Lucio Massafferri Salles
Colunistas 01/Fev/2026 às 11:22 COMENTÁRIOS
Colunistas

Você sabe quando está sendo manipulado? Guerra híbrida na era da inteligência artificial

Lucio Massafferri Salles Lucio Massafferri Salles
Publicado em 01 Fev, 2026 às 11h22

A guerra híbrida nunca é declarada. Opera por ocultamento e técnicas psicológicas agora potencializadas por IA e plataformas digitais. Como distinguir crise interna de operação estruturada quando a opacidade é o próprio método?

Imagem: Portal Fio do Tempo
Imagem: Portal Fio do Tempo

Lucio Massafferri Salles*, Pragmatismo Político

Guerra Híbrida 2.0: quando a opacidade se torna método

Dez anos atrás, o conceito de guerra híbrida circulava com certa desenvoltura nos debates sobre geopolítica, especialmente no contexto latino-americano. Falava-se de operações de troca de regime, de linguagem como arma, de propaganda coordenada, de judicialização estratégica, de fabricação pontual de crises e de convulsão psicossocial. O vocabulário estava presente, os exemplos eram discutidos, as denúncias circulavam. Mas, creio que algo mudou. Não exatamente o conceito — e sim a arquitetura técnica que o sustenta.
Hoje, vivemos sob um arranjo profundamente transformado: inteligência artificial generativa, plataformas digitais de alcance planetário, microtargeting comportamental, cibernética da persuasão, economia da atenção, engenharia de narrativas em tempo real.
A pergunta que se impõe — sem tom conspiratório (ok?), mas também sem ingenuidade — é a seguinte: estariam certas técnicas e estratégias de influência sendo reativadas, reconfiguradas, potencializadas por esses novos meios tecnológicos? E, mais importante ainda: como detectar operações estruturadas de desestabilização quando a opacidade não é um efeito colateral, mas o próprio método?
Este ensaio não pretende oferecer respostas definitivas. Pretende levantar questões que merecem atenção — e que, diga-se, não são triviais. A distinção entre crise interna “espontânea” e operação de influência externa ficou turva demais; critérios clássicos de prova parecem inadequados quando o fenômeno é desenhado justamente para não deixar rastros.

Linguagem, narrativa e a produção do caos

Não é novidade que a linguagem tem poder de ação sobre a psique. Górgias Leontino, no século V a.C., já compreendia a palavra como phármakon — remédio e veneno, simultaneamente. A retórica, para ele, não era mero ornamento discursivo, mas tecnologia de intervenção nos afetos, capaz de produzir medo, desejo, indignação, júbilo. A palavra age no corpo social de maneira análoga ao que certos fármacos fazem nos corpos individuais: excita, acalma, paralisa, convulsiona.
Edward Bernays, sobrinho de Freud, compreendeu isso com uma clareza devastadora. Nas décadas de 1920 e 1930, Bernays desenvolveu métodos sofisticados de persuasão em massa que não dependiam de argumentação racional, mas de mobilização de desejos inconscientes, de associações simbólicas, de ancoragem afetiva. Suas campanhas publicitárias — como a que transformou o cigarro em “tocha da liberdade” para mulheres, ou a que consolidou o café da manhã reforçado como signo de saúde nos EUA — não vendiam produtos: vendiam identidades, modos de vida, pertencimentos. E, em 1954, Bernays aplicou essas mesmas técnicas para derrubar um governo democraticamente eleito na Guatemala, orquestrando uma campanha de desinformação que caracterizou reformas agrárias como “ameaça comunista”.

The manipulation of the American mind: Edward Bernays and the birth of public relations

O que Bernays fazia manualmente — escolhendo veículos de mídia, coordenando jornalistas, plantando boatos — hoje roda em algoritmo. Escala planetária, precisão cirúrgica. As plataformas não só amplificam mensagens: segmentam audiências, testam variações em tempo real, ajustam tom e intensidade conforme a resposta emocional. É como Bernays multiplicado por um milhão, operando 24 horas por dia, sem pausa. O microtargeting permite que diferentes grupos recebam versões contraditórias de um mesmo evento, cada qual reforçando seus vieses prévios, sem que haja um espaço comum de verificação. A narrativa deixa de ser una para se tornar fractal — múltipla, adaptativa, indetectável em sua totalidade.

A fabricação pontual do caos

Uma das características das operações híbridas é a produção estratégica de instabilidade. Não se trata de destruir o adversário diretamente, mas de gerar condições internas para que ele se desestabilize sozinho. Crises econômicas podem ser amplificadas por pânico financeiro fabricado; tensões étnicas ou regionais podem ser inflamadas por narrativas divisivas; instituições podem ser deslegitimadas por campanhas coordenadas de difamação. O objetivo não é a conquista territorial, mas a erosão da coesão social, da confiança nas instituições, da capacidade de ação coletiva.
Dez anos atrás, isso exigia coordenação humana intensiva — redes de agentes, financiamento de grupos locais, controle de veículos de mídia tradicionais. Hoje, basta um ecossistema de bots, contas automatizadas, deepfakes, sites de notícias falsas com aparência profissional, algoritmos de recomendação que amplificam conteúdo polarizador. A instabilidade pode ser produzida industrialmente, terceirizada, negada com facilidade. Não há declaração de guerra, não há invasão visível, não há culpados identificáveis.
E aqui reside um dos problemas centrais: como distinguir uma crise interna legítima — resultado de contradições sociais reais, de insatisfação popular genuína, de falhas estruturais de governança — de uma operação de desestabilização orquestrada externamente? Como separar a indignação espontânea do afeto fabricado, a mobilização autônoma da campanha coordenada? Não há resposta simples. E essa ambiguidade não é acidental: ela é estratégica.

A opacidade como estrutura

Via de regra, operações híbridas operam por negação plausível. Seus executores nunca assumem responsabilidade direta; seus rastros são difusos, seus atores são múltiplos e frequentemente involuntários. Uma pessoa comum, ao compartilhar uma notícia falsa que reforça suas crenças, torna-se — sem saber — parte de uma cadeia de desinformação. Um influenciador digital, ao reproduzir narrativas polarizadoras, pode estar amplificando campanhas cujas origens ele desconhece. A superfície da operação é visível; suas raízes, são invisíveis.
Isso coloca um desafio epistemológico sério: os critérios clássicos de prova — documentos oficiais, declarações públicas, rastros financeiros diretos — tornam-se insuficientes quando o fenômeno é desenhado justamente para não deixar essas marcas. Exigir “provas definitivas” de uma operação híbrida é, em certo sentido, cair na armadilha conceitual que ela própria cria. Não se trata de conspiração paranoica, mas de reconhecer que há formas de ação política e geopolítica que funcionam justamente pela opacidade.
Andrew Korybko, ao analisar as chamadas “revoluções coloridas”, apontou que essas operações dependem de um arranjo complexo entre financiamento externo, mobilização local, manipulação midiática e intervenção psicológica.

Guerras híbridas: militarização da teoria do caos

Isoladamente, nenhum desses elementos constitui prova cabal de uma operação orquestrada. Mas a convergência deles, a repetição de padrões em diferentes contextos geográficos, a sincronização de eventos que parecem espontâneos mas seguem roteiros conhecidos — tudo isso sugere a presença de algo que não pode ser capturado pelos instrumentos tradicionais de análise.

O racionalismo que nega o páthos

Há, entre certos analistas e estudiosos, uma resistência curiosa em reconhecer o papel central da psicologia e da manipulação afetiva nas dinâmicas políticas contemporâneas. Para muitos, a psicologia permanece sendo vista como um “campo de pensamentos subjetivos”, sem fundamentação científica rigorosa, distante das análises “sérias” baseadas em economia, direito internacional, relações de poder tradicionais. Esse viés racionalista — que privilegia interesses materiais, cálculos estratégicos, estruturas formais — tende a subestimar ou ignorar o páthos, as emoções, as fragilidades e fissuras das mentes humanas como alvos de influenciação, manipulação e controle.
Essa resistência é, no mínimo, anacrônica. Desde meados do século XX existe um alinhamento — inegável, documentado — entre psicologia e cibernética. Não foi acidente: foi cultivado deliberadamente em laboratórios de pesquisa militar, agências de inteligência, campanhas políticas. Ignora-lo não é rigor. É cegueira voluntária. Os experimentos da CIA com LSD em Pont-Saint-Esprit, na França, em 1951, não eram delírios de ficção científica: eram tentativas reais de “destruir e reconstruir a psique das pessoas”, como documentou a antropóloga Rebecca Lemov. O projeto MK-Ultra, as pesquisas sobre lavagem cerebral, os estudos sobre condicionamento comportamental em massa — tudo isso faz parte de um esforço sistemático, financiado por Estados e corporações, para desenvolver tecnologias de controle psicológico.
Ignorar isso não é rigor analítico. É cegueira voluntária.
A psicologia não é subjetivismo vago: é ciência que estuda padrões de comportamento, mecanismos de tomada de decisão, estruturas afetivas, processos cognitivos. E a cibernética — entendida como ciência dos sistemas de controle e comunicação — fornece os instrumentos técnicos para aplicar esse conhecimento em larga escala. Juntas, essas disciplinas criam o que Shoshana Zuboff chamou de “capitalismo de vigilância”: um regime em que dados comportamentais são capturados, processados, modelados e utilizados para prever e modificar ações humanas.

Capitalismo de Vigilância e Democracia, com Shoshana Zuboff

Quando analistas excessivamente racionalistas desconsideram o peso das emoções, dos medos, dos ressentimentos, das ansiedades coletivas, eles perdem de vista justamente o terreno onde as operações híbridas são mais eficazes. Não é por acaso que campanhas de desinformação não apelam à razão, mas ao medo, à raiva, ao ódio, ao desejo de pertencimento. Não é por acaso que narrativas polarizadoras funcionam melhor do que argumentos nuançados. Não é por acaso que a engenharia de percepções se concentra em afetos, não em fatos.

Continuidade técnica, novos meios

A pergunta inicial permanece: há uma continuidade técnica e estratégica entre as operações de guerra híbrida de uma década atrás e as práticas contemporâneas de influência digital? A resposta mais honesta é: sim, mas com uma diferença crucial. As técnicas não foram abandonadas — foram automatizadas, aceleradas, tornadas mais precisas. O que antes exigia dezenas de agentes humanos hoje pode ser feito por algoritmos. O que antes dependia de controle de alguns veículos de mídia hoje se dilui em redes descentralizadas de desinformação. O que antes era detectável por métodos tradicionais de inteligência hoje se camufla em fluxos de dados aparentemente inocentes.

Leia aqui todos os artigos de Lucio Massafferri Salles

E isso não significa que tais operações estejam ocorrendo em todos os lugares, o tempo todo. Significa que os meios técnicos para sua execução existem, estão disponíveis, estão sendo aperfeiçoados. Significa que a distinção entre influência legítima e manipulação ilegítima tornou-se turva. Significa que a responsabilidade por crises políticas e sociais não pode mais ser atribuída com a mesma facilidade de antes.
Não se trata de paranoia. Trata-se de reconhecer que vivemos sob condições de possibilidade novas — e que essas condições exigem novos critérios de análise, novos instrumentos de detecção, novas formas de vigilância democrática.
Se há algo que aprendemos com Edward Bernays, com as operações da CIA, com as revoluções coloridas, com o escândalo da Cambridge Analytica / SCL Group, é que a manipulação em massa não é ficção: é realidade documentada, tecnicamente viável, politicamente lucrativa.

Perguntas sem respostas fáceis

Este ensaio não oferece conclusões definitivas. Oferece, antes, perguntas que merecem ser levadas a sério:
— Como distinguir crise interna de operação externa quando ambas podem ter as mesmas manifestações visíveis?
— Que critérios de prova são adequados para fenômenos que operam por opacidade estrutural?
— Por que tantos analistas resistem em reconhecer o peso da psicologia e da manipulação afetiva nas dinâmicas políticas?
— Estariam técnicas de guerra híbrida sendo exportadas, reconfiguradas, potencializadas por IA e plataformas digitais?
— Que formas de vigilância democrática são possíveis sem cair em autoritarismo ou paranoia?
Essas perguntas não têm respostas simples. Mas evitá-las é, talvez, o maior risco de todos.

Leia também:

Democracia hackeada – a manipulação e o direcionamento de alvos na grande rede
Nas redes da guerra: uma negligência programada
Comunicação e psicologia das massas na geopolítica da internet
Artefatos semióticos e catarse do riso nas guerras híbridas
O poder da linguagem da arquitetura do caos

*Lucio Massafferri Salles é psicólogo/psicanalista, filósofo, jornalista e professor da rede pública de ensino/RJ. Doutor e mestre em filosofia pela UFRJ, especialista em psicanálise pela USU, realizou o seu estágio de Pós-Doutorado em Filosofia Contemporânea na UERJ. É o criador e responsável pelo canal Portal Fio do Tempo, no YouTube.

→ SE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI… Saiba que o Pragmatismo não tem investidores e não está entre os veículos que recebem publicidade estatal do governo. Fazer jornalismo custa caro. Com apenas R$ 1 REAL você nos ajuda a pagar nossos profissionais e a estrutura. Seu apoio é muito importante e fortalece a mídia independente. Doe através da chave-pix: [email protected]

Recomendações

COMENTÁRIOS