Ex-carcereiro de Lula revela que agentes pediram para jogar o presidente de helicóptero e que temia envenenamento da comida

O agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho, responsável pela custódia de Luiz Inácio Lula da Silva durante os 580 dias em que o então ex-presidente permaneceu preso em Curitiba, revelou episódios de hostilidade e preocupação com sua segurança no livro Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula. Segundo o policial, durante o transporte de Lula de helicóptero, em abril de 2018, tripulantes de outras aeronaves invadiram a frequência de rádio para proferir ofensas e sugerir que ele fosse jogado pela janela. Chastalo também contou que chegou a comprar comida de um restaurante externo por receio de que alguém pudesse envenenar as refeições destinadas ao petista.
“Joga esse lixo pela janela!”
O episódio ocorreu durante o trajeto entre o Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, e a sede da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula cumpriria sua pena. O voo durou aproximadamente 15 minutos e foi marcado por manifestações de hostilidade transmitidas pelo rádio da aeronave.
De acordo com Chastalo, os ataques partiram de tripulantes de outras aeronaves que acessaram a mesma frequência. Entre as manifestações estavam pedidos para que Lula fosse lançado pela janela e para que jamais fosse libertado.
A situação provocou a intervenção imediata do comandante do helicóptero, que repreendeu os responsáveis e determinou que as comunicações fossem restritas aos assuntos operacionais. Uma controladora de voo também advertiu que todas as transmissões estavam sendo gravadas e poderiam ser utilizadas para responsabilizar os autores.
Policial temia que Lula fosse envenenado
O livro revela ainda a preocupação de Chastalo com a integridade física do então ex-presidente dentro da própria unidade policial.
No segundo dia de prisão, o agente decidiu não oferecer a refeição preparada para os servidores da superintendência e encomendou uma marmita de um restaurante próximo.
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A decisão, segundo ele, não estava relacionada à qualidade da alimentação, mas ao receio de que alguém pudesse adulterar a comida destinada a Lula.
O relato não apresenta evidências de uma tentativa efetiva de envenenamento. A medida foi adotada preventivamente pelo policial, diante de sua preocupação com a segurança do preso.
Bastidores dos 580 dias de prisão
Chastalo também descreve as condições da cela, que possuía uma cama de solteiro, uma mesa, uma cadeira e um armário antigo. As janelas eram protegidas por grades e correntes, permitindo uma abertura de apenas dez centímetros.
O primeiro banho de sol de Lula ocorreu somente no quarto dia de prisão, em um espaço cercado por paredes altas, que o petista comparou a uma jaula.
O policial relata que, com o passar dos meses, estabeleceu uma relação profissional e respeitosa com Lula, marcada por conversas frequentes sobre política, a Operação Lava Jato e acontecimentos familiares.
A obra também registra momentos delicados, como a morte do neto Arthur, aos sete anos, durante o período em que Lula estava preso.
Condenações foram anuladas pelo STF
Lula permaneceu preso entre abril de 2018 e novembro de 2019, quando foi libertado após o Supremo Tribunal Federal alterar o entendimento sobre a execução da pena antes do trânsito em julgado.
Em 2021, o STF anulou as condenações relacionadas à Lava Jato por entender que a Justiça Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os processos. A Corte também reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no caso do tríplex do Guarujá.
O livro de Jorge Chastalo Filho reúne 592 páginas de anotações feitas durante a custódia e apresenta um relato em primeira pessoa sobre os bastidores de um dos episódios mais marcantes da história política recente do Brasil.
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