Redação Pragmatismo
Armas de Fogo 23/May/2019 às 20:00 COMENTÁRIOS

Por que o fim do “monopólio” da Taurus interessa ao clã Bolsonaro?

Por que a família Bolsonaro quer acabar com o “monopólio” da Taurus? Medida pode impactar desenvolvimento da indústria nacional de Defesa e indica submissão a interesses estrangeiros

fim monopólio Taurus interessa ao clã Bolsonaro armas de fogo
Jair Bolsonaro e seus filhos, Flávio, Carlos e Eduardo (Imagens: Reprodução redes sociais)

Lu Sudré, Brasil de Fato

Após Jair Bolsonaro (PSL) assinar decretos que flexibilizam o porte e a posse de armas no país, as ações da Taurus, fabricante brasileira de armas, estão em intensa movimentação. Apenas nos três primeiros meses de governo, a empresa registrou lucro líquido de R$ 92 milhões, aumento de 15,5% em comparação com o primeiro trimestre de 2018.

Apesar dos lucros resultantes do incentivo às armas feito pelo político do PSL, a fabricante é criticada constantemente por Bolsonaro e por seus filhos, que defendem a “quebra do monopólio” da Taurus no mercado brasileiro. Eles alegam que as armas fabricadas pela empresa com frequência apresentam defeitos que vitimam policiais e civis por disparos acidentais.

A “reserva de mercado” da fabricante é garantida pelo regulamento do Exército para produtos controlados. O artigo 190 do chamado R-105 determina que “o produto controlado que estiver sendo fabricado no país, por indústria considerada de valor estratégico pelo Exército, terá a importação negada ou restringida”.

Existem ainda outras fabricantes de material bélico nacionais como a estatal Imbel, vinculada ao Ministério da Defesa, mas que apresentam uma produção muito menor em comparação a da Taurus.

Saiba mais: Ação da Taurus dispara 20% após decreto de Bolsonaro

A preferência para a produção nacional também foi reafirmada pela portaria 620/06 do Ministério da Defesa, que define que “a importação de produtos controlados poderá ser negada, quando existirem similares fabricados por indústria brasileira do setor de defesa”. A restrição à importação tem como justificativa proteger um setor estratégico para a soberania nacional.

Na avaliação de Larissa Rosevics, professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ), a abertura de mercado para importação de armas defendida do Bolsonaro pode enfraquecer a indústria de Defesa Nacional.

Com a ressalva de que o setor é amplo e envolve muito mais do que armamentos letais e não letais, como por exemplo aviação, vestuários e equipamentos, ela opina que, a partir da experiência de outras áreas, a abertura defendida pelo governo pode ser prejudicial.

Na década de 90 muitos setores da economia não tiveram uma proteção e não conseguiram fazer frente à concorrência internacional, que tinham produtos com preços mais baixos, e as empresas acabam falindo. Um setor estratégico interessante para fazer paralelo é o setor de informática, um setor onde houve a tentativa de se criar mecanismos para que o setor se desenvolvesse, até porque é uma área extremamente importante. No entanto, houve abertura de mercado sem nenhum tipo de mecanismo que garantisse uma concorrência para a indústria nacional e tivemos a falência de várias empresas do setor”, explica Rosevics.

O decreto de Bolsonaro, segundo a especialista, não faz nenhuma observação no sentido de impedir que o mesmo aconteça com a Defesa do país. Empresas estrangeiras como a austríaca Glock, CZ e Berreta já demonstraram disposição para comercializar armas de fogo, munições e outros equipamentos em território brasileiro.

O governo não se preocupou em garantir à indústria nacional condições de igualdade e concorrência com empresas estrangeiras, pelo menos da maneira como está no decreto publicado. Não se criou nenhum tipo de restrição, cota, taxa ou porcentagem de conteúdo nacional. O que pode acontecer é que esse produto estrangeiro vai chegar ao Brasil com preço mais baixo e com uma qualidade superior ao nacional. Algumas restrições em relação a essas importações poderiam estimular o surgimento de empresas nacionais e desenvolvimento da indústria nacional”, critica a também pesquisadora do Observatório de Política Externa Brasileira da Universidade Federal do ABC, na área de comércio internacional.

Outros interesses

A defesa do clã Bolsonaro pela importação de armas busca atender interesses econômicos e políticos de países estrangeiros. É o que afirma, em off, um diplomata brasileiro em entrevista ao Brasil de Fato.

O especialista faz uma análise mais rigorosa em relação a abertura do mercado de armas. Para ele, o presidente é submisso ao “imperialismo internacional” e visa atender demandas de exportação dos Estados Unidos e de Israel.

A atual política externa é contra os interesses do Brasil. Mais uma vez vamos demonstrar isso e vão nos enterrar mais ainda. Vamos importar um produto que temos condição de produzir. Um produto de valor agregado”, comenta.

Ele ressalta a importância estratégica do setor do Defesa para qualquer país e cita que os Estados Unidos tem seu desenvolvimento tecnológico impulsionado pela área. A internet e avanços da aviação civil americanas, por exemplo, são frutos de pesquisa no setor.

Os países do norte se desenvolvem protegendo sua indústria e depois chutam a escada, não querem que os países do sul façam o mesmo”, acrescenta, em alusão ao livro “Chutando a escada”, do economista sul-coreano Ha-Joon Chang. A obra discorre sobre como potências mundiais impedem que países em desenvolvimento adotem políticas e instituições que eles próprios usaram para alcançar o crescimento.

A fonte que atuou no Itamaraty acredita que o argumento dos Bolsonaros sobre a qualidade de armas da Taurus é apenas um pretexto que esconde outros interesses.

Isso é só uma desculpa, uma cortina de fumaça. Até porque não estamos em guerra. A não ser que eles estejam planejando uma guerra interna. Para que essa qualidade de arma? Há algo de errado nesse argumento deles. É uma cortina de fumaça evidente para privilegiar a importação de armas porque certamente eles são representantes de lobbies externos. É pra isso que estão lá”.

A importação de armamentos é bandeira pessoal dos Bolsonaros. Até mesmo políticos da base aliada, como o senador Marcos do Val, mantém outro tipo de relação com a empresa. Como instrutor, o parlamentar tem um histórico de relacionamento com a fabricante de armas.

Em 2017, antes de se eleger para o Senado, criou junto à empresa o prêmio Heróis Reais, que escolheria as “melhores ocorrências” dos agentes de segurança pública. Do Val é conhecido por vídeos publicados na internet em que testa e elogia armas da Taurus.

Totalmente contrário a posse e ao porte de armas, Celso Amorim, ex-ministro da Defesa, argumenta que, do ponto de visto do Estado, deve haver uma preferência à tecnologia brasileira.

Eu sou contra facilitar o porte de armas e, se o objetivo de liberar a importação é baratear, eu sou mais contra ainda. Se é para o Estado brasileiro, estados federados, União, Exército, polícias federais ou Força Nacional, acho que o melhor é ter armas nacionais. Se a ideia é não fortalecer monopólio da Taurus, é o caso, talvez, de induzir outro investimento para criar a competição dentro do Brasil e não facilitar a importação”, sugere.

Segundo Amorim, não é possível fazer uma correlação direta entre a defesa da abertura comercial no setor de armas e a submissão irrestrita aos Estados Unidos e outras potências. No entanto, ele aponta que a subordinação ao governo estadunidense está explícita em muitas outras políticas do governo Bolsonaro.

O alinhamento com os Estados Unidos está provado em mil outras coisas. Vende-se a Embraer, anuncia a abertura de um escritório em Jerusalém. Uma política totalmente subserviente à linha mais reacionária de Washington em relação a Venezuela. Se ameaça sair do acordo do Clima. Não entra no acordo de migrações. [A submissão] está mais do que provada”, fundamenta.

O ex-ministro relembra que, em visita ao país estadunidense, Bolsonaro fez questão de visitar a CIA, serviço de inteligência norte-americano.

Não me recordo de nenhum chefe de Estado visitar a CIA. Não é só subserviência à bandeira americana, é subserviência ao serviço de inteligência norte americano que espionou o Brasil. É como se fossem agradecer: ‘Olha, vocês espionaram a presidenta Dilma. Espionaram a Petrobras, a indústria nuclear. Vim aqui agradecer’. Se não é isso, parece. Em política, o simbolismo tem muito sentido”, conclui Celso Amorim.

Leia mais:
Bolsonaro recua e altera decreto sobre armas de fogo
Ministério Público pede suspensão imediata do decreto de armas de Bolsonaro
Jair Bolsonaro deu presente envenenado aos menores de idade no Brasil
Após decreto de Bolsonaro, qualquer cidadão pode comprar um fuzil
Decreto de Bolsonaro sobre armas de fogo beneficia milícias
A cultura da banalização da vida

Siga-nos no InstagramTwitter | Facebook

Comentários