminosa nas instituições públicas um dos principais desafios da segurança no Rio de Janeiro.

Armas, munições e o risco de abastecimento do crime organizado

Outro ponto de controvérsia envolve as políticas de flexibilização do acesso a armas e munições durante o governo Jair Bolsonaro, defendidas por Flávio.

Investigações jornalísticas e estudos de organizações especializadas em segurança pública documentaram casos de armamentos adquiridos legalmente que acabaram desviados para organizações criminosas.

Reportagens do Estadão mostraram como integrantes de facções recorreram a intermediários e registros de colecionadores, atiradores e caçadores para obter armamentos.

O debate também alcançou propostas legislativas que poderiam reduzir exigências de identificação de munições.

Durante o confronto presidencial da Band, Lula questionou Flávio sobre sua atuação em discussões legislativas relacionadas à retirada de marcações de cartuchos utilizados pelas forças de segurança.

A rastreabilidade das munições é considerada uma ferramenta importante para investigações criminais, pois permite identificar sua origem e reconstruir possíveis trajetórias de desvio.

A existência de armamentos desviados não significa que todos os proprietários legalizados tenham ligação com o crime. O problema apontado pelas investigações é a possibilidade de organizações criminosas explorarem falhas de fiscalização e controle.

Um histórico que exige esclarecimentos

A discussão sobre Flávio Bolsonaro e as milícias não depende de atribuir ao senador crimes pelos quais ele não foi condenado.

Há fatos documentados que podem ser examinados separadamente. Ele homenageou Adriano da Nóbrega, empregou familiares do ex-policial, teve uma assessora envolvida na negociação de recursos solicitados por Robson Calixto e defendeu políticas de segurança cuja eficácia e consequências são objeto de debate.

Também existem limites claros para as conclusões. A Polícia Federal investiga suspeitas de desvio de emendas, mas a destinação do recurso não comprova conhecimento ou participação do parlamentar em eventual fraude. Da mesma forma, contratar parentes de investigados ou homenagear policiais não estabelece, automaticamente, envolvimento em organizações criminosas.

O que esses episódios demonstram é a necessidade de transparência sobre relações políticas, escolhas administrativas e destinação de recursos públicos.

Em uma eleição presidencial na qual a segurança pública ocupa lugar central, compreender esse histórico é parte do escrutínio legítimo sobre quem pretende comandar as instituições responsáveis pelo enfrentamento do crime organizado.

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