Trump e Bolsonaro estão para Maquiavel como Lula e Sanders para Habermas

Cesar Zanin*
Muitos teóricos republicanos modernos, que não se identificavam como reacionários, opuseram-se ao sentido popular do termo “maquiavélico”, entendido como uma política baseada na manipulação, na dissimulação estratégica e no uso instrumental da verdade em uma luta pelo poder desvinculada de normas morais.
Para esses teóricos, o Nicolau Maquiavel histórico teria admirado o governo republicano, a participação cidadã e a virtude cívica; ele seria mais complexo do que a caricatura popular, sendo supostamente um importante precursor do republicanismo, e não simplesmente um apóstolo da tirania.
Essa interpretação republicana é geralmente associada a estudiosos como J. G. A. Pocock e Quentin Skinner.
Entretanto, muitas das características que os estudiosos republicanos contemporâneos celebram em Maquiavel não são aquelas que mais importariam para a legitimidade democrática.
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Para Jurgen Habermas, a questão decisiva não é somente se uma determinada ordem política é uma república em vez de uma monarquia ou se existe virtude cívica contra a dominação.
Todo o quadro conceitual de Maquiavel é amplamente hostil a processos orientados para o entendimento mútuo. Seu universo político é estruturado em torno do poder, do conflito, da necessidade, da fortuna, da corrupção, da preservação, da fundação e da refundação. Isso não é compatível com a legitimidade da deliberação pública baseada na ação comunicativa e na justificação racional por meio de unidades de significado mutuamente compartilhadas.
Trata-se de ontologias da política fundamentalmente distintas.
Uma ordem política pode permanecer uma república mesmo na ausência de racionalidade comunicativa: a própria Roma Antiga seria um exemplo evidente.
Maquiavel admirava Roma precisamente por sua força militar, sua expansão, sua energia cívica e sua durabilidade institucional.
Pode-se argumentar plausivelmente que a antropologia de Maquiavel é quase o inverso da de Habermas.
Habermas parte do pressuposto de que a interação linguística contém uma orientação inerente para o entendimento. A ação estratégica existe, mas é parasitária em relação à ação comunicativa.
Maquiavel frequentemente parece assumir o oposto: os atores políticos são movidos pela ambição, pelo medo, pelo interesse, pela rivalidade e pelo desejo de poder; as instituições existem para canalizar essas forças porque elas constituem características permanentes da vida política.
Da perspectiva de Maquiavel, a ação comunicativa não é o fundamento da política, mas, na melhor das hipóteses, um fenômeno secundário.
De fato, após a leitura de ‘O Príncipe’, ‘Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio’ e ‘História de Florença’ como um único corpus, pode-se argumentar que o valor último de Maquiavel não é nem o republicanismo nem a democracia, mas a sobrevivência e a vitalidade política.
Um político contemporâneo que aja de maneira genuinamente maquiavélica — tratando a comunicação de forma instrumental, recorrendo à dissimulação quando conveniente, mobilizando mitos estrategicamente e priorizando a preservação ou a aquisição do poder em detrimento da justificação racional — atua de maneira inteiramente coerente dentro de um quadro maquiavélico.
Trump e Bolsonaro situam-se na concepção maquiavélica da política como uma luta em torno do poder, do conflito e da preservação da ordem política, enquanto Lula e Sanders situam-se mais próximos da concepção habermasiana da política como um processo de legitimação democrática por meio da comunicação racional.
O significado da comparação aqui não reside numa correspondência absoluta entre políticos e teóricos, mas no contraste entre duas lógicas políticas rivais: a ação estratégica e a ação comunicativa.
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