Lucio Massafferri Salles
Colunistas 11/Abr/2026 às 18:37 COMENTÁRIOS
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Instantes antes da palavra

Lucio Massafferri Salles Lucio Massafferri Salles
Publicado em 11 Abr, 2026 às 18h37

Uma criança de três anos manuseia um tablet com precisão antes de saber falar direito. Do outro lado, um sistema já a conhece melhor do que ela se conhece. Como chegamos a esse ponto sem perceber, e o que isso revela sobre o momento em que o desejo ainda não virou palavra?

Imagem: ilustração conceitual / Portal Fio do Tempo
Imagem: ilustração conceitual / Portal Fio do Tempo

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Uma criança de três anos segura um tablet. O dedo desliza pela tela com precisão: ela para, recua, escolhe, avança. A linguagem ainda não se formou direito; o vocabulário mal dá conta do que ela quer pedir quando tem fome. Mas o movimento já está pronto. Os dedinhos já sabem. Do outro lado da tela, alguém também a conhece. Não um alguém qualquer. Um sistema que mapeou o que faz essa criança parar, sorrir, querer mais, ao longo de centenas de horas. Que cor a prende. Que som a faz voltar. Quanto tempo até chegar o tédio. O sistema não precisa saber o nome dela. Ele sabe algo bem melhor: antecipa o que ela vai fazer em seguida.
A criança está sozinha no quarto. Ninguém precisou pedir silêncio. O silêncio já estava lá.

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A que ponto chegamos sem nos darmos conta? Acho importante tentarmos dar um nome pra isso. No sentido clássico de alguém que observa de fora, isso não é vigilância. Censura também não é, porque não tem nada sendo proibido. Não é propaganda, no formato antigo de uma mensagem que tenta convencer. Me parece mais a captura do afeto antes que ele vire pensamento. O sistema tocando o sujeito num ponto em que o sujeito ainda não sabe que foi tocado.

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Em 1932, Huxley enxergou tudo isso cedo demais pra ser levado a sério na época.
Admirável Mundo Novo não imagina uma ditadura. Imagina algo bem pior: uma sociedade em que o controle funciona porque é desejado. Na projeção de Aldous Huxley, os habitantes do futuro não obedecem pelo medo. Eles obedecem porque foram condicionados, desde antes do nascimento, a querer exatamente aquilo que o sistema deseja que eles queiram. O conflito foi eliminado na raiz. A individualidade real, aquela que dói, que resiste, que às vezes escolhe contra si mesma, foi substituída por uma individualidade de catálogo, em que cada um escolhe livremente entre opções já postas na mesa. A droga da felicidade distribuída pelo Estado, sem ressaca, sem culpa, sem perguntas (o “soma”), dispensa a polícia. O prazer faz o trabalho que o medo fazia.
Só errou o agente. Quem entrega a pílula hoje não é o Estado. São empresas privadas, em concorrência feroz pela atenção do sujeito. E os pais da nossa cena inicial acabam entregando a criança de boa vontade.
Gilles Deleuze vislumbrou o passo seguinte em 1990, num texto curto que envelheceu melhor do que muitos livros grossos da época. As sociedades disciplinares operavam por moldes, e seus dispositivos, a fábrica, a escola, a prisão, o hospital, eram as formas concretas desses moldes. Você entrava num lugar, o lugar te dava uma forma, você saía com aquela forma e entrava no próximo lugar. A vida era como uma sequência de moldes encadeados. De acordo com Deleuze, o que se seguiria a isso não mais operaria por moldes, mas por modulação. A forma não seria mais imposta de uma vez, ela se ajustaria continuamente, em tempo real, ao sujeito e à situação. Você não é mais um indivíduo com nome e assinatura. Você é um ser dividual, um feixe de dados que pode ser segmentado, recombinado, vendido em pedaços.

Gilles Deleuze / Post-Scriptum sobre as sociedades de controle

Numa conferência em 1987, Deleuze propôs uma imagem que vale mais do que um texto inteiro: a rodovia circular. Numa sociedade de controle, as pessoas não estão fisicamente presas. Elas se locomovem livremente. Podem escolher o trajeto e o destino, dentro do anel. Mas como a rodovia é circular, cada veículo é monitorado a qualquer instante, as saídas não são muitas, e ninguém precisa ser parado porque a estrada já é delimitada como o cárcere. Essa sensação específica de liberdade passa a ser um mecanismo de controle, ao invés de ser a sua negação.

Sociedades de Controle (Deleuze e Byung-Chul Han/pílulas filosóficas)

Byung-Chul Han leu Deleuze, o cita na íntegra, e vai mais fundo. O sujeito da rodovia deleuziana ainda andava por uma estrada construída por outro. O sujeito atual constrói a estrada enquanto anda, eis aqui o salto do truque. Cada clique deixa um rastro, cada rastro retroalimenta o sistema, o sistema usa o rastro pra sugerir o próximo clique, o próximo clique confirma a sugestão e refina o modelo. Han chamou essa estrutura viva de poder de psicopolítica: o poder que não disciplina o corpo, como em Foucault, mas que influencia e modula a psique. Um poder que age por sedução, e não por coerção. Ninguém te obriga a postar absolutamente nada. Você posta porque quer. E é precisamente porque você quer que o sistema funciona.

Um capitalismo de vigilância

Em detalhes minuciosos, Shoshana Zuboff documentou como tudo isso virou indústria. No capitalismo de vigilância, o rastro que você deixa sem perceber virou a mercadoria mais valiosa do planeta. O modelo de negócio não é mais vender o produto que você procura. É prever o que você vai querer antes de você saber, e modificar aquilo que você vai querer pra que a previsão se realize. A previsão deixa de ser um prognóstico e vira fabricação. A liberdade do consumidor não foi reduzida. Foi terceirizada pra um sistema que decide, em silêncio, o que vai aparecer como opção, e tem a delicadeza de não avisar. O que todo esse aparato produz, a perfilização, a datificação do eu, a modelagem comportamental, é uma leitura do sujeito de uma profundidade que nenhum método anterior alcançou. Não capta só o que você fez. Capta o que você hesitou antes de fazer, e o que hesitou e não fez, escolhendo outra coisa, mas deixando o traço da hesitação. Tudo isso construído ao longo do tempo, navegação a navegação, dia após dia. O instante anterior à decisão. O estado afetivo que antecede o gesto. Proponho chamar isso de ressonância psicoafetiva: não uma metáfora, mas o nome preciso do que acontece quando o sistema acumulou padrões suficientes pra antecipar seus gestos antes de você mesmo decidir fazê-los.

Byung-Chul Han: smartphone e o “inferno dos iguais”

Mas aqui vale interrogar o argumento. É cômodo colocar o sujeito só no lugar de vítima. Manipulado, capturado, modulado por forças que não vê. Esse enquadramento tem algo de verdadeiro e algo de parcial ao mesmo tempo. É verdade que as assimetrias são reais. Em capacidade de processamento e armazenamento, nenhum sujeito compete com sistemas que o estudam há anos. Mas o sujeito não é só vítima. Ele entrega os dados de bom grado, e há uma espécie de gozo nessa entrega. Ele atualiza o aplicativo. Ele coloca o tablet na mão da criança porque de algum modo é mais fácil do que negociar com ela. Ele reclama do sistema enquanto alimenta o sistema. Esse é o drama do jogo.
A captura funciona porque encontra uma demanda que já estava lá. O sujeito contemporâneo não é exatamente prisioneiro de uma cela. É cúmplice de um arranjo que oferece um conforto que ele não está disposto a perder, em troca de entregar algo por esse “privilégio”.

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Não acredito em fórmulas de saída. Muito menos nas que vêm embutidas em livros ou cursos que prometem revelar tudo, inclusive o caminho, desde que você compre. Há algo perturbador em quem percebe esse tipo de máquina de captura e decide vender o curso de como escapar dela. A percepção virou produto. O diagnóstico virou nicho. E quem compra sai com a sensação de ter entendido, que é exatamente a sensação que paralisa. Não por acaso, nos últimos anos proliferou um ativismo político por detrás da tela: abaixo-assinados, petições, curtidas em causa. O clique substituiu a palavra firme e a ação presencial.
A tecnologia, que poderia instrumentalizar a resistência, virou o substituto dela.
O que me parece possível é menos confortável e mais lento. É perceber, em si mesmo, o instante em que o estímulo chegou antes da palavra. E demorar nesse instante o suficiente pra que a palavra apareça, e a partir dela surja algo parecido com uma escolha.
A criança continua deslizando o dedo. O sistema continua aprendendo.
Resta a pergunta, e ela é para o adulto, não para a criança, porque o adulto é o único que ainda pode ouvi-la: do que estamos dispostos a abrir mão para viver com dignidade?

Leituras que conversaram com esse ensaio: Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo (1932); Gilles Deleuze, Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle (1990); Byung-Chul Han, Psicopolítica; Shoshana Zuboff, A Era do Capitalismo de Vigilância. O dado sobre publicidade infantil vem de estudo conduzido em Harvard em 2024, citado em “Infância digital: quando o algoritmo molda comportamentos das crianças“, Migalhas, 2025.

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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.

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