Redação Pragmatismo
Notícias 05/Jan/2026 às 17:22 COMENTÁRIOS
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Maduro está detido em prisão considerada “inferno na Terra” e enfrenta a custódia sem lágrimas, ao contrário de Bolsonaro

Publicado em 05 Jan, 2026 às 17h22

Sem lágrimas e soluços: mesmo detido em uma das prisões mais duras do mundo, conhecida pela insalubridade e brutalidade, Maduro evita vitimização e até aparece debochando de agentes dos Eua. Bolsonaro, em situação incomparavelmente mais branda, escolheu a vitimização, o espetáculo e o choro

nicolas maduro eua

por Ana Oliveira e Felipe Borges
para o Pragmatismo Político

Advogados americanos já a descreveram como “o inferno na Terra”. Juízes federais se recusaram a enviar condenados para lá. Ainda assim, é nesse lugar — o Centro de Detenção Metropolitano (MDC), no Brooklyn, em Nova York — que Nicolás Maduro está detido após ser capturado por forças dos Estados Unidos em uma operação sem precedentes recentes na América Latina.

Mesmo diante desse cenário, o ex-presidente venezuelano não chorou, não pediu clemência, não encenou perseguição. Pelo contrário: apareceu sorrindo, ironizando agentes americanos e desejando “Feliz Ano Novo” em inglês, algemado, de sandálias e escoltado por agentes antidrogas. Uma postura que contrasta fortemente com a de Jair Bolsonaro, que, diante de uma situação jurídica incomparavelmente mais branda, escolheu o choro, a vitimização e a espetacularização pública da própria prisão.

Maduro foi capturado em Caracas no sábado (3) e rapidamente retirado do país. O trajeto incluiu transporte aéreo até o navio USS Iwo Jima, passagem pela Base Naval de Guantánamo, em Cuba, e, por fim, um voo até Nova York. Antes de ser encaminhado ao MDC, passou pela sede da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos. Ele responde a acusações de tráfico internacional de drogas e narcoterrorismo. Sua esposa, Cilia Flores, também está detida no mesmo complexo.

O contraste entre as reações públicas de Maduro e Bolsonaro chama atenção não apenas pelo temperamento, mas pelo contexto. Enquanto o venezuelano enfrenta acusações gravíssimas, em jurisdição estrangeira, sob custódia de uma potência hostil, Bolsonaro reagiu à ação da Justiça brasileira com encenações, lágrimas, discursos de perseguição e uso político do próprio sofrimento — em um ambiente institucional que lhe garantiu direitos, exposição midiática e tratamento compatível com o Estado de Direito.

Uma prisão conhecida pela brutalidade

O MDC do Brooklyn é um edifício vertical de concreto e aço, inaugurado nos anos 1990 para aliviar a superlotação carcerária de Nova York. Localiza-se próximo ao porto da cidade, a poucos quilômetros de pontos turísticos como a Quinta Avenida e o Central Park. Apesar da localização estratégica, o centro tornou-se sinônimo de degradação.

Projetado para abrigar cerca de mil detentos, chegou a receber mais de 1.600 em 2019. Atualmente, mantém mais de 1.300 presos, operando com pouco mais da metade do quadro de funcionários recomendado. A combinação de superlotação, falta de pessoal e deterioração estrutural resultou em episódios recorrentes de violência, brigas, mortes e suicídios.

Em 2019, uma falha elétrica deixou os detentos sem aquecimento durante dias, em pleno inverno. Relatos apontam ausência de atendimento médico adequado, falhas graves de saneamento, presença de vermes na comida e episódios constantes de agressão entre presos. Pelo menos quatro suicídios foram registrados entre 2021 e 2024.

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, classificou as condições da unidade como “inaceitáveis e desumanas”. Advogados e ex-defensores públicos federais foram ainda mais duros. Um deles descreveu o MDC como uma “representação viva do inferno na Terra”. Em 2024, o juiz distrital Gary Brown chegou a ameaçar anular uma sentença de prisão caso um réu idoso fosse enviado para lá, citando “anarquia”, “falta de supervisão” e “gestão letal”.

Ainda assim, foi para esse ambiente que Maduro foi levado — e onde aguarda julgamento.

Detentos ilustres e uma escolha política

Apesar da fama negativa, o MDC é frequentemente utilizado para custodiar presos de alto perfil. Por suas celas já passaram o ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado por narcotráfico; o ex-secretário de Segurança Pública do México Genaro García Luna; Joaquín “El Chapo” Guzmán; e figuras centrais do crime organizado internacional.

Também estiveram ali Ghislaine Maxwell, associada de Jeffrey Epstein; Sam Bankman-Fried, ex-CEO da FTX; Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump; e até o rapper Sean “Diddy” Combs, antes de ser transferido para outra unidade.

A escolha do MDC para abrigar Maduro não é casual. Trata-se de uma prisão simbólica, dura, conhecida internacionalmente, situada no coração do sistema judicial americano. Um recado político tão claro quanto a própria captura.

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