Delmar Bertuol
Colaborador(a)
Política 24/Sep/2018 às 13:24 COMENTÁRIOS

Às fraquejadas

O Movimento Ele Não teve origem com mulheres de atitude. E quando Jair Bolsonaro não for eleito (se as pesquisas estiverem certas, ele só perderá no segundo turno, o que é um fator a lamentar e se preocupar), é a elas que devemos nosso agradecimento, às “fraquejadas”

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Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Nas Manifestações de Junho de 2013, momento considerado como fato histórico, a História fez/faz uma injustiça. O Movimento é tido como apolítico e iniciado em São Paulo. Falso.

As manifestações tiveram origem em Porto Alegre, com estudantes universitários e secundaristas protestando na Capital gaúcha contra o aumento da passagem de ônibus. O centro da cidade parou. E a polícia reprimiu, pois movimentos sociais no Brasil, desde pelo menos os abolicionistas, são casos de polícia.

E não foi um levante apartidário, como se rotulou depois. Teve partidos políticos de esquerda por trás da organização. PT, PDT (PDT ainda é de esquerda?), PC do B, mas, sobretudo, os pequenos PSOL e PSTU. E quando digo que as passeatas tiveram participação direta de partidos, não estou as minimizando. Pelo contrário. É legítimo a participação partidária em movimentos sociais. Aliás, é pra defender a sociedade que eles em tese existem.

Como tinha um caráter popular, o movimento foi duramente criticado pela imprensa gaúcha. É que atrasava o trânsito, trancava os carros. A sagrada via asfáltica.

Influenciados pelos colegas gaúchos, os estudantes paulistanos, igualmente ajudados por partidos políticos, obviamente de esquerda, fizeram o mesmo movimento na maior cidade do Brasil, reivindicando não só a baixa da tarifa como também melhorias no transporte coletivo, no que ficou conhecido como o “não é só pelos vinte centavos.”

A imprensa do centro do País criticou, como fizera há mais de cem anos com os abolicionistas. Pra legitimar a crítica, fizeram a rasteira acusação de que, além de trancar o deus trânsito, os jovens estariam depredando o patrimônio público e privado.

Não contavam, porém, com a força de algo que estava se apresentando já como contraponto ao hegemônico poder televisivo, as redes sociais.

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Tão logo imagens dos chamados Black Blocks destruindo fachadas foram exibidas, internautas postaram vídeos amadores demonstrando que esses criminosos não só eram uma ínfima minoria em meio à multidão de milhares, como também exibiram flagras de cinegrafistas que só filmavam as depredações, deixando de lado o movimento pacífico e legítimo. Houve vídeos que denunciavam a presença de policiais infiltrados que incitavam a desordem, pra polícia ter desculpa para agir com violência.

E no Jornal Nacional, que é sempre tão simpático aos bancos, a retratação da então âncora Patrícia Poeta à crítica feita aos jovens na edição do dia anterior é coisa que o MasterCard não compra. E, em outro canal, o hoje falecido Marcio Rezende que, no dia anterior e no sensacionalista Programa Cidade Alerta pedia pra polícia “agir com vigor”, no outro dia, após os vídeos amadores caírem na rede, bradava emocionado: “esses jovens não são criminosos. Eles estão mudando o Brasil!

Como o rótulo de criminosos não pegou e os manifestantes começaram a serem bem-vistos, a classe média resolveu sair do conforto de seu sofá e de sua pantufa e ir pra rua. E como a classe média é de direita, mas não se assume, rotulou os movimentos como um repente involuntário e apartidário da população, que não aguenta mais “isso tudo”.

Isso tudo” o quê? Aí a nevralgia. A classe média queria fazer algo. Surfar na onda de descontentamento. Mas não sabia do que reclamar. Surgiu o movimento conhecido como “contra tudo que está aí” ou “contra tudo e contra todos”. Ora, é uma questão filosófica da metafísica. Se algo é contra tudo, na verdade não é contra nada. Se é contra todos, não é contra ninguém.

E o movimento virou um verdadeiro carnaval fora de época.

Iam às ruas pessoas pedindo desde o fim das tomadas de três pinos, até o impeachment. Marchavam na mesma avenida e até dividiam a mesma cerveja long neck (que a classe média adora cerveja long neck) pessoas pedindo a volta da Ditadura Militar (sim, eles utilizam a democracia pra reivindicar o totalitarismo), o retorno à Monarquia e novas eleições já!

Os pais pintavam o rosto das crianças de verde e amarelo e as levavam junto. Na legenda das selfies (que se o ato não for registrado por selfie, ele não existiu), colocavam: meu filho cuidando do próprio futuro.

Políticos envolvidos em falcatruas de corrupção bradavam gritos de ordem e se deixavam fotografar pelos repórteres.

Meses depois, a passagem subiu em ambas as cidades. E os políticos corruptos de reelegeram. Mas a classe média, depois que os estudantes foram os pioneiros e apanharam da polícia, saiu às ruas “para reivindicar. E tem até hoje as fotos salvas no seu computador. Pra orgulho da família. E os partidos envolvidos até hoje não têm o reconhecimento que merecem.

Nestas eleições, as mulheres resolveram tomar o protagonismo e não deixar que Jair Bolsonaro (um machista que nem precisa de fake news pra sustentar esse rótulo, suas ações e falas já bastam) se eleja presidente. As mulheres representam em torno de cinquenta por cento do eleitorado. Têm força pra não eleger ou mesmo eleger quem elas quiserem. O movimento ficou conhecido como Ele Não.

Nessa esteira, outros grupos aderiram à ideia. Estudantes, professores, profissionais de saúde e outros. É legítimo. Mais do que isso, ajuda. Dessa vez, não há que se preocupar com a classe média transformando o levante numa festa. É que ela está do outro lado.

Mas que não se cometa com as mulheres a mesma injustiça feita há cinco anos com estudantes e partidos de esquerda, que literalmente deram a cara a bater e depois foram excluídos.

O Movimento Ele Não teve origem com mulheres de atitude. E quando Jair Bolsonaro não for eleito (se as pesquisas estiverem certas, ele só perderá no segundo turno, o que é um fator a lamentar e se preocupar), é a elas que devemos nosso agradecimento, às “fraquejadas”.

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*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha”

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