César Zanin
Colunista
Guerra injustificável 05/Mar/2026 às 22:11 COMENTÁRIOS
Guerra injustificável

“Quando a ‘Civilização’ Espelha o Terror”

César Zanin César Zanin
Publicado em 05 Mar, 2026 às 22h11

Em resposta à morte de três soldados norte-americanos após os ataques iniciados pelos Estados Unidos e por Israel contra alvos iranianos — ações amplamente criticadas por observadores internacionais e especialistas como uma violação do direito internacional — o presidente Donald Trump descreveu o Irã simplesmente como “terroristas”. Ao mesmo tempo, equiparou os Estados Unidos à “civilização”.

Esse movimento retórico é significativo.

Descrever o adversário como terrorismo é criminalizá-lo. Descrever a si mesmo como civilização é moralizar-se. Trata-se de transformar um conflito geopolítico em um embate metafísico: civilização contra barbárie.

Outras autoridades norte-americanas têm enquadrado o Irã em termos explicitamente teológicos. O secretário de Estado Marco Rubio, por exemplo, afirmou que é difícil fechar acordos porque a liderança iraniana seria composta por “clérigos xiitas radicais” tomando “decisões teológicas, e não geopolíticas”.

O regime iraniano é, de fato, uma teocracia: a autoridade política encontra-se formalmente subordinada à autoridade religiosa, e a legislação deriva de interpretação clerical. Poder e fé se fundem. Para quem apoia a democracia, criticar essa estrutura é legítimo.

O problema surge quando essa crítica é formulada por meio de uma linguagem que começa a corroer precisamente o princípio que historicamente distinguiu os regimes democráticos modernos das teocracias: a separação entre religião e Estado.

Essa lógica corrosiva não é exclusiva dos Estados Unidos. Ela ecoa, com variações locais, no bolsonarismo. Também ali a retórica invoca “Deus, pátria, família” e se apresenta como defesa da liberdade e da democracia — ainda que de forma seletiva e desfigurada. Na prática, a democracia aparece como válida apenas para o grupo interno: os “cidadãos de bem”. Os demais — indígenas, movimentos sociais, opositores políticos, minorias — são frequentemente retratados como obstáculos, ameaças ou inimigos.

O que se defende, nesses casos, não é a cidadania universal, mas a hierarquia. Não são direitos iguais, mas privilégios.

A linguagem da civilização desempenha papel central nesse estreitamento. Para trumpistas e bolsonaristas, civilização se opõe ao que definem como primitivo. Civilização é apresentada como mais evoluída, mais avançada, mais legítima. O “primitivo”, por sua vez, é associado ao pobre, ao estrangeiro, ao indígena, ao não ocidental — e, no caso brasileiro, frequentemente às populações tradicionais e periféricas.

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Esse enquadramento não é casual. O termo civilização costuma descrever o processo histórico da consolidação de cidades, Estados e impérios. Refere-se a uma forma de organização social marcada por hierarquia, autoridade centralizada e expansão.

A antropologia e a arqueologia indicam que muitas sociedades caçadoras-coletoras eram amplamente igualitárias, com mecanismos sociais de contenção da dominação coercitiva. Com a Revolução Neolítica — o desenvolvimento da agricultura, a domesticação de animais e os assentamentos permanentes — tornaram-se possíveis novas formas de acumulação de poder. O excedente produtivo permitiu a institucionalização de hierarquias estruturadas na opressão.

A partir desse período, três instituições tornaram-se recorrentes nas civilizações de larga escala: religião organizada, guerra e escravidão. Elas foram repetidamente utilizadas para legitimar autoridade, organizar expansão e controlar populações.

Mesmo a Atenas clássica — frequentemente celebrada como berço da democracia — convivia com escravidão, guerra e ritual religioso.

Foi apenas com o Iluminismo que dois desses pilares passaram a ser sistematicamente questionados. A secularização enfraqueceu a fusão entre Igreja e Estado. O abolicionismo atacou a legitimidade moral da escravidão. Direitos universais foram formulados como princípios aplicáveis a todos os seres humanos, e não apenas a grupos internos (a guerra, contudo, permaneceu).

O que estava em jogo na transformação iluminista não era apenas a escravidão, mas também a ideia de que a legitimidade política não deveria depender de ortodoxia religiosa ou autoridade eclesiástica.

No conflito atual com o Irã, a moldura religiosa não permaneceu apenas no plano simbólico. Denúncias indicam que comandantes norte-americanos têm dito às tropas que a guerra seria “parte do plano divino de Deus”, citando explicitamente o Livro do Apocalipse e “o retorno iminente de Jesus Cristo”.

Uma das denúncias afirma que um comandante teria dito que Trump foi “ungido por Jesus” para “acender o sinal de fogo no Irã” e, assim, provocar o Armagedom.

Quando movimentos políticos contemporâneos passam a enquadrar suas nações como civilizações de fundamento divino — quando leis são justificadas em termos explicitamente teológicos e identidade nacional se confunde com pertencimento confessional — a demarcação entre democracia e deriva teocrática começa a colapsar. O perigo não é a imposição de uma teocracia formal imediata. É a sacralização gradual do poder político.

Essa tendência à sacralização aparece em reportagens sobre a cultura de liderança no Pentágono, observando que a cúpula da Defesa – rebatizada por Trump “Departamento da Guerra” – tem sistematicamente consolidado referências a Deus e a temas do nacionalismo cristão, inclusive com a promoção de cultos/orações regulares em sedes militares e com simbologia de tonalidade cruzadista, como “Deus vult”.

A linguagem da “civilização” do trumpismo (que o bolsonarismo compartilha) espelha precisamente a fusão entre fé, guerra e autoridade política que afirma combater quando ataca o Irã.

Aqueles que se opõem às tradições iluministas — os Tradicionalistas e fundamentalistas religiosos em geral, os fascistas e a onda reacionária contemporânea do trumpismo e do bolsonarismo — compartilham um impulso comum: rejeitam a universalidade dos direitos. Buscam restaurar hierarquias baseadas em identidade, desigualdade social, Tradicionalismo ou mandato divino através da coerção.

No Brasil recente, isso se traduziu na tentativa de deslegitimar instituições republicanas, atacar o sistema eleitoral e o estado laico, relativizar direitos e tratar adversários políticos como inimigos existenciais da nação. De modo similar nos Estados Unidos, manifestou-se na recusa do resultado eleitoral de 2020 e na erosão sistemática da confiança nas instituições democráticas.

Para esses movimentos, o auge moral da civilização não está na democracia moderna — liberal ou socialista que seja — mas na ordem hierárquica que precedeu o universalismo iluminista. Utilizam com entusiasmo a tecnologia moderna — redes sociais, vigilância digital, campanhas de desinformação — mas rejeitam a arquitetura moral do iluminismo que ajudou a compor a modernidade: direitos humanos universais, pluralismo, secularismo, cosmopolitismo, justiça social e isonomia para todos os cidadãos.

Seu projeto político vai além da hegemonia: se pretende absoluto, sem qualquer possibilidade de coexistência com liberalismo, socialismo, comunismo ou democracia multicultural. Não desejam o caos como finalidade; o caos é instrumento. O objetivo final é a estruturação da desigualdade entre grupos numa sociedade opressora.

É um erro descartar trumpistas e bolsonaristas como irracionais ou meramente folclóricos. Não são. São movidos por uma visão de mundo internamente consistente; ainda que muitos — inclusive eu — a considerem moralmente repugnante.

Quando um líder político equipara seu país à civilização como um todo ao mesmo tempo em que ataca outra nação, não está apenas se vangloriando. Está redesenhando o mapa moral. Aqueles que ficam fora do círculo da civilização deixam de ser adversários legítimos e passam a ser ameaças à ordem.

E quando a política é enquadrada como civilização contra barbárie, ou o bem contra o mal, qualquer compromisso de coexistência pacífica passa a ser tratado como traição. O século XX mostrou de forma dramática como binarismos morais dessa natureza podem corroer instituições democráticas por dentro.

O debate real, portanto, não se limita à política externa ou à retórica inflamável. Trata-se de decidir se democracia significa direitos universais ou desigualdade social com privilégios protegidos para alguns poucos; se civilização significa hierarquia coercitiva e excludente ou cidadania plena e humanidade compartilhada.

A linguagem antecipa aquilo que a política posteriormente consolida — como já ocorreu no início do século vinte, quando o vocabulário de civilização, inimigos e destino já anunciava a vindoura catástrofe muito antes de os regimes fascistas consolidarem o poder.

Referências:

1. Fontes primárias e documentos oficiais (declarações e deliberações dos EUA; bases normativas do direito internacional):

– U.S. Department of War. “Trump Renames DOD to Department of War”. Defense Department News | U.S. Department of War, 5 set. 2025. https://www.war.gov/News/News-Stories/Article/Article/4295826/trump-renames-dod-to-department-of-war/

– United States Department of State (Office of the Spokesperson). “Secretary of State Marco Rubio: Remarks to Press”. State.gov Releases, mar. 2026. https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2026/03/secretary-of-state-marco-rubio-remarks-to-press-6

– United Nations. Charter of the United Nations (Carta das Nações Unidas), 1945 (especialmente Art. 2(4) e Art. 51). https://www.un.org/en/about-us/un-charter

2. Jornalismo e fontes contemporâneas (guerra, retórica religiosa, “Armagedom”, enquadramento “civilização”)

– BBC News. “Trump rebrands Department of Defense as Department of War”. https://www.bbc.co.uk/news/articles/cgr9r4qr0ppo

– The Times of Israel. “Rubio: Difficult to reach deal with Iran, they’re ‘making theological decisions, not geopolitical ones’”. https://www.timesofisrael.com/liveblog_entry/rubio-difficult-to-reach-deal-with-iran-theyre-
making-theological-decisions-not-geopolitical-ones/

– The Guardian. “US troops were told war on Iran was ‘all part of God’s divine plan’, watchdog alleges”. https://www.theguardian.com/world/2026/mar/03/us-israel-iran-war-christian-rhetoric

– The New Republic. “Military Leaders Say Iran War Is So Trump Can Bring About ‘Armageddon’”.
https://newrepublic.com/post/207270/military-leaders-iran-war-donald-trump-jesus-armageddon

– Military Religious Freedom Foundation (MRFF). “Unit combat readiness briefing and Armageddon”.  https://www.militaryreligiousfreedom.org/2026/03/unit-combat-readiness-briefing-and-armageddon/

– Military.com. “Military Officers Accused of Framing Iran War as Biblical Mandate”.  https://www.military.com/daily-news/2026/03/03/military-officers-accused-of-framing-iran-war-biblical-mandate.html

– Council on American-Islamic Relations (CAIR). “CAIR Condemns Pentagon’s Use of Dangerous Anti-Muslim ‘Holy War’ Rhetoric to Justify Iran Bombing”. https://www.cair.com/press_releases/cair-condemns-pentagons-use-of-dangerous-anti-muslim-holy-war-rhetoric-to-justify-iran-bombing/

– HuffPost UK. “Troops Being Told To Prepare For Armageddon In Iran”.  https://www.huffingtonpost.co.uk/entry/troops-being-told-to-prepare-for-armageddon-in-iran_n_69a6ffe3e4b076ac5d63c82c

3. Literatura acadêmica (igualitarismo, Neolítico, guerra/religião/escravidão, Iluminismo, entreguerras)

– Boehm, Christopher. Hierarchy in the Forest: The Evolution of Egalitarian Behavior. Harvard University Press, 1999.

– Flannery, Kent V.; Marcus, Joyce. The Creation of Inequality: How Our Prehistoric Ancestors Set the Stage for Monarchy, Slavery, and Empire. Harvard University Press, 2012.

– Scott, James C. Against the Grain: A Deep History of the Earliest States. Yale University Press, 2017.

– Kelly, Raymond C. Warless Societies and the Origin of War. University of Michigan Press, 2000.

– Bellah, Robert N. Religion in Human Evolution: From the Paleolithic to the Axial Age. Harvard University Press, 2011.

– Norenzayan, Ara. Big Gods: How Religion Transformed Cooperation and Conflict. Princeton University Press, 2013.

– Davis, David Brion. The Problem of Slavery in the Age of Revolution, 1770–1823. Cornell University Press, 1975.

– Drescher, Seymour. Abolition: A History of Slavery and Antislavery. Cambridge University Press, 2009.

– Israel, Jonathan. Radical Enlightenment: Philosophy and the Making of Modernity 1650–1750. Oxford University Press, 2001.

– Hunt, Lynn. Inventing Human Rights: A History. W. W. Norton, 2007.

– Taylor, Charles. A Secular Age. Harvard University Press, 2007.

– Paxton, Robert O. The Anatomy of Fascism. Knopf, 2004.

– Griffin, Roger. The Nature of Fascism. London: Routledge, 1991.

*Cesar A. Zanin, Ítalo-brasileiro radicado em Bristol e cidadão britânico naturalizado. Mestrado com orientação conjunta no Departamento de Estudos Históricos e no Departamento de Estudos Hispânicos, Portugueses e Latino-Americanos da Universidade de Bristol; dissertação escrita entre abril e setembro de 2024, intitulada Brasilien über alles: Hitlerist rhetoric in Brazil and its consolidation in Bolsonarist discourse; título concedido em fevereiro de 2025. Professor Universitário Assistente e doutorando na Universidade de Bristol. O artigo “I am your voice”: The populist temptation in Trumpism and Bolsonarism (https://doi.org/10.1177/09579265261417353), escrito entre agosto e setembro de 2025, foi publicado pela SAGE no jornal acadêmico Discourse & Society em 19/02/2026. Há outro artigo a ser publicado em 2026 pela MLO/Liverpool University Press na coletânea Dictatorships in Portuguese.
Department of Historical Studies, University of Bristol, United Kingdom https://orcid.org/0009-0002-5011-0147

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