Redação Pragmatismo
Notícias 03/Jan/2026 às 15:55 COMENTÁRIOS
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Por que China e Rússia não farão nada após o ataque dos EUA contra a Venezuela?

Publicado em 03 Jan, 2026 às 15h55

Os EUA sequestraram o país que detém oficialmente a maior reserva de petróleo do mundo. Rússia e China, aliadas da Venezuela, não irão além das notas de repúdio que já divulgaram. Isto porque os dois países asiáticos também estão neste momento avançando em suas respectivas zonas de influência. A Rússia acumula recentes vitórias territoriais na Ucrânia e costura com a Casa Branca um acordo visto como amplamente favorável a Moscou. E a China acaba de lançar um megaexercício militar de bloqueio de Taiwan com o uso de destróieres, fragatas, caças, bombardeiros e drones

maduro trump
(Imagem de Maduro com os olhos vendados foi divulgada pelo próprio Trump em suas redes sociais)

por Felipe Borges
para o Pragmatismo Político

Os Estados Unidos avançaram sobre a Venezuela — país que detém oficialmente a maior reserva de petróleo do mundo — sem enfrentar qualquer reação concreta de seus principais aliados estratégicos, Rússia e China. Até agora, Moscou e Pequim limitaram-se a notas diplomáticas de condenação. Não é omissão por distração. É cálculo geopolítico.

Enquanto Washington intensificava a pressão sobre Caracas — com bombardeios no Caribe, a apreensão de navios petroleiros e, por fim, a captura de Nicolás Maduro — russos e chineses também moviam peças em seus próprios tabuleiros. Cada um em sua zona de influência. Cada um com prioridades que hoje falam mais alto do que a defesa do regime venezuelano.

A Rússia chega a este momento acumulando ganhos territoriais na Ucrânia e negociando com a Casa Branca um acordo visto como amplamente favorável a Moscou. Um cenário raro, no qual Vladimir Putin tem mais a perder rompendo pontes do que tolerando um avanço americano fora de seu entorno estratégico imediato.

A China, por sua vez, acaba de deflagrar um megaexercício militar de bloqueio de Taiwan, envolvendo destróieres, fragatas, caças, bombardeiros e drones. A ilha entrou em alerta máximo. Para Pequim, este é o eixo central da disputa com os Estados Unidos. A Venezuela, apesar da parceria política e econômica, está longe de ocupar o mesmo patamar de prioridade.

O diagnóstico circula com discrição entre diplomatas. “Mesmo que a China use a situação da Venezuela para fustigar os EUA, não vejo atuação concreta em defesa de Caracas diante da prioridade que é Taiwan. E não acredito que a Rússia vá optar por defender a Venezuela em detrimento de seus interesses na Ucrânia”, afirmou reservadamente um alto funcionário do Planalto, dois dias antes do Natal.

Após os ataques, as respostas oficiais confirmaram esse limite. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou a ação americana como “ato de agressão armada”, chamou as justificativas de “pretextos infundados” e defendeu o diálogo. Reiterou apoio às autoridades venezuelanas e endossou o pedido de reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU, solicitado também por países como o Brasil.

A chancelaria chinesa adotou tom semelhante. Disse estar “profundamente chocada” e condenou “o uso flagrante da força” pelos Estados Unidos contra um Estado soberano. Apelou ao respeito ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas. Nenhuma sinalização, porém, de reação além do campo retórico.

Para parte do corpo diplomático internacional, essa é, por ora, a única resposta possível. Nem Moscou nem Pequim demonstram disposição — ou interesse — em confrontar diretamente os Estados Unidos no hemisfério ocidental. O custo seria alto, o ganho incerto.

O pano de fundo é mais amplo. O ataque à Venezuela ocorre em meio a uma reorganização acelerada da ordem multipolar, na qual o direito internacional vem sendo relativizado pelas próprias potências que dizem defendê-lo. Cresce entre especialistas a leitura de que há um acordo tácito, ainda que informal, de divisão do mundo por áreas de influência.

Nos Estados Unidos, essa lógica foi resgatada sem pudor. A nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada pela Casa Branca em dezembro, reafirma a intenção de ampliar a presença militar e política na América Latina. O documento menciona explicitamente a retomada da Doutrina Monroe, formulada em 1823 para afastar potências externas do continente.

“Depois de anos de abandono, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental”, afirma o texto.

Duzentos anos depois, a ideia retorna sob outra roupagem, mas com o mesmo princípio: a América Latina como espaço de tutela estratégica. A Venezuela surge como teste dessa diretriz — e, até aqui, como sinal de que Washington acredita ter margem para agir sem grandes consequências internacionais.

Isso não significa ausência de riscos. A Rússia é uma das principais fornecedoras de armamentos para Caracas e mantém interesses políticos e militares no país. A China é o maior parceiro comercial de economias centrais da região, como Brasil, Chile e Peru, que podem ser afetadas por instabilidade prolongada e novas ondas migratórias.

A diferença é que, neste momento, nenhum desses fatores parece suficiente para deslocar o foco estratégico das duas potências asiáticas. A Ucrânia e Taiwan concentram as atenções. A Venezuela, por mais simbólica que seja, tornou-se peça secundária.

O episódio expõe uma realidade incômoda: em um mundo cada vez mais multipolar, as grandes potências continuam operando com lógicas imperiais clássicas. Mudam os discursos, sofisticam-se as justificativas, mas a divisão do globo em zonas de influência segue ativa — e a América Latina, mais uma vez, aparece como território onde essa disputa se exerce com menor custo político.

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