Redação Pragmatismo
Saúde 14/Abr/2020 às 23:15 COMENTÁRIOS
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A desinformação como munição para a guerra atual

Publicado em 14 Abr, 2020 às 23h15

Estamos vivendo uma guerra da desinformação onde muitas pessoas são seduzidas pelo próprio desejo do sistema capitalista, pessoas que são constantemente massacradas pelo consumo e pela exploração

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Imagem: reprodução

Wesley Martins Santos* e Anderson Domanoski*, Pragmatismo Político

A batalha já dura oito dias. Começou na última sexta-feira. Sábado, domingo, terça, quarta, quinta já se passaram; a sexta veio e já passou, e ela ainda continua. Dos dois lados, centenas de milhares de homens estão presentes; e, sem recuar, lançam continuamente projéteis explosivos. A cada segundo, seres humanos cheios de vida tornam-se cadáveres. O alarido e o abalo constante do ar, que faz tremer o próprio céu, atraem nuvens negras e ameaçadoras sobre o campo da carnificina. Que importa? Os guerreiros não recuam, e matam uns aos outros.

Quando um homem fica acordado durante 72 horas, ele adoece e perde a memória. Ora, já faz uma semana que eles não dormem: estão todos loucos. É por isso que não sofrem nem recuam; irão bater-se enquanto lhes restar um sopro de vida. Conta-se que em certos locais, como faltava munição, os soldados lutaram às pedradas e depois se estraçalharam uns aos outros como animais selvagens!

Se esses homens voltarem, voltarão em frangalhos; mas não voltarão, continuarão lá; estão todos loucos, continuarão se matando. Estão loucos. Tudo está transtornado na sua cabeça; não compreendem mais nada; se alguém os fizesse dar uma rápida meia-volta, atirariam sobre seus companheiros, acreditando mirar o inimigo.
(…)As sombras desaparecem tão bruscamente como vieram; o silêncio renasce, cadáveres mutilados juncam o chão… Quem fez isso? Sabes tu, meu irmão, quem o fez?

Leonid Andreiev, O riso vermelho, Ed. Ombres, Toulouse, 1991.

Não se sabe ao certo quando os primeiros líderes humanos surgiram, mas durante o período Paleolítico podemos entender que havia alguma espécie de líder, aquele que incitava o grupo a fazer as coisas de acordo com as necessidades mais importantes: alimentação e locais mais habitáveis.

Conforme a população foi crescendo, esses líderes e os grupos mais próximos a ele foram adquirindo mais privilégios: melhores terras, melhores alimentos entre outros benefícios. Dessa forma, foi sendo naturalizado que esses grupos, esses líderes e seus descendentes mais próximos deveriam possuir tais privilégios. Esses privilégios deram consequências para o aumento da desigualdade entre essas pessoas, ou seja, com o passar do tempo os litígios seriam impossíveis de serem controlados, as guerras começavam a ganhar espaço no cenário histórico.

As guerras, em sua maioria, têm suas origens em vários interesses econômicos, culturais, sociais e políticos de uma determinada parcela da sociedade. Essa parcela é constituída por inúmeros privilégios que foram naturalizados dentro de cada contexto histórico, na Idade Média, por exemplo, a sociedade estamental beneficiava os nobres e as pessoas que faziam parte do clero, enquanto o restante da população (maioria) deveria arcar com os tributos e a força de trabalho.

Mas o que estamos querendo dizer com isso? Voltando ao início do texto “O riso vermelho” percebemos que no seu enredo chega um momento que os envolvidos diretamente na guerra já nem sabem o que estão fazendo, estão ali por um interesse que não são desses soldados, é um interesse que não pertencem aos combatentes, ou seja, não faz sentido essa guerra.

A ideia é dizer que as guerras possuíam seus interesses particulares e que elas têm uma finalidade escondida, uma finalidade secreta que determinados desejos não podem transparecer para a população envolvida, ou seja, se a linha de frente souber com exatidão do real interesse que determinada guerra quer, dificilmente se terá uma linha de frente.

Trocando o front da batalha, saímos dos campos de guerras e vamos para uma batalha atual que não é nova porém, segue firme e perigosa: Informação versus desinformação em um campo de batalha alimentado pelos recrutas da internet.

Estamos passando, no Brasil, por uma guerra da desinformação, uma guerra pautada em inúmeras notícias falsas que se tornam “verdades absolutas” na mente de boa parte da população apoiadora de um governo retrógado e fascista. O Brasil tem como chefe do executivo um mentiroso compulsivo, um irresponsável que posta nas principais redes sociais, notícias sem nenhuma comprovação científica, notícias que não existem, notícias destorcidas. Para se ter ideia da quantidade de informações incoerentes o site “Aos fatos” fez uma matéria que diz que Bolsonaro falou em 463 dias cerca de 837 declarações falsas ou distorcidas [1].

Além disso, essas mentiras vão tomando um rumo cada vez mais perigoso, pois o líder do executivo foi contra a determinação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de se manter o isolamento social para tentar conter a contaminação da pandemia do COVID-19, presidente do Brasil quer o povo na rua, quer o povo trabalhando, pois segundo os seus relatos é muito notável que ele se preocupa mais com a economia do que com as vidas.

Leia também: Brasil é o 7º país com mais mortes pelo coronavírus nas últimas 24 horas

Esse discurso de não isolamento, é claro, seduziu muitas pessoas, dentre essas pessoas muitos empresários que se diziam extremamente preocupados com a população “o que eles vão comer?” “A população não pode ficar sem trabalhar”, “o desemprego atraí miséria, a miséria a fome e a fome a morte”. Alguns empresários chegaram a comparar o número da população brasileira com algumas mortes, ou seja, se morrer 1% ou 2% da população brasileira não é nada, é um número ínfimo, isso não traria muitas consequências para a economia do país.

É evidente que a preocupação desses neoliberais é com suas fortunas, eles não têm se quer um mínimo de humanidade, estão presos nessa concepção de consumo, de busca por mais bens materiais e que para manter esse luxo é preciso explorar a classe trabalhadora, pois sem ela o seu capital está correndo risco.

Essa fala de empresários e bilionários, infelizmente, atraí muita gente da classe trabalhadora, uma espécie de guerra implantada com a mesma classe que não possuí os bens materiais, é como se o combatente lutasse uma batalha contra si próprio defendendo o interesse do líder que o seduz dando esperança de um dia viver como ele vive, o que sabemos que não vai ser possível na maioria dos casos:

As forças de trabalho na maioria das partes do mundo há muito que foram socializadas para se comportarem como bons sujeitos neoliberais (o que significa culpar a si mesmos ou a Deus se algo de ruim acontecer, mas nunca ousar sugerir que o capitalismo pode ser o problema). Mas mesmo os bons sujeitos neoliberais podem ver que há algo errado com a forma como esta pandemia está sendo enfrentada [2].

De passagem, será preciso mostrar publicamente e sem medo que as chamadas “redes sociais” demonstraram mais uma vez que são, acima de tudo – para além do seu papel na engorda dos bolsos dos bilionários –, um lugar de propagação da paralisia mental dos fanfarrões, dos rumores descontrolados, da descoberta de “novidades” antediluvianas, ou mesmo do obscurantismo fascista [3].

Estamos vivendo uma guerra da desinformação onde muitas pessoas são seduzidas pelo próprio desejo do sistema capitalista, pessoas que são constantemente massacradas pelo consumo e pela exploração, pessoas que jogam a culpa do que se passa agora em governos anteriores, pessoas que acreditam que estamos correndo perigo dos comunistas tomarem o Brasil, pessoas que ainda acreditam que determinado governo pode acabar com a desigualdade social ou acabar com a corrupção.

Se o governo estivesse preocupado com a população, bastava retirar algumas mordomias de alguns políticos:

Salário de R$ 33.763, auxílio-moradia de R$ 4.253 ou apartamento de graça para morar, verba de R$ 101,9 mil para contratar até 25 funcionários, de R$ 30.788,66 a R$ 45.612,53 por mês para gastar com alimentação, aluguel de veículo e escritório, divulgação do mandato, entre outras despesas. Dois salários no primeiro e no último mês da legislatura como ajuda de custo, ressarcimento de gastos com médicos. Esses são os principais benefícios de um deputado federal brasileiro, que somam R$ 179 mil por mês. Juntos, os 513 custam, em média, R$ 91,8 milhões ao contribuinte todo mês. Ou R$ 1,1 bilhão por ano. Os dados são de levantamento do Congresso em Foco com base nos valores atualizados dos benefícios dos parlamentares na Câmara [4].

Portanto, essa ideia de priorizar a economia e os empregos não passam de uma ação para continuar mantendo a exploração em cima dos mais pobres, enquanto o governo federal injeta 1,2 trilhão para “salvar” os bancos, a população mais carente sofre para pegar o auxílio de 600 reais, ou seja, essa guerra proposital da desinformação serve para manter os privilégios e interesses da classe dominante, não há nada de novo no front, apenas as formas de controle e poder são inovadas.

*Wesley Martis Santos é mestre em História, professor da rede pública e do Cursinho Henfil; *Anderson Domanoski é autodidata.

Citações:

[1] “Em 463 dias como presidente, Bolsonaro deu 837 declarações falsas ou distorcidas”. Aos Fatos. Disponível em: https://aosfatos.org/todas-as-declara%C3%A7%C3%B5es-de-bolsonaro/. Acesso em: 13/04/2020.

[2] HARVEY, David, et al: Coronavírus e a luta de classes. Terra sem Amos: Brasil, 2020.p.22.

[3] BADIOU, Alain, et al: Coronavírus e a luta de classes. Terra sem Amos: Brasil, 2020. P.42.

[4] Deputados custam R$ 1 bilhão por ano ao contribuinte. Congresso em foco. 01/06/2016. Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/lista-todos-os-salarios-e-beneficios-de-um-deputado/. Acesso em: 13/04/2020.

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