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ELEIÇÕES 2026 13/Out/2026 às 00:23 COMENTÁRIOS
ELEIÇÕES 2026

Mais de 3 milhões de eleitores ausentes no Rio levantam questão sobre milícias

Publicado em 13 Out, 2026 às 00h23

Abstenção no Rio de Janeiro levanta questões sobre o poder das milícias e a liberdade do voto. Entenda os dados e o que ainda precisa ser investigado

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Imagem: TRE-RJ

Mais de 3 milhões de eleitores teriam deixado de comparecer às urnas no Rio de Janeiro no primeiro turno das eleições de 2026, segundo números que ainda precisam ser confrontados com a totalização oficial da Justiça Eleitoral. A dimensão da abstenção desperta uma pergunta relevante em um estado onde organizações criminosas exercem controle territorial sobre diversas comunidades. Quantas pessoas não votaram por razões pessoais e quantas podem ter enfrentado algum tipo de intimidação ou restrição ao exercício de seus direitos políticos?

Abstenção no Rio exige análise detalhada

O Rio de Janeiro possui aproximadamente 12,9 milhões de eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Caso seja confirmado o número superior a 3 milhões de ausentes, a taxa estadual ultrapassaria 23%, acima da média nacional de 21,08% registrada no primeiro turno.

No Brasil, 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas em 4 de outubro. O índice nacional foi um dos mais elevados das últimas décadas.

Uma pesquisa Datafolha sobre a abstenção identificou motivos como viagens, problemas de saúde, desinteresse político e compromissos de trabalho. Esses dados ajudam a compreender o fenômeno nacional, mas não esclarecem necessariamente as particularidades de cada região do Rio de Janeiro.

Para verificar se a atuação de organizações criminosas influenciou o comparecimento eleitoral, seria necessário cruzar os índices de abstenção por zona e seção eleitoral com informações sobre controle territorial, denúncias de intimidação e registros das autoridades.

O poder territorial das milícias

A atuação de milícias no Rio de Janeiro é um problema documentado por investigações policiais, operações do Ministério Público e estudos sobre segurança pública.

Esses grupos, frequentemente formados ou comandados por agentes e ex-agentes de segurança, exercem controle sobre territórios e atividades econômicas, incluindo transporte, fornecimento de serviços e comércio local.

Leia também: Paes denuncia possível fraude eleitoral após santinhos falsos e 204 mil votos anulados no Rio

O domínio territorial também pode produzir consequências políticas, especialmente quando moradores ficam sujeitos a ameaças, coerção ou restrições impostas por organizações armadas.

Isso não significa, entretanto, que a abstenção registrada nas eleições de 2026 tenha sido provocada por esses grupos. Até o momento, os elementos apresentados não demonstram uma relação causal entre a ausência de eleitores e a atuação de milícias.

A possibilidade merece investigação justamente porque o voto livre e secreto depende de condições concretas de segurança e autonomia dos cidadãos.

Relações de Flávio Bolsonaro com personagens ligados a investigações

O debate sobre milícias também recupera episódios documentados da trajetória política do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República.

Quando era deputado estadual, Flávio concedeu homenagens ao ex-policial militar Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como integrante de uma organização criminosa e liderança do chamado Escritório do Crime.

Adriano recebeu a Medalha Tiradentes por iniciativa do parlamentar em 2005, quando estava preso sob acusação de homicídio. Posteriormente, foi absolvido daquela acusação. O ex-policial morreu em 2020 durante uma operação policial na Bahia.

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Flávio Bolsonaro afirmou, em entrevista ao Jornal Nacional em agosto de 2026, que conheceu Adriano quando ele integrava o Bope e que, na época da homenagem, o considerava um policial exemplar. O senador sustenta que a condecoração ocorreu antes das acusações posteriores relacionadas à atuação de grupos criminosos.

A mãe e a esposa de Adriano também trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A contratação dessas familiares foi examinada nas investigações do Ministério Público sobre o suposto esquema de desvio de salários de assessores conhecido como rachadinha.

Esses episódios são fatos distintos e não constituem, isoladamente, prova de participação do senador em atividades de milícias.

Emenda parlamentar e o caso Marielle Franco

Em setembro de 2026, reportagens da revista *piauí* e do g1 revelaram mensagens envolvendo uma assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro e Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, ligado ao grupo político dos irmãos Brazão e condenado no processo sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco.

Segundo as reportagens, as conversas trataram da destinação de recursos de emenda parlamentar, de aproximadamente R$ 200 mil, a uma entidade associada a Peixe.

A documentação levantou questionamentos sobre os critérios de destinação dos recursos públicos e os contatos mantidos entre integrantes do gabinete parlamentar e pessoas relacionadas a organizações criminosas.

A existência dessas mensagens, contudo, não permite concluir automaticamente que Flávio Bolsonaro conhecia eventuais irregularidades ou que os recursos tenham sido destinados intencionalmente a financiar atividades criminosas.

O que precisa ser investigado

A dimensão da abstenção no Rio de Janeiro exige respostas que vão além das disputas entre candidatos.

Uma apuração consistente deveria identificar os municípios e bairros com maiores taxas de ausência, comparar os dados com eleições anteriores e verificar se houve denúncias de ameaças, bloqueios de circulação ou interferência de grupos armados.

Também seria necessário distinguir regiões dominadas por milícias daquelas sob influência de outras organizações criminosas, evitando atribuir a um único fenômeno situações que podem ter causas diferentes.

A diferença entre os resultados eleitorais e as pesquisas de intenção de voto, por sua vez, não comprova fraude, intimidação ou qualquer interferência criminosa. Pesquisas são estimativas sujeitas a margens de erro, variações metodológicas e mudanças de preferência.

Em uma democracia, a ausência de milhões de eleitores deve ser compreendida antes de receber explicações definitivas.

No Rio de Janeiro, onde o poder territorial de organizações armadas é um problema reconhecido pelas autoridades, investigar possíveis obstáculos ao exercício do voto é uma questão de interesse público.

A pergunta central permanece aberta. Os eleitores deixaram de votar por motivos semelhantes aos observados no restante do país ou existem fatores locais que exigem uma resposta específica das instituições?

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