Delmar Bertuol
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Colunistas 13/Ago/2026 às 18:55 COMENTÁRIOS
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O homem na sala

Delmar Bertuol Delmar Bertuol
Publicado em 13 Ago, 2026 às 18h55

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

O homem cutuca a mulher euforicamente:

-Acorda, Márcia, acorda.

-Para, Amor. A gente já fez cuti-cuti segunda-feira.

O homem ainda mais efusivo:

-Não quero cuti-cuti. Tem um homem na sala.

Ããããã resmungativo de sono.

-Levanta, Márcia. Tem um homem na sala!

Agora assustadamente desperta:

-Um homem, como assim, quem?

-Claro que não sei, pelo amor de Deus. Se eu conhecesse, eu diria que fulano está na sala.

-Amor, não são nem seis da manhã. Tiveste uma impressão, viu um vulto. No máximo, viu ou imaginou um fantasma. Dorme mais um pouquinho ou toma uma ducha.

-Não era fantasma.

-Como pode ter certeza, tu já viste um?

-Não. Mas os fantasmas têm aquele envolto alvo ou acinzentado, dependendo se fantasma do bem ou do mal. Não assistiu à novela A Viagem?

-Certeza de que não era impressão tua?

-Certeza certezaça. Não era fantasma e nem impressão. Era homem de carne e osso e bem corado. Só, assustado e pego de surpresa, não consegui olhar o rosto.

O homem, o marido, no caso, não o homem lá da sala, sobe repentinamente o tom.

-Agora chega, Márcia. Tem um homem sentado no sofá da sala…

-Ah, ele tá sentado?

-Como assim “ele”. Então tu sabe quem é…

-E eu que vou saber, Leandro. Falei ele porque é um homem. Tu mesmo disse… Peraí, tu não tá insinuando que…

-Não sei. Me diga tu. É um homem, um homem, um “ele” que está sentado lá na sala, não uma mulher, não uma “ela”. Vamos, Márcia, me diga quem é ele.

-E eu que vou saber, homem de Deus.

A mulher também explodindo de impaciência:

-E se fosse meu amante, desde quando amantes ficam sentado na sala esperando o marido acordar para vê-lo?!

-E onde ficam os amantes, Márcia, parece que está por dentro do assunto…

-Eu não tenho amantes, mas, se tivesse, os esconderia embaixo da cama, dentro do roupeiro ou na varanda, como ensina em qualquer filme. Aliás, pelo bem do nosso relacionamento, não espie embaixo da cama…

Enquanto o homem disfarçadamente chutava por debaixo da cama, mostrava indiferença aos gracejos da esposa:

-Tu sempre debochando e fazendo piada nas piores situações… Não temos varanda. E aquele homem lá na sala não caberia embaixo da cama ou dentro do armário. Ele é um homem do tipo grande, tem mais ou menos o meu porte físico.

-Então não poderia ser meu amante, pois eu prefiro os magrinhos…

Ela tentou remendar atacando:

-E se ele for o teu amante?

Depois de dois segundos de silêncio, ela prossegue sua tese:

-Ora, Leandro. Tu já tá com 45. Não é o que dizem, que na casa dos quarenta os homens têm crises existenciais e começam a querer experimentar as meninas de vinte anos ou vinte centímetros de outra coisa…

-Não seja ridícula.

-Por que ridícula? Esses dias vi no teu celular a tua pesquisa naquele site. Teen Hardcore. Que pouca vergonha. Procurando novinhas em site pornô…

-Que tu foi mexer no meu celular?

-Vi por acaso. Mas, enfim. Teve tua fase novinha, agora quer experimentar tua homossexualidade.

-Que patético. Mas vamos por um momento supor que sim, estou na crise da meia idade e arrumei um amante. Que diabos ele estaria fazendo aqui em casa contigo junto?

-Eu não sei, Leandro. É teu amante, não meu. O que tu faria com teu amante?

-Mas com tantas opções. Hotéis, motéis, outra cidade…

-Ahhh, então aquele tal congresso de última hora semana passada era pra isso. Eu deveria ter imaginado, eu deveria ter imaginado. Congresso de última hora na serra… e ainda pagou a estadia com o meu cartão…

-Deixa de bobagens. Eu nem queria ir. Foi tu quem insistiu. Achou que seria importante pra minha carreira e… ah, por isso insistiu que eu fosse, mesmo a gente estando apertados de grana… claro, três dias sozinha em casa. Não precisaria esconder o amante na varanda…

-A gente não tem varanda.

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E trocando de assunto, ela:

-Pera… será que não é meu pai?

-Inconveniente ele é mesmo…

-Ah, mas se fosse papai, ele te daria bom dia.

-Não tenho certeza disso. Mas, como ele entraria? Ei, tu deu uma chave pro teu pai?

-Sim. Vai saber quando a gente tá fora e precisa de algo.

-Mas quando eu disse de dar uma cópia pra mãe tu discordou…

-Talvez porque eu não queira chegar em casa num belo dia e ela tenha mudado os móveis todos de lugar.

Três segundos de silêncio, a mulher teve um repente de contida euforia. Não podia o homem lá na sala ouvir:

-Vamos chamar a polícia!

O marido a olhando com censura:

-E tu acha, gênia, que não foi uma das primeiras coisas que pensei. Mas o que a praticante de ioga aqui propôs? Detox. Limpeza de telas. Nada de celular no quarto. Agora estão lá, ambos os celulares na mesinha ao lado do sofá em que tem um desconhecido sentado.

A mulher suspirou derrotada. Ele prosseguiu:

-Como será que esse sujeito entrou…

-Tu chegou a ver se a porta estava aberta?

-Não reparei. Mas tenho certeza de que fechei as três trincas ontem. Impossível arrombar sem que ouvíssemos barulho. Será que veio pela janela?

-Do décimo segundo andar, Leandro?!

-Então um mistério já desvendamos. Ele entrou pela porta e com chave. Ainda faltam outras respostas…

-Sim, já pensou em ir lá em perguntar pra ele como entrou, quem lhe deu uma cópia da chave e, principalmente, quem é ele!!!!!

O marido abateu-se. Se medissem sua testosterona, iria estar em momentâneo déficit. Respondeu quase balbuciando:

-Ele pode estar armado. Essa gente é perigosa…

-Que “gente”, se tu nem sabe quem é?

E de novo subindo a gangorra pro lado dele:

-Viu, se tu tivesse votado no Bolsonaro…

-O quê?

-Agora eu teria uma arma e esse cara ia ver com quem tava se metendo. Acha que é quem pra invadir a residência de cidadão de bem?

-Por favor, Leandro. Tu não acerta o xixi no vaso, ia acertar com uma arma. Destruía o apartamento e não matava o sujeito.

Ela prosseguiu com hipóteses:

-Será que ele não é Oficial de Justiça? Tu tá sempre enrolando tua ex com pensão. Fez fez, que agora ela te pôs na Justiça. Vai lá e assina a intimação, Leandro.

-Não pode ser. Intimação ou mandado só depois das seis da manhã…

-Já são seis e sete.

-Agora, mas quando vi o sujeito, não era.

-Por isso ele não falou nada. Tava esperando o horário.

-Márcia, me poupe de gracejos. Esse sujeito só pode ser um dos teus amiguinhos. Eu avisei.

-Amiguinhos?

-Sim, os comunistas! Eu te avisei que isso ia acontecer, mas tu votou neles. Agora, estão aqui pra tomar nosso apartamento.

-Se eles assumirem o restante do financiamento, por mim tudo bem.

-E o carro, vão levar meu carro, Márcia. Muito obrigado.

-Nosso carro, Leandro, nosso carro. Eu pago metade da prestação, esqueceu?

-Não importa mais. Já era.

-Ora, Leandro. Ouvi dizer que esses tais comunistas só querem coisa boa. Não vão levar nosso carrinho usado, resto de rico.

-Carrinho nada. Nós não temos um um-ponto-zero, Márcia. Nosso carro é um S-U-V com tração nas quatro rodas.

-Mas tu disse que a tração não estava funcionando…

-E daí, por acaso a gente faz trilha?

-Mas foi exatamente isso que eu disse quando a gente foi comprar, que podia ser um menor…

-E como eu ia saber que a tração estava estragada, Márcia?

-Não tinha como saber, mas podia ir cobrar da loja…

-Ora, Márcia, tu sabe que a gente comprou de repasse. Dei minha palavra que não reclamaria de eventuais estragos…

-Não funcionar a tração de um carro que se diz 4×4 não me parece um estrago eventual…

-Já falei, Márcia, modalidade de repasse é assim, sem direito à garantia.

-Não é o que a lei diz, Leandro.

-A lei, a lei… os caras da loja arriscam, investem, empreendem têm seus custos também. A lei… se a lei tivesse sido descumprida neste País em algumas situações, talvez agora aquele comunistazinho não estaria na nossa sala a querer surrupiar nossos bens.

A isso, o marido ainda fingiu gritar direcionando o som com a mão:

-Volta pra Cuba!

-Como tu é ridículo, Leandro. Um homem invade nosso apartamento e tu ainda vê brecha pra falar de política.

-Mas ele tem toda a pinta de guerrilheiro. Posso estar enganado, mas acho que vi quando ele colocou o pé em cima do sofá. Estava com bota. Era tipo um coturno, na verdade. E devia estar na mata, pois sujo de barro…

-O quê????????? No meu sofá novo e que limpei ontem!!!!!

Mal a mulher terminou de maldizer o sujeito lá da sala, o marido ouviu, ouviu nitidamente o barulho da tevê. O cara estava jogando no seu videogame Play 6, que ele recém pagou a primeira de doze prestações.

Saíram ambos enfurecidos do quarto. A mulher armada com seu ódio de mulher braba. O marido ainda se atinou a pegar uma pantufa para ir ter com o sujeito.

*Delmar Bertuol é professor de história

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