Delmar Bertuol
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Colunistas 24/Jun/2026 às 16:57 COMENTÁRIOS
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EXAMES ALTERADOS

Delmar Bertuol Delmar Bertuol
Publicado em 24 Jun, 2026 às 16h57

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Sempre dizia, não faço exames. Isso é só pra descobrir doenças que antes tu não tinhas, pois não as sabia. É quase filosófico, se não conheço, não tenho. Ocorre que, por questões profissionais, fui obrigado a fazer exames, muitos exames: de sangue, de imagem, de xixi e até mental. O perigo era iminente. Quem depois dos quarenta não tem seus resultados alterados não está fazendo os exames certos.

Um pouco de sangue na urina, uma vitamina acima do permitido e o fígado em frangalhos. Tão gordo quanto a carne que inadvertidamente como aos quilos. Quer dizer, a médica não fechou diagnóstico. Adivinhem, quer mais exames. Da agulha da seringa até nem tenho tanto medo. O pior são as doze horas em jejum, ocasião em que o vizinho, parece que só pra inticar, resolve justamente assar churrasco em pleno dia de semana. O cheiro do osso queimando me faz delirar. Tomara que lhe ataque o fígado, também, essa costela ladeada de gordura por todos os lados. E não me cobrem empatia. Tô com fome.

Mas, como disse, ainda não se sabe ao certo o que é. Foi a médica que disse que tudo indica ser gordura no fígado e, que eu torcesse para que fosse isso, pois aí saberíamos com o que estamos lidando e é só eu mudar de vida. Alimentação balanceada e exercícios físicos regulares. Ela falou como se fosse fácil. Cortar doces, frituras e gorduras e exercitar o corpo. Não dá pra trocar por um problema que se resolva com cirurgia? O cara dorme e acorda curado. Urru, desce uma cerveja pra comemorar.

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Semana que vem mais exames (e jejuns). Se o vizinho se atrever a fogo na churrasqueira, subo no telhado e jogo água pela chaminé. Se bem que não sei se é boa ideia. Não pela política de boa vizinhança (já disse, não cobre civilidade de um homem sem comer há horas em sem perspectiva de fazê-lo antes das dez de amanhã), mas porque a médica comentou do meu excesso de peso. Sério risco de cair sobre a mesa, já com a salada de maionese posta, telhas, forro e eu.

Mas, por ora, vou me cuidando. Nada de sobremesas, exceto frutas; refrigerante eu não tomava muito, mais quando tava em ressaca, mas, agora, cortei quase por completo. E, como pretendo beber menos, a expectativa é ter menos ressaca. Terças-feiras, que é o dia de cinema lá em casa, uma ou duas taças de vinho, não duas garrafas. O desafio é final de semana beber só num dia. E moderadamente. Antes, começava a farra na sexta de tarde e só parava quando começava o Fantástico, que eu nem assistia. Um Kerb de comida e bebida. Agora, moderação. Ao invés de cachaça antes do almoço, chimarrão. E, se muito quente, em vez de pedir um barril de chope, comprar um fardo de água com gás.

E tem os exercícios. Chega de sedentarismo. Eu estava pagando a academia desde o ano passado. Sempre em dia. Mas, ao que parece, não basta só quitar os boletos, é preciso que se vá até lá pelo menos três vezes na semana e que se faça os exercícios que o professor colocou no treino. Eu não sei se tenho mais raiva do vizinho que faz churrasco no meu dia de jejum ou de quem inventou o tal do agachamento afundo. Afundar a cara do infeliz. E não venham cobrar civilidade de um homem com treinamento de pernas por fazer.

Se Deus quiser, vou melhorar. E O evoco não por mera expressão. É que, cada vez que a coisa aperta, deixo meu ceticismo de lado e Lhe peço ajuda. Uma crença oportunista, eu sei. É outro assunto a tratar com Ele no juízo final, junto com a inveja de quem está fazendo churrasco e, claro, sobre a gula.

Mas, para alguém adepto ao hedonismo, é difícil resistir às tentações gastronômicas, sobretudo as do inverno gaúcho. Ou ao chope, morador que sou de uma cidade de imigração germânica. E, ainda sobre o frio do Rio Grande, qual a motivação de sair de casa pra se exercitar se lá fora quase nem tem graus, de tão frio?

Preciso, contudo, cuidar da minha saúde. Fiz todos esses exames e consultas pelo SUS. E mais rápido do que se fosse pagar particular, talvez. Em outubro, preciso ajudar a eleger aquele que defende justamente isso, saúde pública para todos. Aliás, de saúde ele entende. Tá com oitenta e fica postando foto na academia. Levanta mais do que eu, no supino. Mas chega de inveja, por hoje.

Espero ano que vem não precisar mais dele, mas, em outubro, pela sociedade, vou votar no projeto que defende o SUS. Viram, não sou um poço de inveja e egocentrismo. Quando voto, sou empático. Penso realmente no Brasil e nos brasileiros, não em meia dúzia de golpistas ou, pior, só numa família específica.

Viva o SUS!

*Delmar Bertuol é professor de história

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