Redação Pragmatismo
Juristas 19/Apr/2018 às 14:36 COMENTÁRIOS

O que a mídia não disse sobre o evento com Moro e Barroso “em Harvard”

As questões que merecem esclarecimentos sobre o evento com o juiz Sergio Moro e o ministro Luis Roberto Barroso “em Harvard”

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Sérgio Moro e Luiz Roberto Barroso

Mauro Donato, DCM

Em Harvard, Moro diz que lei e democracia estão sendo fortalecidas”, estava no G1 da Globo; “Em Harvard, Moro cita O Poderoso Chefão”, na manchete do Uol, e foi esse o diapasão na grande mídia a respeito do evento desta última segunda-feira.

Bem, esse ‘em Harvard’ confere um peso, uma importância, uma aura de sublimação que a coisa não teve.

O simpósio ‘Harvard Law Brazilian Association Legal’ foi organizado e realizado por um centro acadêmico formado por alunos e ex-alunos brasileiros da Escola de Direito de Harvard. Ou seja, não foi exatamente a Harvard Law School.

Guardadas as proporções, é como se umas tantas palestras tivessem ocorrido no Centro Acadêmico XI de Agosto e a grande mídia noticiasse como sendo um congresso da USP. Calma lá.

Entre os palestrantes, o onipresente Sergio Moro, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, o ministro do STF, Luís Roberto Barroso e também o Marcelo Bretas que palestrou no painel “Luta contra a corrupção”.

Bretas, para quem não se lembra, é o juiz que acumula o auxílio-moradia com o de sua mulher (o que é ilegal) e que tem patrimônio de mais de R$ 6 milhões em imóveis.

Aqueles que estiveram acompanhando mais de perto também tomaram conhecimento de que o tal simpósio era um ‘evento anual’ da Escola de Direito da Universidade de Harvard, transparecendo algo tradicional. Também não é isso.

Foi suprimida da maioria das reportagens que esta era a primeira edição do evento. E que, coincidentemente (ou não), Luna Barroso, filha de Luís Roberto Barroso, está estudando em Harvard há pouco tempo.

Ela faz pós-graduação em Direito na universidade americana desde agosto do ano passado. E seu pai foi palestrante.

Um curso desses em Harvard tem um custo anual de aproximadamente US$ 45.000, mais US$ 3.959 em taxas e cerca de US$ 800 a US$ 1.200 em livros. Sem moradia nem alimentação. Entre os patrocinadores do simpósio, a FIESP e a Firjan.

A quem interessa tudo isso? Por que magistrados ausentaram-se do país para palestrar para brasileiros fora do Brasil? O que há de objetivo nisso?

Aparecer na mídia internacional e prestar contas ao mundo, mostrar que aquela ‘Liga da Justiça’ está pronta para aniquilar o Coringa, o Pinguim e o Charada?

Há alguns dias as emissoras repetiram à exaustão uma entrevista de Moro para um sitezinho chinês como se fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento.

Mais pareceu que o intuito era mostrar que o juiz fala inglês. Complexo de vira-lata é pouco.

Em inglês também ele falou (há controvérsias quanto ao idioma, mas vamos em frente) o seguinte, no simpósio para brasileiros:

Na primeira cena de ‘O Poderoso Chefão’, Don Corleone recebe um homem, Bonasera, que pede ajuda do poderoso chefão porque sua filha apanhou do namorado e de um amigo. Bonasera foi lá pedir ajuda do poderoso chefão para que ele mandasse homens para bater nos dois. Depois de algum drama, o poderoso chefão concorda em ajudar, sem matar os homens como Bonasera queria, mas mandando pessoas baterem neles. Bonasera pergunta no fim da cena o que Don Corleone quer em troca, e o Poderoso Chefão dá uma resposta bem interessante. Ele disse: ‘Não quero nada agora, mas um dia, talvez um dia, eu vá te pedir algo e então precisarei que você retorne o favor’”.

Como a citação restou enigmática, Moro explicou o que estava querendo dizer com aquilo: “(Serve para mostrar que) nos esquemas de corrupção sistêmica, não necessariamente você vai encontrar uma troca específica, o ‘isso por aquilo’”.

Na mesma hora em que o juiz falava em outro continente, o MTST ocupava o tríplex do Guarujá com a finalidade de que a ‘troca específica’ precisa ser provada no mundo jurídico, fora dos cinemas e da máfia.

Qual o intuito desse tipo de ‘simpósio’? O que foi dito ali de esclarecedor?

Nada.

Em agosto de 2016, mais uma vez nos EUA, em Washington (quem paga todas essas viagens?), Sergio Moro respondeu em uma palestra o porquê de não agir com o PSDB com a mesma volúpia que apresenta para com petistas.

Na ocasião, o juiz disse que não julgava casos relacionados ao PSDB porque investigações sobre o partido não chegavam a ele. Bom, aí ele disse uma verdade. Mas precisa ir até os Estados Unidos para isso?

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