Redação Pragmatismo
Contra o Preconceito 25/Mar/2026 às 18:00 COMENTÁRIOS
Contra o Preconceito

Polícia usa fotos de Erika Hilton e Duda Salabert em álbum de suspeitos e levanta debate sobre transfobia institucional

Publicado em 25 Mar, 2026 às 18h00
 Polícia fotos Erika Hilton Duda Salabert álbum suspeitos levanta debate transfobia institucional
Duda Salabert e Erika Hilton

A inclusão indevida das imagens das deputadas federais Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG) em um álbum de reconhecimento de suspeitos de roubo, utilizado pela Polícia Civil de Pernambuco, provocou forte reação política e institucional. O caso veio à tona após a Defensoria Pública identificar as fotos das parlamentares em um material usado durante investigação de um crime ocorrido em fevereiro de 2025, no bairro da Boa Vista, no Recife — sem qualquer relação delas com o episódio.

A repercussão foi imediata. O prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, classificou o episódio como “revoltante e inaceitável”, cobrando apuração rigorosa e responsabilização.

Na mesma linha, a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, determinou a abertura de investigação pela Corregedoria da Secretaria de Defesa Social, afirmando que práticas desse tipo não serão toleradas no estado.

As próprias parlamentares reagiram com veemência

Duda Salabert solicitou formalmente explicações ao governo estadual e exigiu a retirada imediata das imagens de qualquer material de identificação de suspeitos. Para ela, o caso apresenta indícios de transfobia institucional, ao associar, de forma indevida, a imagem de pessoas trans à criminalidade. Erika Hilton foi além e classificou a prática como “racista e transfóbica”, afirmando que o critério utilizado para compor o álbum parece ter sido baseado em características identitárias, e não em evidências concretas.

A análise da Defensoria Pública de Pernambuco reforça a gravidade do episódio. A defensora Gina Muniz apontou falhas no procedimento e conseguiu a nulidade da prova de reconhecimento no processo em questão. Segundo ela, o uso de álbuns fotográficos sem critérios técnicos claros é uma prática criticada no meio jurídico, justamente por abrir margem para erros e injustiças. No caso específico, seis imagens foram apresentadas à vítima — entre elas, as das deputadas — o que levanta dúvidas sobre a formação do material e a condução da investigação.

A defensora também levantou a hipótese de que a seleção das imagens possa ter sido influenciada por fatores como raça e identidade de gênero, o que, se confirmado, caracterizaria um caso de racismo e transfobia institucional. Embora não tenha afirmado categoricamente essa motivação, destacou que o episódio dialoga com um padrão histórico de discriminação presente nas estruturas sociais e institucionais brasileiras.

Casos semelhantes já demonstraram os riscos desse tipo de procedimento. Reconhecimentos equivocados com base em álbuns fotográficos podem levar à prisão de inocentes, como ocorreu em episódios anteriores citados pela Defensoria. A ausência de critérios objetivos na seleção das imagens, aliada à possibilidade de indução no reconhecimento, compromete a validade da prova e fragiliza o processo judicial.

O episódio expõe não apenas uma falha operacional, mas um problema estrutural mais amplo: a persistência de práticas investigativas que, ao ignorarem parâmetros técnicos e legais, podem reproduzir estigmas e gerar injustiças. A investigação aberta pelo governo de Pernambuco deverá esclarecer responsabilidades — mas o caso já recoloca no debate público a necessidade de revisão de métodos e de maior rigor no uso de instrumentos de reconhecimento no sistema de justiça.

Nota da Polícia Civil de Pernambuco

Em nota oficial, a Polícia Civil de Pernambuco afirmou que está apurando rigorosamente o episódio e que todas as medidas cabíveis já foram adotadas. A corporação informou ainda que mantém diretrizes e protocolos contínuos para orientar a atuação dos seus servidores, com foco em uma conduta ética e responsável no exercício das funções.

O governo estadual também declarou que repudia qualquer prática de preconceito ou discriminação, destacando o compromisso institucional com a dignidade humana, o cumprimento da lei e o atendimento igualitário à população.

A manifestação ocorre após a repercussão do caso, que levou à abertura de investigação interna e à cobrança pública por esclarecimentos e responsabilização.

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