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ELEIÇÕES 2026 18/Out/2026 às 08:23 COMENTÁRIOS
ELEIÇÕES 2026

Mulheres conquistaram o voto há 94 anos, mas enfrentam ameaças para fazer política

Publicado em 18 Out, 2026 às 08h23

Dados do TSE mostram aumento de mais de 11 vezes nos processos por violência política de gênero entre 2022 e 2026. Mulheres são maioria entre as vítimas de ataques registrados na campanha eleitoral deste ano

Mulheres conquistaram voto anos enfrentam ameaças política
Ana Elisa Santos Silva (Imagem: Gabriel Paiva)

Quase um século depois de conquistarem o direito ao voto, as brasileiras ainda enfrentam ameaças de morte, violência sexual, racismo e intimidação para ocupar espaços de poder. Nas eleições de 2026, mulheres foram vítimas de mais da metade dos episódios de violência política documentados por organizações de direitos humanos, apesar de representarem aproximadamente um terço das candidaturas. O contraste revela um dos grandes desafios da democracia brasileira. O direito de votar foi conquistado, mas o exercício pleno da participação política feminina continua ameaçado.

Uma conquista que levou mais de um século

A exclusão das mulheres da política brasileira atravessou gerações. Durante grande parte da história do país, elas não podiam participar formalmente das decisões sobre os governos, as leis e os rumos da sociedade.

A mudança começou a ganhar força com a organização do movimento sufragista, especialmente nas primeiras décadas do século XX. Uma de suas principais lideranças foi Bertha Lutz, bióloga e ativista que ajudou a fundar a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

Antes mesmo do reconhecimento nacional, o Rio Grande do Norte protagonizou experiências pioneiras. Em 1927, Celina Guimarães Vianna conseguiu se alistar como eleitora em Mossoró. No ano seguinte, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes, tornando-se a primeira mulher a governar um município brasileiro.

O marco nacional veio em 24 de fevereiro de 1932, quando o Código Eleitoral reconheceu o direito das mulheres de votar e serem votadas.

Em 1934, esse direito passou a integrar a Constituição. A igualdade eleitoral, entretanto, foi construída gradualmente. Durante décadas, permaneceram diferenças nas regras de obrigatoriedade do voto entre homens e mulheres, superadas pelo Código Eleitoral de 1965.

A conquista não foi uma concessão espontânea do Estado. Foi resultado de décadas de mobilização, organização e enfrentamento de uma estrutura política que reservava aos homens os espaços de decisão.

Mulheres são maioria do eleitorado, mas minoria entre candidaturas

Em 2026, as mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro. São, portanto, maioria entre as pessoas que podem escolher os representantes do país.

Essa presença, contudo, não se traduz proporcionalmente na ocupação dos cargos políticos.

Embora representem mais da metade dos eleitores, as mulheres correspondem a aproximadamente um terço das candidaturas. A diferença evidencia obstáculos históricos relacionados à distribuição de recursos partidários, à organização do trabalho doméstico e de cuidados, ao acesso às estruturas políticas e à violência de gênero.

Nas eleições deste ano, essa última barreira ganhou contornos especialmente preocupantes.

Violência política contra mulheres cresce mais de 11 vezes

Segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de processos relacionados à violência política de gênero passou de 15, em 2022, para 177 até setembro de 2026.

O crescimento foi superior a 11 vezes em quatro anos.

Os números representam processos encaminhados à Justiça Eleitoral, e não necessariamente condenações definitivas. Ainda assim, demonstram uma ampliação expressiva das ocorrências judicializadas.

Outro levantamento, realizado pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, identificou 134 episódios de violência política durante a campanha até o primeiro turno, em 4 de outubro.

Desse total, 70 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 52,2%.

Quando considerados apenas os 102 episódios direcionados a pessoas candidatas, 60 atingiram mulheres, ou 58,8% dos casos.

O dado é particularmente significativo porque as candidaturas femininas representam cerca de um terço do total, mas concentram mais da metade das ocorrências documentadas.

Ana Elisa recebeu ameaças de morte e estupro

Um dos casos mais recentes envolve Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), de 21 anos, eleita deputada federal com 524.219 votos.

A parlamentar tornou-se a mulher mais votada da história de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados e a deputada federal mais jovem já eleita no Brasil.

Sua campanha, marcada pela presença nas redes sociais e pela defesa de pautas como educação, combate ao racismo e direitos trabalhistas, também foi acompanhada por ameaças.

Leia também: Fenômeno com 524 mil votos, Ana Elisa vai a Brasília e entra na estratégia de Lula para as redes

Segundo denúncia apresentada pela própria deputada à Polícia Civil, ela recebeu mensagens com ameaças de morte e violência sexual, além de ataques racistas e exposição de dados pessoais.

Em uma das mensagens divulgadas pela parlamentar, o remetente afirmava integrar a Ku Klux Klan, organização supremacista branca surgida nos Estados Unidos, e manifestava intolerância à presença de mulheres negras em posições de poder.

A alegação de pertencimento ao grupo foi feita pelo autor da mensagem e não comprova, por si só, vínculo efetivo com a organização.

Diante das ameaças, o partido contratou segurança para a deputada. Ana Elisa também relatou que sua equipe desativou temporariamente sua conta no X devido à frequência dos ataques.

O caso ilustra como a violência pode ultrapassar a disputa de ideias e atingir diretamente a liberdade de atuação de uma representante eleita.

Da violência verbal ao assassinato de Marielle Franco

O assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), em março de 2018, permanece como um dos episódios mais graves de violência política contra mulheres na história recente do Brasil.

Mulher negra, criada na Maré e defensora dos direitos humanos, Marielle foi assassinada a tiros no Rio de Janeiro, ao lado do motorista Anderson Gomes.

Em fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou os responsáveis pelo planejamento do crime, reconhecendo sua motivação política.

Outros episódios mostram diferentes manifestações da violência de gênero nos espaços institucionais.

Em 2014, o então deputado Jair Bolsonaro dirigiu à deputada Maria do Rosário (PT-RS) uma declaração de teor sexual ofensivo, que provocou processos judiciais e ampla repercussão nacional.

Em 2020, a deputada estadual Isa Penna (Psol-SP) sofreu importunação sexual durante uma sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo. O então deputado Fernando Cury foi posteriormente condenado pelo episódio.

Já a deputada federal Talíria Petrone (Psol-RJ) enfrentou ameaças atribuídas a milicianos, circunstância que levou à adoção de medidas de proteção.

Embora sejam casos distintos, eles demonstram que a violência contra mulheres na política pode assumir formas variadas, desde a humilhação pública e a intimidação até agressões físicas e assassinatos.

Movimento feminista denuncia ataques de setores da extrema direita

Em entrevista ao Brasil de Fato durante a cobertura do primeiro turno, a socióloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres Tica Moreno avaliou que a campanha de 2026 foi marcada por uma ofensiva de setores conservadores e da extrema direita contra candidatas de esquerda.

Segundo ela, ameaças de violência sexual, intimidações e agressões físicas integram um ambiente político que procura restringir a presença feminina nos espaços de decisão.

A presidenta nacional do Psol, Paula Coradi, apresentou avaliação semelhante. Para a dirigente, a violência política de gênero e raça funciona como mecanismo de afastamento das mulheres da vida pública.

Essas interpretações são apresentadas pelas representantes dos movimentos sociais. Os levantamentos sobre violência política documentam as ocorrências e seus impactos, mas não demonstram que todos os episódios registrados tenham sido praticados por integrantes de uma mesma corrente ideológica.

Mulheres negras são as mais atingidas

Os dados da Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, mostram que a violência política também apresenta desigualdades raciais.

Entre janeiro e agosto de 2026, foram registradas 1.564 denúncias relacionadas à violência política contra mulheres.

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Desse total, 842 envolveram mulheres pretas e pardas, o equivalente a mais de 53% das denúncias.

Outras 590 denúncias, ou 37,72%, envolveram mulheres brancas.

As ocorrências incluem ameaças, discriminação, difamação, racismo, ataques à vida privada, constrangimentos e tentativas de deslegitimar a atuação política das vítimas.

O cruzamento entre gênero e raça ajuda a compreender por que mulheres negras podem enfrentar formas simultâneas de violência e exclusão.

A violência também afasta futuras candidatas

O problema não se limita às mulheres diretamente atingidas.

Ao divulgar uma campanha de enfrentamento à violência política de gênero, o TSE alertou que ameaças e agressões podem produzir um efeito coletivo, desencorajando outras mulheres a ingressar na política.

Uma candidata ameaçada pode precisar interromper compromissos, contratar segurança, modificar sua rotina e reduzir o contato com eleitores.

A consequência ultrapassa o prejuízo individual. Quando uma parcela da população enfrenta riscos adicionais para disputar eleições, a própria igualdade de condições na democracia fica comprometida.

Direitos políticos também dependem de autonomia econômica

Para movimentos feministas, a participação política das mulheres não pode ser separada das condições concretas de vida.

A sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidados, frequentemente exercido sem remuneração, reduz o tempo disponível para formação, militância e atuação partidária.

É nesse contexto que pautas como a ampliação das creches públicas, a Política Nacional de Cuidados e a redução da jornada de trabalho ganham relevância.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Tica Moreno e Paula Coradi relacionaram essas políticas à autonomia econômica das mulheres e à possibilidade de participação mais ampla na sociedade.

A discussão sobre o fim da escala 6×1, por exemplo, envolve não apenas a quantidade de horas trabalhadas, mas também a distribuição do tempo entre emprego, descanso, responsabilidades familiares e vida pública.

Noventa e quatro anos depois, a luta continua

A história do voto feminino no Brasil demonstra que os direitos políticos foram conquistados por meio de organização social e transformações institucionais.

Em 1932, o desafio era garantir às mulheres o direito formal de escolher seus representantes. Em 2026, a democracia brasileira enfrenta também a necessidade de assegurar que elas possam disputar eleições, exercer mandatos e participar do debate público sem ameaças ou violência.

O crescimento dos processos judiciais e a quantidade de ocorrências registradas durante a campanha mostram que esse objetivo ainda está distante de ser plenamente alcançado.

A participação feminina não se resume ao número de eleitoras que comparecem às urnas. Também depende de condições para que mulheres de diferentes origens, raças e classes sociais possam ocupar espaços de decisão em igualdade de direitos.

Quase um século após a conquista do sufrágio feminino, combater a violência política de gênero continua sendo uma condição fundamental para o exercício da democracia.

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