Redação Pragmatismo
Economia 06/Jun/2026 às 13:54 COMENTÁRIOS
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União Europeia veta carne brasileira e decisão pode gerar prejuízo de até US$ 2 bilhões por ano ao agronegócio

Publicado em 06 Jun, 2026 às 13h54

Bloco europeu retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar diversos produtos de origem animal após concluir que o país não comprovou adequadamente o controle sobre o uso de antimicrobianos na pecuária

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Imagem: Marcello Casal Jr | Agência Brasil

A União Europeia oficializou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar diversos produtos de origem animal para o mercado europeu, numa decisão que pode provocar perdas próximas de US$ 2 bilhões por ano ao agronegócio nacional.

A medida foi publicada pela Comissão Europeia e passa a valer em 3 de setembro de 2026. A partir dessa data, o Brasil ficará impedido de exportar para os 27 países do bloco produtos como carne bovina, carne de frango, carne equina, mel, peixes, ovos, produtos aquícolas e tripas.

O anúncio gerou preocupação no setor produtivo brasileiro não apenas pelo impacto financeiro imediato, mas também pelo simbolismo da decisão. A União Europeia é um dos mercados mais exigentes do mundo em termos sanitários e regulatórios e reúne aproximadamente 450 milhões de consumidores.

Por que a União Europeia decidiu barrar os produtos brasileiros?

Diferentemente do que algumas interpretações sugeriram nas redes sociais, a decisão não foi motivada pela descoberta de carne contaminada, surtos sanitários ou irregularidades detectadas em produtos brasileiros exportados para a Europa.

Segundo a Comissão Europeia, o problema está relacionado à comprovação dos mecanismos de fiscalização e controle sobre o uso de antimicrobianos na produção animal brasileira.

Os antimicrobianos são substâncias utilizadas para combater bactérias, fungos e outros microrganismos. Em diversos países, algumas dessas substâncias também foram historicamente utilizadas para acelerar o crescimento dos animais e melhorar indicadores produtivos.

Nos últimos anos, a União Europeia passou a restringir fortemente essa prática, especialmente quando os antimicrobianos são empregados para finalidades não terapêuticas.

A legislação europeia exige que países exportadores demonstrem, por meio de sistemas de fiscalização, monitoramento e rastreabilidade, que os animais destinados ao mercado europeu não utilizam substâncias proibidas ou que estão submetidos a controles equivalentes aos adotados dentro do bloco.

Segundo o documento publicado pela Comissão Europeia, o Brasil não apresentou informações consideradas suficientes para comprovar essa conformidade.

Em comunicado ao portal Euractiv, a porta-voz da Comissão Europeia para Saúde, Eva Hrncirova, afirmou que o Brasil não forneceu garantias adequadas de que cumpre integralmente os requisitos exigidos pela legislação europeia.

“A Comissão Europeia confirma que o Brasil não está incluído na lista, o que significa que não poderá mais exportar para a União Europeia produtos como bovinos, equinos, aves, ovos, produtos da aquicultura, mel e tripas a partir de 3 de setembro de 2026”, declarou.

Quais substâncias estão no centro da discussão?

Entre os antimicrobianos cujo uso é alvo de restrições na União Europeia estão:

⭢ Virginiamicina;
⭢ Avoparcina;
⭢ Bacitracina;
⭢ Tilosina;
⭢ Espiramicina;
⭢ Avilamicina.

A União Europeia considera que essas substâncias não devem ser utilizadas como promotores de crescimento animal devido aos riscos associados à resistência antimicrobiana, um dos maiores desafios globais de saúde pública segundo organismos internacionais.

Em abril deste ano, o Ministério da Agricultura publicou uma portaria proibindo a importação, fabricação, comercialização e uso de parte desses compostos, incluindo a avoparcina e a virginiamicina.

Para as autoridades europeias, contudo, as medidas adotadas até agora não foram suficientes para comprovar que toda a cadeia produtiva brasileira atende aos requisitos exigidos pelo bloco.

Impacto bilionário nas exportações brasileiras

A União Europeia representa um mercado importante para as proteínas animais produzidas no Brasil.

Dados do Agrostat, sistema do Ministério da Agricultura, mostram que os produtos atingidos pela medida movimentaram aproximadamente US$ 1,8 bilhão em exportações para o bloco europeu apenas em 2025.

A carne bovina concentra a maior parte desse valor.

No ano passado, o Brasil exportou para a Europa cerca de 128 mil toneladas de carne bovina, gerando receita superior a US$ 1 bilhão.

O bloco europeu é atualmente o terceiro principal destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

A carne de frango também possui peso relevante. Em 2025, as exportações para os países europeus renderam aproximadamente US$ 762 milhões.

As vendas de mel somaram cerca de US$ 6 milhões, além dos embarques de peixes, produtos aquícolas e outros itens agora afetados pelo veto.

Somando todos os segmentos atingidos, estimativas do setor apontam para perdas anuais próximas de US$ 2 bilhões caso a situação não seja revertida.

Brasil foi o único país excluído por esse motivo

Outro aspecto que chamou atenção foi o fato de o Brasil ter sido o único país removido da lista por não apresentar as informações exigidas pela Comissão Europeia.

Países do Mercosul que competem diretamente com o Brasil, como Argentina, Uruguai e Paraguai, permaneceram autorizados a exportar normalmente para o mercado europeu.

Outros países foram retirados da lista em segmentos específicos, mas por razões administrativas ou pela ausência de interesse comercial em determinados produtos.

Debate entre exigência sanitária e protecionismo

A decisão ocorre poucos meses após a entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, tratado que enfrenta forte resistência de agricultores europeus, especialmente na França.

Produtores rurais franceses vêm pressionando seus governos e as instituições europeias contra a ampliação das importações agropecuárias sul-americanas.

Por isso, entidades brasileiras passaram a questionar se a decisão possui motivação exclusivamente sanitária ou se também reflete pressões econômicas e políticas internas do continente.

O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo, afirmou que há forte mobilização de produtores europeus para limitar a entrada de produtos brasileiros.

“Para o mel, é totalmente descabido falar em risco de uso excessivo de antibióticos, considerando que o Brasil é o principal produtor de mel orgânico do mundo”, declarou.

Já a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) afirmou ver com preocupação qualquer tentativa de transformar exigências regulatórias em barreiras comerciais.

A Comissão Europeia, por sua vez, rejeita essa interpretação.

“Nossos agricultores seguem alguns dos padrões de saúde e antimicrobianos mais rigorosos do mundo. Portanto, é legítimo que os produtos importados estejam sujeitos aos mesmos requisitos”, afirmou o comissário europeu para Agricultura, Christophe Hansen.

O Brasil pode voltar a exportar?

Sim.

A própria Comissão Europeia informou que a suspensão não é definitiva.

Segundo o bloco, o Brasil poderá retornar à lista de países autorizados assim que comprovar o cumprimento integral das exigências sanitárias relacionadas aos antimicrobianos.

Especialistas apontam dois caminhos principais.

O primeiro seria ampliar as restrições nacionais ao uso das substâncias ainda questionadas pela União Europeia.

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O segundo seria implementar sistemas robustos de rastreabilidade capazes de demonstrar, individualmente, que os animais destinados à exportação não utilizaram os produtos proibidos.

Essa segunda alternativa é considerada mais complexa, demorada e onerosa, pois exige monitoramento detalhado de toda a cadeia produtiva.

O que diz o setor produtivo brasileiro

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) afirmou que a decisão europeia não decorre de qualquer problema sanitário identificado na produção brasileira.

Segundo a entidade:

“É importante esclarecer que a medida não decorre de qualquer questionamento sanitário, não conformidade ou problema identificado em relação ao uso de antimicrobianos na produção animal brasileira. O tema em discussão refere-se aos procedimentos de comprovação e reconhecimento, pela União Europeia, dos mecanismos oficiais de fiscalização e controle adotados pelo Brasil, conduzidos pelas autoridades competentes.”

A entidade acrescenta que o Brasil possui um dos sistemas de controle sanitário mais robustos do mundo.

“O Brasil possui um dos mais robustos sistemas de controle sanitário e de produção animal do mundo, com atuação integrada entre o setor produtivo e o Ministério da Agricultura e Pecuária, garantindo elevados padrões de qualidade, rastreabilidade, biosseguridade e segurança dos alimentos.”

A associação informou ainda que continuará trabalhando junto ao governo brasileiro para prestar esclarecimentos às autoridades europeias e buscar a reversão da medida.

“A ABPA seguirá colaborando com as autoridades nacionais e acompanhando as tratativas em curso, confiante de que o diálogo técnico e a apresentação das informações necessárias contribuirão para o adequado reconhecimento dos mecanismos brasileiros de fiscalização.”

Enquanto isso, governo federal, Ministério da Agricultura e entidades do agronegócio iniciam uma corrida contra o tempo para tentar evitar que um dos principais mercados consumidores do mundo permaneça fechado para produtos brasileiros justamente no momento em que o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia começa a ser implementado.

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