Lucio Massafferri Salles
Colunistas 25/Mar/2026 às 23:45 COMENTÁRIOS
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A névoa do real: sociedade em anestesia

Lucio Massafferri Salles Lucio Massafferri Salles
Publicado em 25 Mar, 2026 às 23h45

Em fevereiro de 2026, um deepfake de Bolsonaro circulou com 289 mil visualizações no Facebook. A Agência Lupa desmentiu. O vídeo continuou circulando. A falsificação sempre existiu. O que mudou é que deixou de incomodar.

Imagem: Névoa do Real (Arquivo: Portal Fio do Tempo)
Imagem: Névoa do Real (Arquivo: Portal Fio do Tempo)

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Em fevereiro de 2026, um vídeo com 289 mil visualizações no Facebook mostrava Jair Bolsonaro declarando estar elegível para as eleições presidenciais.
A voz era dele. O rosto era dele. A declaração, não.
O vídeo foi gerado por inteligência artificial a partir de uma gravação real de junho de 2025. A Agência Lupa desmentiu. O vídeo continuou circulando. Não é o fato da falsificação que chama atenção. É o que aconteceu depois. Nada.

É deepfake vídeo em que Bolsonaro diz estar elegível para as eleições

Nenhum colapso de credibilidade. Nenhuma ruptura no ciclo de consumo da informação. O desmentido alcançou quem já desconfiava. O falso permaneceu onde estava, nas bolhas onde era verdade porque precisava ser. A isso não se dá o nome de desinformação. Desinformação pressupõe um estado anterior de informação que foi corrompido. O que se instala aqui é outra coisa.
Não se trata mais de erro. Trata-se de ambiente. É o que proponho chamar de névoa do real: a opacidade sistemática entre verdadeiro e falso como condição permanente do espaço público.
A névoa não é nova.
A falsificação organizada tem genealogia longa e documentada. Domenico Losurdo, citando a antropóloga Rebecca Lemov, associa o episódio de Pont-Saint-Esprit, na França, em 1951, a experimentos com LSD no contexto das pesquisas da CIA, uma hipótese apoiada em documentos e disputada por outras explicações. Citando o filósofo Giorgio Agamben, o mesmo Losurdo documenta como cadáveres foram desenterrados e reapresentados diante das câmeras para simular um genocídio e legitimar uma mudança de regime, na Romênia de 1989. O mecanismo não é invenção recente.

Resistência Falsa e Manipulações Verdadeiras: A Geopolítica da Internet

O que é novo é que a névoa deixou de incomodar. A sociedade não foi enganada de uma vez. Foi anestesiada aos poucos. A cada ciclo de falsificação exposta e ignorada, o limiar do escândalo subiu um degrau. O que em 2016 ainda provocava indignação, uma mentira presidencial flagrante, um vídeo manipulado grosseiro, em 2026 provoca quando muito um encolher de ombros. Os números confirmam o processo. Segundo o Observatório Lupa, deepfakes com viés político quase triplicaram entre 2024 e 2025 no Brasil. O Digital News Report de 2025 registrou que mais da metade das pessoas entrevistadas declarou estar preocupada por não conseguir distinguir o que é real nas notícias online. A preocupação existe. O comportamento não muda. Essa distância entre saber e agir é um dos sinais mais precisos da anestesia. Trump é o operador mais eficiente desse ambiente, mas reduzi-lo a causa seria um erro de análise. Em março de 2026, enquanto bombas caíam sobre o Irã, ele declarou no Truth Social que havia conversas produtivas com Teerã. O Irã desmentiu em horas. Os mercados já haviam reagido. A verdade chegou tarde e pesou pouco. Pode ter havido algum contato por canais que nenhum dos lados confirmaria publicamente. Pode não ter havido nada. Ninguém sabe ao certo. E esse é precisamente o problema: declarações de guerra e paz, feitas pelo presidente da maior potência militar do mundo, já não são verificáveis em tempo real por ninguém.

Iran denies any talks with US after Trump claims ‘productive’ discussions

Quando a falsificação se torna sistemática, ela não corrompe apenas o falso. Corrompe a capacidade de reconhecer o verdadeiro quando ele aparece. O sujeito que viveu anos num ambiente de névoa densa não perde só a orientação. Perde a memória de como era ver com clareza. Byung-Chul Han chamou de psicopolítica o poder que age sobre o desejo antes que a razão entre em cena, e que encontrou nas tecnologias digitais seu instrumento mais eficiente e invisível. O que a névoa do real produz vai mais fundo: age sobre a capacidade de distinguir. Não convence de que o falso é verdadeiro. Instala a indiferença entre os dois.
O problema não é que as pessoas acreditem em deepfakes. É que muitas já não se perguntam se acreditam. A pergunta deixou de ser feita, não por preguiça, mas porque o ambiente ensinou que a resposta não muda nada.

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Não há solução rápida. Regulação de plataformas é necessária e insuficiente. Educação midiática é necessária e lenta demais para o ritmo da névoa. Antes de qualquer política, o que parece urgente é nomear o processo com precisão. Não como catastrofismo. Como diagnóstico. A névoa do real não é metáfora. É descrição de um ambiente em que a distinção entre verdadeiro e falso perdeu função operacional no espaço público. Um ambiente onde o deepfake de Bolsonaro circula com 289 mil visualizações e o desmentido chega depois, menor, mais tarde, para quem já não precisava ser convencido.
Nesse ambiente, a pergunta que resta não é quem mente. É o que fazemos quando mentir deixou de custar alguma coisa.

Referências: Agência Lupa (fev. 2026); Digital News Report 2025; Al Jazeera (mar. 2026)

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*Lucio Massafferri Salles é Psicólogo/Psicanalista, Jornalista, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da UCAM e Professor da Rede Pública de Ensino/RJ. Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, realizou seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.

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