Redação Pragmatismo
Saúde 26/May/2017 às 16:38
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Quem é mais doente, o higienista ou o dependente químico?

Barbárie de João Doria na Cracolândia: quem é mais doente, o higienista ou o dependente químico?

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João Doria caminhando pelo Cracolândia (reprodução)

Jesse Navarro, DCM

Candidato a presidente, o “jestor” trapalhão e higienista João Doria se superou no uso da violência para ser notícia. Ele já tinha mostrado que era capaz de arrancar cobertor de morador de rua, mas isso não foi o suficiente. Desta vez, ele promoveu a barbárie em cima dos dependentes químicos com a desculpa de extinguir a Cracolândia.

Em parceria com Alckmin, lançou truculentamente 900 policiais e seus cachorros para cima dos usuários de drogas, passou o trator em hotéis e tendas com gente dentro e tudo e promoveu a internação involuntária e forçada dos dependentes químicos. Sua ação foi chamada de barbárie pelo Conselho Federal de Psicologia.

Aliás, não precisa ser especialista em psicologia para perceber que Doria é um bárbaro, um perigo para a cidade e sua população. Não vai demorar para esse sujeito provocar algo parecido ao que aconteceu no Rio de Janeiro no início do século passado, quando o médico higienista Oswaldo Cruz queria obrigar todos os cariocas a receberem uma suspeitíssima vacina contra a varíola, decisão que provocou até estado de sítio na cidade maravilhosa.

Os agentes sanitários invadiam as casas e vacinavam as pessoas à força até nas partes íntimas. O centro do Rio de Janeiro virou um campo de batalha. A população reagiu quebrando lojas, bondes, foram feitas barricadas e arrancados trilhos, postes foram quebrados, até que governo foi obrigado a declarar mesmo estado de sítio na cidade. Isso há mais de um século e a história agora se repete, como farsa.

Sim, porque a remoção da Cracolândia é uma grande farsa. Ela sai dali e renasce nas ruas ao lado. Já está acontecendo. Nada mudou. Os “noias” estão lá, os traficantes, tudo se reconstruindo, só que nas ruas vizinhas à antiga feira das drogas. A brutalidade e a implantação de políticas higienistas nunca resolverão esse problema. Elas propagam a cultura do holocausto e da limpeza étnica, sua principal marca desde que chegou.

Seja com o projeto Cidade Linda, que pintou de cinza os muros da 23 de maio, acabando com diversos murais símbolos paulistanos do grafite reconhecidos mundialmente, seja com a mudança que fez no artigo da lei que antes proibia e agora permite a Guarda Civil retirar pertences dos moradores de rua.

Veja o fiasco que foi a Virada Cultural deste ano. Era previsível que Doria queria jogar água no chope da turma que curtia as famosas 24 horas ininterruptas de atrações culturais pela cidade. Ele anunciou no Carnaval que iria privatizar o Anhembi e concentrar a Virada no Autódromo de Interlagos.

Não fez uma coisa, nem outra, o evento foi uma bagunça, shows importantes foram cancelados por falta de público e bastões de plástico que eram dados como brindes pelo Bradesco viraram lixo nas ruas e ajudaram a entupir ainda mais nossos bueiros.

Já estaria ruim se Doria fosse apenas incompetente, mas o inaceitável é o fascismo embutido em suas ações. Não é exagero usar esse termo para definir seu governo. Ele quer varrer para baixo do tapete o que a sociedade criou com séculos de governos corruptos e distribuição desigual de riquezas: a proliferação de moradores de rua, doentes mentais, prostitutas, travestis, usuários de drogas, traficantes. Eles não podem existir na sua utópica Cidade Linda, então Doria quer escondê-los, interna-los à força, na linha do “como não sei, mas tem que ser feito”.

Haddad propunha com o projeto Braços Abertos a redução de danos ao usuário, oferecendo ao “noia” assistência social, atendimento em saúde, oportunidades de emprego e moradias. Dialogava com órgãos, entidade e coletivos na política pública sobre drogas e direitos humanos. Já Doria insiste na teoria de que todo dependente químico é um safado e sem-vergonha que deve ser trancafiado e sofrer um pouco para largar a mão de ser vagabundo.

Mesmo que a Organização Mundial de Saúde já tenha reconhecido que a dependência química é uma doença, com CID (Classificação Internacional de Doenças) e tudo. Mas, não. Tem que ser na porrada. Por que o “jestor” não ouviu o experiente Serra? Por pior que seja o político José Serra, temos que reconhecer que, em seus tempos de Ministro da Saúde, ele criou o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e acabou com quase todos os hospícios, fazendo valer o que prega a luta antimanicomial no Brasil.

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Talvez não haja solução para o problema da Cracolândia, mas a barbárie contra os usuários realmente não é o melhor a ser feito. O fascismo é uma doença muito mais grave do que a dependência química e quem sofre com isso é o povo.

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